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Migrantes chegam à fronteira do Panamá após cruzar o 'inferno' da selva

Migrantes haitianos num centro de assistência na fronteira entre o Panamá e a Colômbia, no dia 23 de maio de 2019 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 30. maio 2019 - 20:10
(AFP)

Mais de 1.500 migrantes chegaram à localidade panamenha de La Peñita, uma área indígena na fronteira com a Colômbia, após sobreviverem ao "inferno" da selva de Darién, um dos trechos mais perigosos do percurso até os Estados Unidos, onde há muitos narcotraficantes e quadrilhas.

O grupo, que conta com 250 crianças, caminhou pela densa selva de 575 mil hectares e agora se encontra na Estação Temporária de Assistência Humanitária (Etah) instalada neste povoado de casas de madeira e teto de palha, onde recebem assistência médica.

Com capacidade para cerca de 100 pessoas, a Etah está superlotada.

"A selva é um inferno", comenta Chambe Bezil, um camaronês.

Bezil se une aos cerca de quatro mil migrantes, principalmente do Haiti, Cuba, República Democrática do Congo, Índia, Camarões, Bangladesh e Angola, que estão em diferentes centros de acolhimento no Panamá à espera para prosseguir viagem, com escala na Costa Rica antes de chegar aos Estados Unidos.

- "Um suicídio" -

Com montanhas, rios caudalosos e sem vias de comunicação terrestre, e sob uma umidade e calor insuportáveis, os migrantes cruzam o Darién através de trilhas, muitas delas utilizadas por narcotraficantes e quadrilhas. A selva é tão densa que às vezes não é possível ver o céu e tudo é escuro.

"Atravessar essa selva é um um suicídio", adverte um policial na improvisada estação humanitária.

A selva é conhecida por sua diversidade de pássaros, mas há muitas serpentes venenosas, jaguares, porcos selvagens, aranhas, escorpiões, lagartos e abelhas africanas.

Vários migrantes passam muito tempo sem comer já que levam poucos mantimentos para a travessia, que dura pelo menos três dias.

Durante os primeiros quatro meses de 2019, passaram pelo local pelo menos 7.700 adultos, um número três vezes maior que o registrado no ano passado, e 1.100 menores de idade, o dobro de 2018.

Segundo fontes oficiais panamenhas, os migrantes atravessam a selva em grupo, alguns formados por famílias inteiras que dizem escapar da pobreza ou da perseguição política.

Alguns morrem pelo caminho, enquanto outros são alvos de roubos ou agressões sexuais.

Chegam "desnutridos, desidratados, às vezes sem dinheiro e assediados" pelos traficantes, indica o diretor do Serviço Nacional de Fronteiras, Eric Estrada.

"No grupo no qual saí, pelo menos cinco pessoas ficaram para trás e estão morrendo", denuncia o haitiano Pierre Louis Clivens.

"Há muitos ladrões, estão esperando por todos (que fazem a travessia). Muitos ladrões armados, com armas da polícia que caem em suas mãos. É perigoso", acrescenta.

Marie-Claudia Toussaint, também haitiana, tem o braço enfaixado e conta como foi ferida por um tiro.

"Levaram todo meu dinheiro. Pegaram três telefones, um do meu marido e dois meus, e o ladrão me acertou um tiro no braço esquerdo", narra enquanto é vacinada.

No último ano e meio, 52 pessoas foram detidas por pertencer a grupos criminosos relacionados ao tráfico de pessoas.

"Lamentavelmente os grupos criminosos que traficam pessoas iludem o imigrante desde os países de origem. Eles dizem que o trajeto é rápido, fácil e sem complicações, mas o que realmente as pessoas encontram é outra realidade", destaca Estrada.

A situação obrigou o governo panamenho a adequar vários centros de acolhimento localizados perto da fronteira com a Costa Rica, país que permite a entrada diária de cerca de cem migrantes.

- "Está sofrendo"-

Um bebê dorme, após ser amamentado, sobre as pernas da mãe haitiana.

A criança, com nome de Frezin, nasceu no dia 11 de maio em um centro médico do Panamá, onde sua mãe foi enviada após atravessar grávida a fronteira com a Colômbia.

"Esse bebê que está aqui é um recém-nascido. Faz muito calor e não temos um lugar para ele", lamenta Clivens.

Frezin e os pais estão num barracão com chão de terra batida. No local há vários beliches e roupa espalhada por todo o lado.

Vários adultos dormem no chão, enquanto as crianças nuas ou em fraldas correm pelo local.

Pela tarde, várias dezenas de pessoas embarcam, após o pagamento de 40 dólares e a permissão das autoridades, em ônibus que os levarão à fronteira costarriquense.

Para não serem vistos, percorrerão o país durante toda a noite.

Mas esta é apenas uma pequena etapa de um longo caminho que os levará através de vários países da América Central e do México, até chegar à fronteira dos Estados Unidos, onde enfrentarão a política migratória do presidente Donald Trump.

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