A brasileira que deu a volta por cima
Envolvida um tanto involuntariamente em escândalo artístico na Suíça, a pintora Eliana dos Santos supera frustração e realiza exposição individual em Fribourg.
Sua amostra, “tuaregue, príncipe do deserto”, está aberta até fim de julho.
Quase três anos depois do escândalo – e uns quilinhos a mais, “por causa do estresse”- Eliana dos Santos, 36 anos, expõe 21 telas na velha Friburgo, inspiradas em visita a tuaregues, no sul do Marrocos.
Essa mostra individual esconjura maus bocados de sua vida na Suíça, quando sua trajetória artística cruzou com a do jovem e inescrupuloso “pintor” suíço, Jerôme Rudin.
Encontro e…
Eliana dos Santos que chegou na década de noventa, começou sua vida artística no país modestamente decorando restaurantes com afrescos. Na época, pinturas a óleo eram feitas “só sob encomenda”.
O encontro em 2001 com o pintor suíço – badalado e adulado pela alta sociedade (veja acima, em sobre o meusmo assunto – e uma colaboração com o mesmo durante mais de 2 anos, vão trazer-lhe muitos aborrecimentos. Ao mesmo tempo, porém, traz alguns efeitos positivos para sua carreira, dando-lhe certa publicidade.
…desencontro
Se essa colaboração corre bem no início, as coisas desandam depois que Rudin lhe fez várias encomendas, uma delas de 40 quadros de uma só vez e uma segunda remessa de 70 outros. Alegadamente “para decoração de teatro”.
Em fins de 2003, Jérôme Rudin chega a expor na Suíça, como se fossem suas, 40 telas de Eliana nas quais apenas acrescentara uma colagem. A impostura vem a público na época com uma reportagem do jornal suíço Le Matin, de Lausanne.
Na altura a pintora brasileira já estava farta. Com o cliente mau pagador, além de falsário, ela só via a cor do dinheiro quando ele precisava dela, embora vendesse as telas de Eliana 30 vezes mais caras… A pintora brasileira sentira-se também humilhada, depois que Rudin insinuou que sua vida de artista dependia dele. E foi isto certamente o que mais doeu.
Justiça dá razão a Eliana
Desmascarado, o artista nega, esperneia, mas acaba confessando o delito. Mesmo assim processa Eliana que dispunha de provas suficientes e se defende com sucesso. Em dezembro de 2004, tudo acaba em non-lieu (improcedência judicial).
Hoje Eliana dos Santos garante que tudo isso está enterrado. Mas seu nome fica ligado a esse episódio que, afirma, lhe trouxe muita experiência, pois aprendeu a “confiar e a desconfiar ao mesmo tempo”. E constatou que tem amigos e apoios na Suíça e no Brasil.
Eliana realiza agora uma exposição individual sobre temática tuaregue em sua própria galeria e ateliê, na esplêndida parte antiga de Friburgo. Dispõe assim de uma plataforma de lançamento de sua pintura. Com essa mostra mantém um desafio: enfrentar o atulhado e disputado mercado da arte na Suíça.
Um realismo difuso
Sua atual exposição pode constituir-se numa carta de visita para essa artista autodidata, fascinada pelo mundo tuaregue e pela concepção que esse povo “independente” tem da vida. “A única preocupação dele é conseguir água e comida, para sobreviver”, realça Eliana.
A mostra friburguense reflete fragmentos desse mundo, distante da agitação citadina. Um mundo de tons ocres do deserto e de toques de azul das roupas do raros personagens que aparecem, pois quem rouba a cena é um “protagonista” incontornável, o camelo. O animal representa para o tuaregue o que o carro e os meios de transporte representam para o ocidental. Note-se ainda que a maioria das telas se banha num realismo difuso.
Eliana já visitou duas vezes região do deserto onde vive parte dos tuaregues. Mas pretende voltar a fim de compartilhar a vida deles “numa tenda, sem telefone e isolada de tudo”.
swissinfo, J.Gabriel Barbosa
Eliana dos Santos é natural de Itapeva, no Estado de São Paulo. Pinta “desde os sete anos” diz não conseguir ficar sem pintura. Por um bastante longo período na Suíça – onde chegou há 15 anos – exerceu seus seus dotes principalmente decorando restaurantes com afrescos e atendendo uma ou outra encomenda de quadros.
Encontro com o badalado artista suíço Jérôme Rudin – hoje desacreditado e em aparente falência – vai trazer-lhe oportunidade de pintar dezenas e dezenas de telas. A relação termina mal e diante de tribunal, mas com danos apenas morais para a artista brasileira (veja reportagem ao lado).
A nova exposição montada em Friburgo, na Suíça, é uma nova pedra na construção do edifício de sua própria carreira artística…
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