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Batalha política pela vacina é retomada no Brasil após suspensão de testes

CoronaVac tem sido o centro de uma batalha política no país afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 10. novembro 2020 - 19:03
(AFP)

O Instituto Butantan, em São Paulo, principal produtor de vacinas do país, expressou sua "indignação" nesta terça-feira (10) após a suspensão dos ensaios clínicos da vacina CoronaVac, que o presidente Bolsonaro comemorou como uma "vitória", em um novo capítulo da politização da pandemia.

Tanto o Butatan quanto o governo de São Paulo, cujo governador, João Doria, é o principal adversário político de Bolsonaro, sustentaram que o "incidente adverso grave", ocorrido em 29 de outubro, que motivou a suspensão dos testes pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) foi um óbito que não tinha relação com a vacina.

O Instituto Médico Legal (IML) de São Paulo informou à AFP que o caso mencionado foi registrado e está sendo investigado como suicídio.

A informação não foi confirmada pela Anvisa, cujo diretor-presidente, Antônio Barra Torres, defendeu nesta terça, durante coletiva de imprensa, que a suspensão decidida na véspera deveu-se a motivos técnicos.

"As informações veiculadas ontem foram consideradas insuficientes, incompletas, para dar continuidade aos estudos" para o desenvolvimento da vacina, disse Barra Torres, sem dar detalhes do ocorrido.

Ele não informou quando os testes poderão ser retomados.

- "Mais uma que Jair Bolsonaro ganha" -

Nesta terça, Bolsonaro comemorou pelo Facebook a decisão da Anvisa, ao responder a um internauta que perguntava se o governo compraria e produziria a vacina caso os testes - atualmente na fase 3 - mostrassem que é segura e eficaz.

"Morte, invalidez, anomalia. Esta é a vacina que o Dória queria obrigar a todos os paulistanos tomá-la. O Presidente disse que a vacina jamais poderia ser obrigatória. Mais uma que Jair Bolsonaro ganha", escreveu o presidente.

A declaração provocou uma enxurrada de críticas de seus adversários políticos, entre eles o ex-candidato à Presidência Ciro Gomes (PDT), que escreveu no Twitter que "cadeia é pouco para canalhas que fazem politicagem com vacina".

Dimas Covas, presidente do Instituto Butantan, garantiu em entrevista coletiva nesta terça-feira que a decisão da Anvisa tinha causado surpresa e indignação, mas que esperava que fosse revertida rapidamente.

"Não existe absolutamente nenhuma reação da causa da morte desse paciente com essa suposta vacina - pois não sabemos sequer se ele tomou vacina ou placebo - mas sabemos que não existe relação de causa e efeito", acrescentou João Gabbardo, diretor-executivo do centro de contingência da covid-19 do governo de São Paulo.

O laboratório chinês Sinovac Biotech também afirmou que o incidente em questão não tem relação com a vacina e se disse confiante em sua segurança.

- Pandemia e política -

A CoronaVac tem sido o centro da batalha política no país entre Bolsonaro e Doria, que já tiveram conflitos por causa das medidas de quarentena defendidas pelos governadores e do uso de cloroquina, incentivado pelo presidente.

São Paulo tem acordo com a Sinovac para adquirir 46 milhões de doses, sendo seis milhões produzidas na China e as demais em São Paulo.

Horas antes de ser anunciada a suspensão dos testes, Doria havia informado que as primeiras 120 mil doses da CoronaVac chegariam a São Paulo no dia 20 de novembro, e que já haviam começado as obras de uma fábrica que terá capacidade para produzir até 100 milhões de doses por ano.

Para serem fornecidas à população, as vacinas devem completar os ensaios da fase 3 (para comprovar sua eficácia e segurança) e ser aprovadas pela Anvisa.

O presidente referiu-se à vacina criada pela Sinovac como a "daquele outro país" e, em vez disso, elogiou a que está sendo desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica britânica AstraZeneca, que também se encontra em fase de testes no país.

No mês passado, Bolsonaro cancelou um acordo para comprar doses da vacina chinesa, algo que havia sido anunciado por seu próprio ministro da Saúde.

"O povo brasileiro não será cobaia de ninguém", afirmou Bolsonaro na ocasião, referindo-se ao projeto como "a vacina chinesa de João Doria".

O revés para a CoronaVac ocorre ao mesmo tempo em que a gigante farmacêutica americana Pfizer anunciou que sua vacina contra o coronavírus é 90% eficaz.

As vacinas Pfizer e Sinovac estão na fase 3 dos testes e ambas estão sendo testadas no Brasil, o país com o segundo maior número de mortes pela covid-19, atrás somente dos Estados Unidos, que registra mais de 162.000 mortes.

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