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As startups lutam para se abrir às mulheres

Martina Hotz, Aleksandra Lakusheva e Selina Capol criaram um projeto de videogame, um mundo que ainda é muito masculino. ldd

O lançamento de startups ainda é um negócio majoritariamente masculino, seja na Suíça ou no Vale do Silício. As mulheres precisam dar mais provas de suas competências e têm mais dificuldade em ganhar a confiança de investidores. No meio empresarial, os estereótipos são persistentes.

Este conteúdo foi publicado em 18. março 2021 - 11:00

Não há princesas para salvar nos jogos de videogame da 5am-games. As fundadoras da startup de Zurique estão empenhadas em evitar estereótipos de gênero.

Em seu estúdio, localizado no sótão de um imóvel no subúrbio norte de Zurique, Selina Capol, Martina Hotz e Aleksandra Lakusheva estão terminando seu primeiro jogo, Letters – a written adventure (Cartas - uma aventura escrita), que será lançado no final do ano. A trama do jogo é a correspondência entre duas meninas que estão aprendendo a brincar com as palavras.

Concebido durante seus estudos em desenvolvimento de jogos na Escola Superior de Arte de Zurique, o projeto já ganhou vários prêmios de incentivo. Depois de se graduarem em 2018, as desenvolvedoras decidiram criar sua própria startup para produzir e comercializar o jogo. O objetivo das jovens empresárias é poder se sustentar com os lucros da startup a partir do ano que vem. O desafio é enorme, pois tanto o mundo dos videogames quanto o mundo das startups continuam sendo redutos de dominação masculina.

Diante de uma fila de investidores em ternos, as jovens mulheres nem sempre sentem que são levadas a sério. "Um dia, alguns deles se recusaram a nos apoiar. Eles sequer comentaram sobre nosso trabalho, mas nos aconselharam a buscar o apoio de organizações que apoiam as equipes de mulheres", conta Martina Hotz.

A experiência das fundadoras da 5am-games é sintomática da subrepresentação de mulheres entre as startups. Em escala global, 14% dos fundadores de novas empresas são mulheres. A Suíça não escapa à tendência, uma vez que as mulheres não passam de 20% entre fundadores de empresas e são somente 10% nas áreas de ciência e tecnologia. Em muitos outros países da Europa, esse desequilíbrio é ainda mais acentuado, como pode ser visto no gráfico abaixo.

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Durante o seu avanço no fim da década de 1990, as startups traziam consigo a esperança de aumentar a presença feminina no meio empresarial, destaca Isabelle Collet, cientista da computação e professora de Ciências da Educação. Acreditava-se que essas novas estruturas inovadoras seriam acompanhadas por uma certa modernidade social.

No entanto, foi o contrário que ocorreu. “Nesse universo supercompetitivo, tende-se a eliminar as pessoas tomadas como frágeis. As mulheres são descartadas porque supõe-se que elas não têm disponibilidade para a grande carga de trabalho. Também se suspeita mais de sua incompetência”, lamenta Isabelle Collet.

“Nós éramos animais raros”

Marylène Delbourg-Delphis é uma das primeiras mulheres europeias a lançar uma empresa de tecnologia no Silicon Valley. ldd

Marylène Delbourg-Delphis presenciou de dentro o início do auge das startups. Em 1987, a empresária francesa se tornou uma das primeiras mulheres europeias a criar uma empresa de tecnologia no Vale do Silício, onde reside até hoje. “Na época, as mulheres eram animais raros no meio empresarial. Na área de banco de dados, havia apenas homens. Eu estava muito isolada”, relata a empresária.

Professora de filosofia, ícone da moda e da perfumaria na França nos anos 80, jornalista e escritora, Marylène Delbourg-Delphis não é do tipo que se deixa intimidar. No momento de se lançar ao mundo empresarial, ela não hesitou, mas precisou redobrar seus esforços para persuadir seus interlocutores. “As discriminações contra as mulheres são inúmeras. Elas devem atingir as expectativas mais elevadas e ter um nível de qualificação melhor do que os homens”, aponta.

