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Suíço é escolhido para implementar quatro museus no Benin

Museu dos Reis e Amazonas do Daomé
Perspetiva da futura exposição permanente no Museu dos Reis e Amazonas do Daomé, em Abomey. Koffi & Diabaté Architectes, Abidjan

O paleontólogo suíço Jacques Ayer foi escolhido pelo governo do Benin para ser diretor-geral de quatro novos museus públicos que irão apresentar a arte, a cultura e a história do país africano.

Jacques Ayer, paleontólogo do cantão de Friburgo, afirma ter ficado surpreso com sua nomeação para o cargo de diretor-geral da Réunion des Musées Publics (RMP, na sigla em francês), um consórcio que reúne museus públicos no Benin, país da África Ocidental.

Jacques Ayer
Desde janeiro, Jacques Ayer é diretor da Réunion des Musées Publics (RMP) no Benim.

Trata-se de um projeto de grande porte que pretende estabelecer quatro museus em diferentes cidades do país: o Museu Internacional da Memória da Escravidão, em Ouidah, dedicado à história do tráfico atlântico de escravizados nos séculos 17 e 18; o Museu dos Reis e das Amazonas do Daomé, em Abomey, que incluirá a restauração dos antigos palácios reais da cidade; o Museu Internacional do Vodum, em Porto-Novo, voltado ao patrimônio religioso do Benin e às comunidades do vodum na África; e o Museu de Arte Contemporânea, em Cotonou, destinado a promover artistas beninenses e de outros países africanos.

Ayer foi nomeado pelo Conselho de Ministros do Benin, por recomendação do presidente, Patrice Talon. O cidadão suíço mora em Cotonou, capital econômica do país, e assumiu o cargo em janeiro. Ele terá até 2029 para concluir o ambicioso projeto dos museus.

Formação e trajetória ecléticas

Ayer chega ao cargo com uma experiência ampla e diversificada. Paleontólogo de formação, com mestrado em geologia pela Universidade de Neuchâtel, ele afirma já ter “rodado bastante” ao longo da carreira.

Entre 1994 e 2004, foi curador do Departamento de Ciências da Terra do Museu de História Natural de Neuchâtel. Em seguida, foi diretor do Museu Jurassica, em Porrentruy, no cantão do Jura, antes de assumir a direção do Museu de História Natural de Genebra, cargo que ocupou de 2012 a 2020.

Há pouco mais de quatro anos, fundou a própria consultoria, a Muséolis, com sede em Genebra. Na empresa, ele desenvolve projetos para museus com base em três décadas de experiência e em uma ampla rede de contatos no setor.

“Meu perfil eclético contribuiu para que o governo beninense me escolhesse”, afirma Ayer. “Além disso, há meu interesse pessoal pela África. Minha esposa é da Nigéria. Ela não está envolvida na implementação da RMP, mas abriu meus olhos, há algum tempo, para a questão do patrimônio africano”.

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Trabalhador chinês em um canteiro de obras na África.

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A paixão de Ayer pela arte africana é muito importante para o projeto. Mas ele não é do Benin. Não se sabia como a população reagiria à escolha de um europeu para liderar um projeto nacional voltado ao patrimônio cultural do país.

“Tenho de admitir que fui muito bem recebido”, afirma Ayer. “Mas as reações nas redes foram variadas. Algumas pessoas se surpreenderam com minha nomeação, mas não houve oposição”. Ele acrescenta que “essas quatro instituições precisam ser estabelecidas rapidamente e nas melhores condições possíveis. O Benin ainda tem pouca experiência nessa área. Com esse projeto de grande porte, o país atua como pioneiro no continente africano. Por isso, precisava de apoio técnico e de competências práticas para garantir que os museus sejam estruturados de forma duradoura”.

Um projeto pioneiro

Ainda assim, Ayer não pretende importar para o Benin um modelo ocidental de museologia que, segundo ele, não atenderia necessariamente às expectativas da população local. “Meu objetivo é criar aqui um modelo que incorpore as sensibilidades artísticas africanas”, afirma o suíço.

Como exemplo, ele cita o futuro Museu Internacional do Vodum. “Ele nos permitirá colocar em destaque obras utilizadas sobretudo em rituais religiosos ou sociais e, portanto, profundamente enraizadas nas tradições locais. Pretendo restituir a função original dessas peças. Não iremos colocá-las por trás de vidros, como é costume na Europa. É possível imaginar, por exemplo, a criação de percursos históricos abertos ao público em determinados vilarejos do país onde esses objetos ainda são usados em cerimônias”.

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Sitzende Kolonisatoren blicken in die Kamera

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Antes da chegada de Ayer a Cotonou, instituições religiosas, historiadores e pesquisadores do Benin já haviam iniciado reflexões sobre como valorizar o patrimônio do país. “O que posso acrescentar a esse processo”, afirma Ayer, “é minha experiência em estratégia e gestão operacional. Em suma, na estruturação de um modelo organizacional”.

Com a intenção de reforçar a programação cultural e ampliar a interação com o público, Ayer planeja organizar oficinas de formação para os funcionários e funcionárias dos museus, voltadas especificamente para a área artística. Para ele, a transferência de conhecimento é fundamental. “É muito importante encarar minha missão como transitória. A museologia é um campo complexo, por isso quero preparar as futuras equipes de gestão, capacitá-las para que assumam plenamente os projetos artísticos depois da minha saída”, afirma.

Museu Internacional do Vodun
Vista em perspectiva do edifício principal do futuro Museu Internacional do Vodun em Porto-Novo. Koffi & Diabaté Architectes, Abidjan

Estabelecendo parcerias

Ayer acredita que o intercâmbio cultural é outro elemento fundamental dessa formação. Ele vê no Benin uma abertura e flexibilidade que considera admiráveis. “É um diferencial que me permitirá estabelecer parcerias com museus suíços e até cogitar intercâmbios universitários”, afirma. A iniciativa poderia possibilitar que estudantes de arte da Suíça participassem de programas organizados no Benin. Em contrapartida, alunas e alunos beninenses interessados em ampliar sua formação poderiam passar uma temporada na Suíça. “Não podemos esquecer que nosso país conta com instituições muito inovadoras”, diz Ayer.

A Réunion des Musées Publics também deverá criar oportunidades para a restituição de obras beninenses saqueadas durante o período colonial. “A Suíça é uma plataforma estratégica para meus contatos na Europa. Colocarei toda a minha experiência a serviço da cooperação cultural entre o ‘Velho Continente’ e o Benin”, afirma.

Em 2021, a França devolveu ao Benin 26 tesouros reais de Abomey. “Eles representam apenas uma fração ínfima do patrimônio beninense e africano que ainda está na Europa. As 26 peças serão exibidas no futuro Museu dos Reis e das Amazonas do Daomé”, afirma Ayer. “A RMP deverá, espero, transmitir segurança aos países europeus ao demonstrar a capacidade das instituições do Benin de conservar obras de arte em ótimas condições”.

Edição: Pauline Turuban/fh

Adaptação: Clarice Dominguez 

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