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Bolsonaro diz que tentou queimar tornozeleira em momento de ‘paranoia’

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O ex-presidente Jair Bolsonaro alegou neste domingo (23) que tentou queimar a tornozeleira eletrônica que monitorava a sua prisão domiciliar em um momento de “paranoia”, e negou qualquer tentativa de fuga.

O ex-presidente, 70, foi condenado em setembro a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado contra Luiz Inácio Lula da Silva após perder as eleições de 2022. Após meses de reclusão domiciliar, ele foi encaminhado ontem a um complexo da Polícia Federal em Brasília, por violação parcial da tornozeleira.

Bolsonaro disse que teve “uma certa paranoia” entre sexta-feira e sábado, devido a medicamentos, e que resolveu mexer na tornozeleira com um ferro de soldar, informa o documento judicial, ao qual a AFP teve acesso.

Durante a audiência de custódia, realizada hoje em Brasília, o ex-presidente declarou que “estava com alucinação de que havia algum dispositivo de escuta na tornozeleira”, diz a ata.

O tribunal ratificou a ordem de prisão preventiva contra Bolsonaro, que afirmou na audiência que não tinha nenhuma intenção de fuga e que não houve ruptura da tornozeleira. 

– “Confusão mental” –

Mais tarde, os advogados de Bolsonaro pediram ao tribunal que reconsidere a prisão preventiva e que seja concedida ao ex-presidente a “prisão domiciliar humanitária”, devido a um “quadro de confusão mental”.

Bolsonaro sofre efeitos colaterais de diferentes medicamentos prescritos e começou a ter pensamentos persecutórios e afastados da realidade, explicaram os advogados, em documento dirigido ao Supremo Tribunal Federal (STF).

Segundo o documento, os efeitos se devem à interação entre os remédios que o ex-presidente toma para aliviar o “quadro de soluços incoercíveis muito intensos” surgido após as cirurgias às quais foi submetido devido ao ataque a faca que sofreu na campanha de 2018, e um outro medicamento prescrito mais recentemente.

Ele recebeu no domingo as primeiras visitas na prisão: dos advogados, do seu médico e de sua mulher, Michelle.

Bolsonaro relatou à Justiça ter passado a tarde de sexta-feira tentando abrir a tornozeleira até que acabou “caindo na razão” perto da meia-noite e parou. A polícia compareceu pouco depois à sua residência em Brasília para fazer uma inspeção.

Em um primeiro momento, o ex-presidente disse ter batido a tornozeleira em uma escada, segundo os documentos do processo. Depois, admitiu que tentou queimar o dispositivo por “curiosidade”, como mostra um vídeo divulgado pelo tribunal.

– “País soberano” –

Ao mencionar ontem o risco de fuga de Bolsonaro, o ministro Alexandre de Moraes apontou que a embaixada dos Estados Unidos fica perto do domicílio de Bolsonaro, um aliado do presidente americano, Donald Trump, que denunciou uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente e respondeu impondo tarifas ao Brasil.

“Que pena!”, respondeu Trump no sábado ao saber da prisão de Bolsonaro. O republicano retirou boa parte das tarifas impostas após se reunir com o presidente Lula em outubro.

No domingo, em coletiva no encontro do G20 na África do Sul, Lula afirmou que a prisão do ex-presidente “não tem nada a ver” com a relação entre os dois países. “Trump tem que saber que nós somos um país soberano, que a nossa Justiça decide, e o que decide aqui tá decidido.”

A prisão de Bolsonaro deixa a direita sem candidato para as eleições presidenciais de 2026, enquanto Lula já anunciou sua intenção de buscar o quarto mandato.

Bolsonaro já entrou com um recurso contra a sua condenação por tentativa de golpe, que foi negado pelo Supremo. Ele tem até esta segunda-feira para apresentar uma segunda apelação.

jss/nn/gv/dga/yr-lb/ic/am

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