Apoiadores de Morales anunciam greve e marcham contra adiamento das eleições bolivianas

Camponeses bolivianos e indígenas, apoiadores do ex-presidente Evo Morales, protestam contra um segundo adiamento das eleições gerais devido à pandemia do COVID-19, em El Alto, Bolívia, em 28 de julho de 2020. afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 28. julho 2020 - 20:39
(AFP)

Milhares de mineiros e indígenas apoiadores do ex-presidente da Bolívia Evo Morales marcharam nesta terça-feira (28) em El Alto, vizinha de La Paz. Os manifestantes anunciaram uma greve nacional em rejeição ao adiamento das eleições gerais devido ao coronavírus.

O protesto começou com uma passeata que reuniu cerca de 5.000 pessoas por vários quilômetros de El Alto, reduto eleitoral de Morales (2006-2019), e foi seguida por uma assembleia na qual decidiram iniciar a paralisação.

"A partir de hoje, iniciamos uma greve geral por tempo indeterminado nos nove departamentos do país", disse Carlos Huarachi, líder da Central Obrera Boliviana (COB), à multidão.

"Vamos instruir nossos executivos nacionais e departamentais a se organizarem para coordenar essa greve geral",acrescentou.

Os apoiadores de Morales acreditam que as eleições foram adiadas de setembro para outubro porque seu candidato Luis Arce lidera as pesquisas. É o segundo adiamento da votação, em meio à pandemia, originalmente convocada para 3 de maio.

Os participantes da assembleia aplaudiram como sinal de aprovação da greve e também exigiram o bloqueio de estradas, medida ainda não definida.

- Marcha contra o adiamento -

Desde cedo, manifestantes percorreram as avenidas de El Alto, carregando bandeiras bolivianas vermelhas, amarelas e verdes e o 'whipala', o símbolo multicolorido dos povos aimará e quéchua.

Embora a marcha tenha sido realizada pacificamente, houve relatos de que manifestantes atacaram jornalistas e uma ambulância. Além disso, queimaram pneus e bloquearam a via principal entre El Alto e La Paz.

Não faltaram críticas contra o governo da presidente de transição, Jeanine Áñez, e ao Supremo Tribunal Eleitoral (TSE), que na semana passada adiou as eleições de 6 de setembro para 18 de outubro devido à escalada da pandemia.

Eles também gritaram "Viva o processo de mudança", como são chamados os 14 anos do governo de Morales, refugiado na Argentina desde dezembro de 2019, depois de ser detido por um mês no México e de renunciar devido a uma forte revolta social contra ele.

"A data da eleição de 6 de setembro deve ser cumprida", disse à AFP o líder mineiro Lucio Padilla. "Não podemos permitir a manipulação do direito e nossa obrigação é defender a democracia".

Durante a marcha, alguns mineiros soltaram rojões sem causar danos.

Froilán Mamani, líder do sindicato camponês Tupac Katari, disse que o TSE deveria recuar sobre o adiamento, porque caso não o faça haverá convulsão social.

Os manifestantes também criticaram o governo interino, que eles acusam de não combater eficazmente a COVID-19, que até agora deixou mais de 71.000 infecções e quase 2.500 mortes, em uma população de 11 milhões.

Marchas com motivos semelhantes também foram realizadas nas cidades de Cochabamba (centro) e Cobija (extremo norte).

- Data definitiva -

O presidente do órgão eleitoral, Salvador Romero, afirmou nesta terça-feira que a votação de outubro não será adiada.

"O dia 18 de outubro é a data definitiva das eleições na Bolívia, não apenas porque consideramos as variáveis científicas ligadas à evolução da pandemia, mas também porque existe um mandato constitucional", disse Romero, citado pelo jornal Opinión.

O motivo da prorrogação foi a escalada da pandemia, enquanto o governo prevê que o pico será atingido entre setembro e novembro.

O ministro da Presidência, Yerko Núñez, acusou Morales e o candidato Luis Arce de encorajarem as marchas em um momento que país enfrenta uma escalada de casos.

Arce "admitiu que está por trás dessas mobilizações (...) e terá que ser responsabilizado pela decisão que tomou", disse Núñez.

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