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Da alta na tarifa do metrô ao plebiscito constitucional, um ano de protestos no Chile

Os Carabineros do Chile prendem um manifestante durante protesto contra o governo do presidente Sebastián Piñera em Santiago, em 25 de setembro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 16. outubro 2020 - 18:04
(AFP)

"Não são 30 pesos, são 30 anos", a frase dos protagonistas dos protestos no Chile sintetiza o descontentamento que há um ano desencadeou a maior efervescência social desde que o país voltou à democracia em 1990, e deu início a um processo de esperança para alguns, embora para outros tenha empurrado o país para a beira do precipício.

Quando os chilenos se preparavam para sediar duas importantes reuniões internacionais (a cúpula econômica da APEC, que pertence ao Fórum de Cooperação Econômica Ásia-Pacífico, e a COP-25, sobre mudança climática), o presidente Sebastián Piñera anunciava o Chile como um "oásis" de estabilidade na América Latina, mas começaram as manifestações.

O gatilho foi uma série de ocupações de alunos do ensino médio ao metrô de Santiago, algumas delas massivas e violentas.

"Fugir, não pagar, outra forma de lutar", afirmavam os estudantes nas catracas, reclamando o aumento de 30 pesos (0,03 centavos) no valor da passagem.

Um ano depois, após um adiamento em abril por conta da pandemia, os chilenos votarão no dia 25 de outubro em um plebiscito que definirá se a Constituição herdada da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990) será ou não alterada.

O referendo foi aprovado por acordo entre as forças políticas após um dos dias mais violentos desde o início dos protestos.

Naquela sexta-feira, 18 de outubro, outros manifestantes se juntaram aos alunos. E à noite, vários pontos de Santiago estavam em chamas depois que uma dúzia de estações de metrô, prédios e ônibus foram atacados.

Além disso, foram feitas barricadas em várias partes da cidade e houve ataques ao comércio e roubos.

"Essa vontade de destruir tudo não é protesto, é crime", declarou Piñera, que durante os ataques às estações foi flagrado comendo pizza com os netos em um restaurante, imagem que se tornou viral nas redes sociais e provocou indignação.

O episódio terminou com tanques militares protegendo o palácio do governo depois que o "estado de emergência" foi decretado.

No dia seguinte, Santiago acordou irreconhecível, com semáforos no chão, restos de ônibus queimados, lojas saqueadas e milhares de pedras e pedaços de madeira nas ruas.

"Tudo o que está acontecendo é muito triste, mas as pessoas estão indignadas porque não as escutam", disse naquele dia Antonia, de 26 anos, à AFP, no coração da capital chilena.

- O Chile acordou -

Sem muitos sinais prévios, exceto por alguns protestos estudantis, o governo Piñera - que até então tinha vivido com relativa calma o primeiro ano e meio de seu segundo mandato - foi confrontado com uma crise social sem precedentes desde que a ditadura acabou.

Os panelaços que começaram a ser ouvidos simultaneamente aos protestos que eclodiram, principalmente nos bairros de classe média, tornaram perceptível que a raiva escondia uma reivindicação mais profunda.

O país tinha uma acentuada segregação social, apesar de ter a maior renda per capita da América Latina (mais de US$ 20.000 por ano).

A manifestação dos estudantes também trouxe à tona uma inquietação acumulada contra um modelo de grandes monopólios pelos quais os cidadãos se sentiam vítimas: empresas de distribuição e comercialização de serviços básicos como água, luz e gás, além de administradores de educação, saúde e previdência, durante 30 anos de democracia.

Na época, #Chiledesperto - que em português seria "#Chileacordou" - tornou-se uma grande tendência nas redes sociais, e ainda continua sendo a marca dos protestos, apoiados por mais de 65% da população, segundo uma série de pesquisas.

Outras marcam que 80% condenam as expressões violentas das manifestações.

O Instituto Nacional de Direitos Humanos (INDH) constatou 3.063 casos de violações dos direitos humanos por parte de agentes do Estado a partir de 18 de outubro de 2019, entre eles 460 pessoas com lesões oculares causadas por disparos de munição de borracha ou metal ou bombas de gás lacrimogênio. A Procuradoria Nacional contabilizou até janeiro 31 mortos nas manifestações.

Em contagem atualizada entregue nesta sexta-feira, na qual não foram atualizados os mortos, a Procuradoria informou ter registrado 5.084 pessoas por diferentes delitos durante os protestos e recebeu 8.827 denúncias por atos de agentes do Estado.

A Polícia, fortemente questionada por uso excessivo da força, contabiliza entre 19 de outubro de 2019 e 31 de março de 2020, 544 quarteis atacados e 4.817 agentes feridos no exercício de suas funções, segundo dados fornecidos à AFP.

- A maior manifestação da história -

Uma semana depois de iniciados os protestos e com um país semiparalisado, mais de 1,2 milhão de pessoas se reuniram na Praça Itália de Santiago, na maior concentração de que se teve notícia.

"Pedimos justiça, honestidade, ética no governo, não é que queiramos socialismo, comunismo; queremos menos empresas privadas, mais Estado", disse à AFP Francisco Anguita, de 38 anos, em meio à histórica manifestação.

Naquele dia, a imagem de um Homem-aranha agarrado a um poste em meio à multidão na praça Itália e o vídeo da queda de uma dona-de-casa fantasiada de Pikachu, personagem da série de animação japonesa Pokemon, viralizaram. Os dois personagens se tornaram, então, heróis improváveis desta revolta social, que um ano depois continua sem líderes e fora das estruturas políticas tradicionais.

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