A música é a arte do instante
Música é o momento em que o músico toca. Fora desse momento não tem música. Partitura é projeto de música e disco é apenas um traço do que já foi música, segundo Malcolm Braff.
O pianista e compositor tem idéias muito claras sobre a arte que pratica e conta que descobriu o jazz por acaso.
O pianista e compositor Malcolm Persson Braff nasceu no Brasil, morou onze anos no Senegal e vive na Suíça desde o início da adolescência. Considera-se cidadão do mundo mas só tem um passaporte, o brasileiro, e projetos de voltar a morar no Brasil.
“Não sou só brasileiro, nem só africano, nem só europeu” afirma.
Filho de pai gaúcho e mãe mineira, Malcolm nasceu no Rio de Janeiro em 1970. O pai era pastor e cantor de gospel, a mãe professora e a família mudou para o Senegal quando Malcolm tinha dois anos.
Clássico e jazz
O nome e o sobrenome vêm de uma longínqua origem escandinava.
Começou a estudar música clássica, em Dakar, aos 5 anos mas o professor era cabo-verdiano. “A música de Cabo Verde é muito presente no Senegal”, lembra o pianista, que ia freqüentemente ao Brasil, em férias, nessa época.
O primeiro contato com a música foi muito cedo e natural. “Em casa a gente cantava em várias vozes e tive minhas primeiras noções de harmonia. Minha influência gospel vem daí”, afirma Malcolm.
“Talvez o músico seja uma espécie de xamã, um mediador entre dois universos, e o público é importante porque ajuda e participa desse momento”.
Quando tinha 13 anos, a família Braff veio para a Suíça e Malcolm estudou mais dois anos de clássico. Só que nos dez anos de estudos de música clássica, ele conta que passava mais tempo improvisando no piano.
Na adolescência teve suas experiências com o rock e descobriu o jazz por acaso, no Festival de Montreux, em 1988.
Disco é propaganda
Além dos nove projetos musicais próprios (entre eles um Big Band, quatro trios e o quinteto Combo), Malcolm Braff musicou três peças teatro, onze de dança e fez três trilhas sonoras para cinema e vídeo. Na região entre Lausanne, Montreux e Vevey, além de músico, ele é um agitador musical.
Em junho de 1993, para celebrar o solstício de verão, tocou sozinho durante 24 horas.
Sua discografia também é extensa: vinte discos, entre eles sete CDs próprios, até agora. Com o quinteto Combo (afro-jazz) já gravou dois discos no prestigioso selo Blue Note: “Together” (1999) e “The Preacher” (2000). Mas aí também Malcolm tem as idéias claras.
“Disco é propaganda, um objeto indispensável para a promoção de concertos. Sem gravar disco não é possível tocar. Senão, disco é um traço de um momento em que houve música mas esse momento morreu, desapareceu. Disco também pode ser pensado como uma partitura sonora, como exemplo do que pode ser tocado, mas é longe da música enquanto ato de tocar”.
Tocar muito e ouvir pouco
“Fui ao concerto porque queria encontrar uma garota, que eu sabia que estava lá. Quando ouvia, não gostava dessa música mas, quando vi os músicos tocando e a comunhão que havia entre eles, senti que era assim que eu queria tocar”, relembra.
A reação natural foi entrar numa escola de jazz onde ficou apenas um ano, “porque não queria ser acadêmico”. Ele explica que, para alguns, o jazz é só clássico. “Para mim é uma atitude e há tantos jazz quanto os músicos de jazz“.
“No clássico, o saxofone tem um som único. No jazz, cada saxofonista tem um som diferente e é assim com qualquer instrumento”.
Malcolm Braff saiu logo da escola de jazz e foi para a universidade estudar filosofia, musicologia e hebreu antigo. Ao mesmo tempo, ele continuava tocando. Estudou com alguns pianistas, mas tornou-se autodidata.
“Para mim, a música é de tocar e não de ouvir. Eu sempre ouvi muito pouco. Também não quero transmitir mensagem nenhuma tocando, a não ser a experiência do momento e a vontade de tocar”, explica.
Malcolm também é compositor, mas considera a composição “como uma maneira de melhorar a ferramenta que eu sou para tentar tocar mais e melhor. Uma partitura é um projeto de música e uma partitura nova serve para enriquecer o vocabulário”, afirma o pianista.
Uma concepção oriental
Quando diz que “para mim, a música é o momento em estou tocando e fora desse momento não tem música”, Malcolm Braff expressa uma concepção oriental da arte em que o ato é mais importante do que o resultado. No mundo ocidental, o produto é mais importante que o ato.
“Tentar captar a energia de um momento é absurdo”, afirma. “Você pode filmar um ato de amor, fazer uma obra de arte com isso, mas não restitui a emoção do ato de amor.”
O pianista acha que os pintores e escultores, por exemplo, deveriam abrir seus ateliês ao público e cobrar ingressos para as pessoas presenciarem o momento da criação.
Ele diz que não quer criar obra nenhuma – mesmo se de fato está criando – porque, para ele, isso não tem sentido. “O disco, o quadro, a escultura, o cinema são manifestações de idolatria. É uma busca da imortalidade na sociedade ocidental”, opina.
“Talvez por isso o free jazz tenha sido revolucionário. Na improvisação está integrada a idéia da morte”.
Várias técnicas
Quando toca, Malcolm diz que tenta passar uma energia como uma bolha que, primeiro, envolve os músicos e que, quando também envolve o público “aí é muito bom”.
Só que os públicos também são diferentes. “No Brasil e na África, existe mais cultura musical no sentido em que as pessoas sabem melhor o que é tocar. Na Europa, a reação é de mais raciocínio porque é um público de museu, de colecionador. Na África, você toca na rua e pára o trânsito; na Europa, você toca na rua e ninguém liga!” A última vez que Malcolm tocou no Brasil foi com o quinteto Combo, em 2000.
Mas, mesmo se a música é a arte do instante, é preciso técnica. “Tem a técnica instrumental, a técnica emocional, a técnica da improvisação etc. Para mim, a mais importante é a capacidade de entrar e ficar na música, não sair desse estado particular de consciência. A técnica instrumental pode ajudar mas também pode ser um obstáculo a isso. Ela é útil mas não é indispensável”.
O pianista e compositor acha que não existe muita diferença entre gêneros musicais e acredita que um músico tocando hoje fica no mesmo estado de espírito de um músico do “Neandertal”.
Para Malcolm, a origem e o sentido profundo da música é ritual mas que, se os músicos pararem de tocar, a música acaba. “Por enquanto, não vejo isso como possível. Enquanto houver espiritualidade, religiosidade, haverá música”, conclui.
swissinfo, Claudinê Gonçalves.
Malcolm Braff nasceu no Rio de Janeiro, em 1970.
Morou 11 anos no Senegal, onde começou a estudar música clássica.
Mora na Suíça desde os 13 anos.
Até agora, gravou 7 CDs próprios e participou de pelo menos mais 13 discos.
Musicou peças de teatro e dança e fez trilhas para cinema e vídeo.
– Malcolm Braff tem uma concepção oriental da arte, em que o ato é mais importante do que o resultado.
– Por isso, para ele, a música só existe no momento em que o músico toca;
– compor é mais parecido com arte plástica;
– partitura é projeto de música;
– disco é traço do que já foi música e um exemplo do que é possível tocar.
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