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Duas geneticistas, da França e EUA, vencem o Nobel de Química

As vencedoras do Nobel de Química em 2020: a francesa Emmanuelle Charpentier (E) e a americana Jennifer Doudna afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 07. outubro 2020 - 09:50
(AFP)

A francesa Emmanuelle Charpentier e a americana Jennifer Doudna, duas geneticistas, tornaram-se nesta quarta-feira (7) as primeiras mulheres a receber em conjunto um Nobel científico, com a vitória na categoria Química por suas pesquisas sobre as "tesouras moleculares", um avanço considerado "revolucionário" e capaz de modificar os genes humanos e reescrever de certa maneira o DNA.

O prêmio deseja recompensar "o desenvolvimento de um método de edição de genes que contribui para o desenvolvimento de novas terapias contra o câncer e pode tornar realidade o sonho de curar doenças hereditárias", destacou o júri em Estocolmo.

A francesa, de 51 anos, e a americana, 56, tornaram-se, assim, a sexta e a sétima mulheres a vencer o Nobel de Química desde 1901. E representam a primeira equipe 100% feminina a receber um Nobel científico.

E esta é a apenas a quarta vez na história que um Nobel científico é conquistado apenas por mulheres, depois dos Nobel de Química vencidos pela franco-polonesa Marie Curie e a britânica Dorothy Crowfoot Hodgkin, em 1911 e 1964 respectivamente, e o de Medicina recebido pela americana Barbara McClintock em 1983.

"Desejo que o fato de Jennifer Doudna e eu termos sido premiadas hoje represente uma mensagem muito forte para as jovens que desenvolvem carreiras científicas", disse Charpentier à imprensa ao receber a notícia.

Em junho de 2012, as duas geneticistas e sua equipe descreveram na revista Science uma nova ferramenta, com qual é possível simplificar o genoma. O mecanismo recebeu o nome Crispr/Cas9 e é conhecido como tesouras moleculares.

- Cortar o DNA -

Se a terapia genética consiste em introduzir um gene normal nas células que têm um gene com problemas, como um cavalo de Troia, para que consiga fazer o trabalho do gene que não funciona, o Crispr vai mais longe: em vez de adicionar um gene, modifica o gene existente.

"A possibilidade de cortar DNA onde você quiser revolucionou as ciências moleculares. Apenas a imaginação estabelece os limites do uso desta ferramenta", afirmou o júri do prêmio.

Seu uso é fácil, barato e permite aos cientistas "cortar" o DNA exatamente onde desejam, para, por exemplo, corrigir uma mutação genética e curar uma doença rara.

A descoberta é recente, mas era citada há alguns anos como uma potencial candidata ao Nobel.

A técnica ainda não é infalível, porém, e tem caminho a percorrer. Também é necessário evitar usos indesejáveis, como no caso de um cientista chinês que a usou em embriões humanos durante uma fertilização in vitro da qual nasceram gêmeas.

O cientista quis introduzir nos bebês uma mutação de resistência ao HIV, mas provocou outras mutações por engano. As consequências para a saúde delas ainda são desconhecidas.

O prêmio também foi anunciado em meio a uma disputa de patentes nos Estados Unidos entre as duas vencedoras e o cientista americano de origem chinesa Feng Zhang. O imbróglio provocou o receio de que as duas não fossem laureadas agora.

- Uma das descobertas da década -

Emmanuelle Charpentier e Jennifer Doudna venceram um prêmio que costuma ser concedido a pessoas com muito mais idade.

As duas geneticistas já receberam vários outros prêmios por esta descoberta: o Breakthrough Prize (2015), Princesa das Astúrias na Espanha (2015) e o prêmio Kavli de nanociências na Noruega (2018).

Para William Kaelin, que venceu o Nobel de Medicina no ano passado, esta descoberta genética é uma das maiores da década.

Em 2019, o Nobel de Química foi atribuído a um trio: o americano John Goodenough - então com 97 anos -, o britânico Stanley Whittingham e o japonês Akira Yoshino pela invenção das baterias de íons de lítio, presentes em muitas tecnologia.

Apenas cinco mulheres haviam vencido o Nobel de Química desde 1901, contra 183 homens: Marie Curie (1911), sua filha Irène Joliot-Curie (1935), Dorothy Crowfoot Hodgkin (1964), Ada Yonath (2009) e Frances Arnold (2018).

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