Não basta que comprovem suas habilidades. A questão fundamental é o dinheiro. Para criar uma startup de sucesso, é preciso convencer os investidores, que são quem decide dar ou não uma chance ao projeto ao financiá-lo. E as mulheres já começam com uma significativa desvantagem, uma vez que, em 2019, apenas 3% dos dólares investidos foram destinados a projetos idealizados por mulheres, segundo o Funding to Female Founders. Cifras essas que praticamente não mudaram na última década.

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O subfinanciamento de startups fundadas por mulheres é algo que se vive na pele. Cofundadora da PrivateDeal, empresa que oferece a opção de negociar quartos de hotel online, Isabelle Jan enfrentou dificuldades no momento de arrecadar fundos em 2019. “Muitas vezes, eu era a única mulher a apresentar minha empresa para uma audiência inteiramente masculina. Foi nesse contexto que, por exemplo, me perguntaram se eu tinha filhos”, relata.

Monica Tocchi, fundadora da Meditrial Gianlucamassoli Photographystudio

Para aumentar suas chances de convencer os investidores, Isabelle Jan e seu sócio decidiram se revezar nas reuniões para ter mais sorte. “Se não fôssemos uma dupla de fundadores mista, nós talvez não tivéssemos conseguido”, avalia a empresária.

No lançamento da Meditrial, uma empresa internacional de tecnologia médica, em 2009, Monica Tocchi precisou enfrentar os mesmos problemas. “Levou quase um ano para conseguir o primeiro empréstimo. Um parceiro homem finalmente foi, ele mesmo, ver os banqueiros, e foi apenas nesse momento que nós tivemos sucesso”, explica a fundadora.

Estereótipos persistentes

Por que é tão difícil conquistar a confiança dos investidores quando se é uma mulher? Investidora e filantropa, Carolina Müller-Möhl está em 162º lugar na lista divulgada pela revista Bilan das 300 maiores fortunas da Suíça. Ela observa que as mulheres têm tendência a adotar uma postura muito crítica em relação a elas mesmas. “Elas apresentam suas ideias brilhantes, ao mesmo tempo que expressam dúvidas e preocupações desde a primeira conversa. Um comportamento que os homens têm bem menos”, avalia a investidora.

Os estereótipos de gênero também são difíceis de ser superados, lamenta Carolina Müller-Möhl. “Os investidores devem ser mais conscientes dos preconceitos que eles têm inconscientemente ao tomar decisões”, avalia. Ela constata que uma mulher que defende suas ideias com firmeza e convicção, por exemplo, seria mais facilmente caracterizada como autoritária, ambiciosa demais ou egoísta.

Carolina Müller-Möhl é investidora e está em 162º lugar na lista da revista Bilan das 300 pessoas mais ricas da Suíça. Sabina Bobst / Lunax

A mulher de negócios destaca que as áreas da informática e da tecnologia atraem um número maior de investidores. É uma área de estudo na qual as mulheres infelizmente são extremamente subrepresentadas, consequentemente é uma das razões pelas quais existem tão poucas fundadoras na Suíça. “É preciso uma mudança de mentalidade: as mulheres jovens precisam adquirir a confiança necessária para dedicar-se a esse tipo de formação”, comenta.

Encorajar, mas também impor

Isabelle Jan, co-fundadora da PrivateDeal ldd

Ao longo dos últimos anos, surgiram várias iniciativas para encorajar as mulheres a se tornarem empresárias. A plataforma “female foundersLink externo”, lançada pela Startup CampusLink externo de Zurique, criou um mapa interativoLink externo no qual constam as fundadoras de startup na Suíça. “Nós queremos evidenciar modelos que podem inspirar outras mulheres”, explica Eliane Albrecht, do Impact Hub Zürich e membra da equipe que gere a plataforma.

Encorajar, claro, mas isso não é o suficiente, afirma Isabelle Collet. Para ela, é fundamental garantir um ambiente acolhedor, especialmente nas áreas de formação técnica. “É preciso banir a discriminação, o sexismo e o assédio”, afirma a professora de Ciências da Educação.

Aos olhos de Marylène Delbourg-Delphis, a igualdade é uma questão de tempo. A pioneira do Vale do Silício se mostra otimista: “Nós alcançaremos a paridade dentro de uma geração”.

Adaptação: Clarice Dominguez

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