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Em prisão domiciliar, ex-presidente Uribe renuncia ao Senado da Colômbia

O ex-presidente (2002-2010) e senador Álvaro Uribe durante coletiva de imprensa em sua residência em Rionegro, Antióquia, Colômbia, 30 de julho de 2018 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 18. agosto 2020 - 20:44
(AFP)

O ex-presidente da Colômbia Álvaro Uribe, em prisão domiciliar por determinação da Suprema Corte, que o investiga por suspeita de manipulação de testemunhas, anunciou nesta terça-feira (18) a renúncia ao cargo que ocupava no Senado desde 2014.

Em uma carta dirigida ao Congresso, Uribe, que presidiu a Colômbia entre 2002 e 2010, justifica sua decisão diante da impossibilidade "de poder retornar ao Senado" por conta do processo que responde em sua condição de parlamentar.

A Câmara alta aceitou a demissão em uma votação relâmpago.

Senador mais votado e líder do partido no poder, o Centro Democrático, Uribe havia deixado o cargo em julho de 2018, quando a máxima corte o convocou para depor no âmbito do processo que levou à sua prisão preventiva no começo de agosto.

Então, quis se esquivar da competência da Suprema Corte - à qual critica com veemência por suposta parcialidade - para ficar sob a lupa da Procuradoria, segundo analistas e críticos.

No entanto, desistiu surpreendentemente desde a renúncia, encorajado por seu partido de direita, e o processo seguiu na única instância com poderes para investigar congressistas na Colômbia.

Ainda é incerto se o novo movimento para evitar a ação da máxima corte vai render frutos.

Em declarações à AFP, o advogado constitucionalista e acadêmico Juan Manuel Charry explicou que o caso de Uribe só poderia ir para a procuradoria se "os crimes sob investigação não estivessem relacionados" às suas funções como senador.

E será a mesma instância que decidirá se o suposto crime "tem ou não relação com a função de parlamentar", acrescentou o especialista.

- As armas de Uribe -

Em seu anúncio, Uribe denunciou "a violação de oito garantias processuais" e assegurou ser vítima de "interceptações ilegais e dolosas (...) e vazamentos seletivos (do expediente) a adversários políticos e jornalísticos".

Isso anula "qualquer expectativa de poder voltar ao Senado, instituição na qual procurei ser dedicado e contribuir com estudo às diferentes questões", insistiu o ex-presidente.

Ao mesmo tempo, defendeu "uma reforma da justiça que a despolitize", uma proposta que, segundo o Centro Democrático, deveria tramitar via referendo para alterar a Constituição de 1991.

Uribe é o primeiro ex-presidente a ser preso na Colômbia e ao mesmo tempo o político mais popular e influente deste século no país, por sua mão forte contra as Farc quando estava no poder e depois, por ter rejeitado o acordo de paz com a guerrilha em 2016.

Ele também é criticado por diversos escândalos de corrupção e violações dos direitos humanos que atingiram seu círculo próximo.

O ex-presidente de 68 anos se viu envolvido com a justiça em uma reviravolta inesperada de seu caso.

Em 2012, ele entrou com uma ação contra o senador de esquerda Iván Cepeda por uma suposta conspiração judicial que estava sendo preparada contra ele com falsos testemunhos.

Uribe argumentou que Cepeda - um de seus maiores adversários e testemunha em seu julgamento - contatou ex-prisioneiros paramilitares para vinculá-lo a esses grupos, acusados de crimes bárbaros durante o conflito colombiano de seis décadas.

Mas o tribunal se absteve de julgar o esquerdista e, em vez disso, decidiu abrir a investigação contra o ex-presidente em 2018 sob a mesma suspeita: manipular testemunhas contra seu oponente.

Nesta terça-feira, o Cepeda, que denunciou ameaças de morte após a ordem judicial que levou Uribe à prisão, disse confiar em que o processo continuará avançando na instância superior.

"Uribe, na qualidade de senador, usou membros de sua Unidade de Trabalho Legislativo para contatar presos em diferentes penitenciárias do país, além de paramilitares, para testemunharem contra mim", disse o legislador.

O ex-presidente enfrenta acusações pelas quais pode pagar até oito anos de prisão.

O vice-presidente dos Estados Unidos, Mike Pence, surpreendeu na sexta-feira quando pediu publicamente que Uribe "se defendesse como um homem livre" e o classificou como um "herói" que foi durante anos o aliado mais próximo de Washington na região.

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