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Violento despejo na principal ocupação de terras na Argentina

Polícia antimotim desaloja ocupantes de terras em Guernica, ao sul de Buenos Aires, em 29 de outubro de 2020 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 29. outubro 2020 - 15:37
(AFP)

Centenas de pessoas, muitas de famílias sem-teto vivendo em barracas improvisadas, foram despejadas pela polícia em meio a violentos confrontos, de uma propriedade que ocupavam desde julho na principal ocupação de terras ocorrida durante a pandemia na Argentina.

Cerca de 4.000 policiais entraram em cena na manhã desta quinta-feira (29) e demoliram abrigos frágeis, feitos de paus e plástico que queimaram em fogueiras em meio a cenas de pânico e fúria.

“Foi desesperador, gente chorando, crianças, idosos. Os policiais queimaram as casas, queimaram tudo, vieram de surpresa”, lamenta Aída Mabel, 35, cercada pela família.

Desde o final de julho, famílias sem-teto começaram a se instalar nesta propriedade privada de cerca de 100 hectares no bairro de Guernica, na periferia sul de Buenos Aires, que já abrigou 2.500 famílias, embora a maioria tenha concordado em sair.

O governo provincial anunciou na quarta-feira a oferta de subsídios de 300 mil pesos (3.370 dólares) por ano para aqueles que, por não terem uma moradia digna, se encontram em uma situação de extrema vulnerabilidade.

- "Queimaram tudo" -

Colunas de fogo e fumaça se misturaram ao gás lacrimogêneo em meio a cenas de lágrimas e desespero dos ocupantes, a maioria deles famílias.

O incêndio destruiu grande parte das moradias improvisadas e o restante foi demolido por escavadeiras em meio a uma chuva de pedras, paus e garrafas dos despejados.

“Eles queimaram tudo, quero minhas coisas de volta, estou com muita raiva, a polícia espancou a mim e ao meu marido”, disse Axi Villafuente, catadora de papelão de 24 anos.

A ocupação da propriedade começou em desafio à justiça, mas também no pior momento da pandemia que causou mais de um milhão de infecções na Argentina e 30 mil mortes.

“Isso é injusto, a única coisa que queríamos é uma casa, um terreno, não temos como pagar o aluguel, por isso estávamos aqui”, diz Agustín, 21 anos.

Nos últimos anos, a grilagem de terras se multiplicou na Argentina, país em recessão desde 2018 e com 40,9% dos 44 milhões de habitantes vivendo na pobreza.

Segundo o governo da província de Buenos Aires, onde estão os maiores contrastes sociais do país, no início de outubro havia 80 processos judiciais de confisco de terras.

“Na Argentina, na América Latina, o acesso à cidade por parte dos setores populares tem se dado por meio de assentamentos ou ocupação de terras, um mecanismo de auto-urbanização. Os setores de baixa renda e os desempregados não conseguem acesso formal, até mesmo por aluguel. Existem tendências estruturais que neste contexto de pandemia foram exacerbadas", disse à AFP Mariana Giaretto, socióloga e professora da Universidade Nacional de Comahue.

- Fúria e fogo -

Durante dois meses, o governo da província de Buenos Aires pediu aos tribunais prorrogações da ordem de despejo enquanto negociava com os ocupantes sua saída. Uma ONG de advogados entrou com um amparo para impedir o despejo que finalmente foi ordenado pela justiça.

A polícia não informou o número de feridos. Cerca de 36 pessoas foram presas, acusadas de resistir à autoridade, mas foram liberadas horas depois.

Segundo Giaretto, o desfecho em Guernica "tem a ver com um processo de criminalização por parte do Estado, que vai desde a estigmatização dos ocupantes de terras até a militarização dos territórios, passando pela judicialização".

- Remoção em família -

Cerca de 500 km ao norte de Guernica, na província de Entre Ríos, também nesta quinta-feira um juiz ordenou o despejo de um acampamento em um barulhento caso de disputa de herança de uma poderosa família de produtores agrícolas.

Dolores Etchevehere reivindica sua parte na herança e denuncia seus irmãos - entre eles o ex-ministro da Agricultura, Luis Etchevehere - por suposta extorsão e "violência econômica".

A mulher queria iniciar um projeto de agricultura ecológica em uma área familiar junto com ativistas de uma organização de trabalhadores de economia popular (Ctep), mas o terreno foi sitiado por dezenas de produtores, que impediram a entrada e saída com suas picapes 4x4, em apoio aos irmãos Etchevehere e sua mãe.

Após a ordem policial e a entrada de centenas de policiais nas terras, os ativistas se retiraram. "Sofremos uma derrota", disse Juan Grabois, advogado de Dolores e líder da Ctep.

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