Um navio sem comandante
Em entrevista a swissinfo, o prof. Victor-Yves Ghebali, especialista da ONU, explica que a organização está "por baixo" mas diz que não está pessimista porque ela já esteve pior.
Swissinfo: por que tantos analistas falam da debilidade atual da ONU?
Victor-Yves Guebali: não dá para julgar a ONU em sua totalidade. É preciso distinguir a ONU política, a ONU econômica e social e a ONU humantária. As críticas visam principalmente a ONU política e nesse aspecto ela pode ser comparada a um navio sem comandante. Os EUA, país que teria maior vocação para pilotar a ONU, a desprezam. A mesma ONU tem também as operações de manutenção da paz, um papel limitado mas útil à estabilidade internacional.
Certos observadores afirmam que nessas operações e em outras áreas, os EUA comandam, seus aliados financiam e a ONU executa…
VYG: Não vamos exagerar. Os EUA não podem comandar a ONU, como acaba de ser demonstrado nas negocicações que criaram a Corte Penal Internacional. Comparado com suas exigências iniciais, Washington não conseguiu grande coisa. Exercendo uma espécia de liderança negativa como fazem atulmente, os EUA não podem obter muitas vantagens.
Uma reforma do Conselho de Segurança da ONU daria para corrigir essa debilidade política?
VYG: Não. A reforma do CS é um falso problema e não tornaria a ONU mais eficaz. O que precisar mudar é o comportamento dos Estados. O reforço da ONU política depende sobretudo da atitude responsável ou não dos membros do Conselho de Segurança.
Em outras áreas como desenvolvimento e meio ambiente, as coisas também não avançam devido as divergências entre Estados?
VYG: É verdade e ainda muito mais. A ONU econômica e social é uma máquina enorme que gira no vazio. Isso ocorre simplezmente porque a ONU não tem qualquer poder de decisão sobre as grandes questões econômicas e sociais. As decisões são tomadas dentro do G8 (grupo dos 8 países mais industrializados) e da OMC (Organização Mundial do Comércio). Nessas áreas, a ONU está marginalizada mas faz de conta que não está.
Como o sr. vê o futuro da ONU?
VYG: Paradoxalmente, não estou pessimista. A ONU já atravessou momentos piores e soube se adaptar. Durante a guerra fria, ela ficou totalmente paralizada mas depois inventou as operações de manutenção da paz que nem estavam previstas na Carta inicial. Hoje ela está por baixo da onda mas muita gente esquece o trabalho feito no cotidiano, principalmente na área humanitária.
De que maneira a Suíça vai se integrar a uma organização enfraquecida?
VYG: Ao adeir à ONU, a Suíça regulariza uma união livre que tinha com a organização há muitos anos. O país vai agora poder aprofundar o que já faz há muito tempo, principalmente na área humanitária, direitos humanos e questões relativas às minorias nacionais.
swissinfo/entrevista de Frédéric Burnand
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