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A virada na carreira de Antonio Meneses

"Todo artista precisa de CDs para se promover", ressalta Meneses. www.musica.gulbenkian.pt

O violoncelista Antonio Meneses, de renome internacional, tocou e toca com as orquestras e regentes famosos, desde que ganhou concursos de prestígio.

Mas a etapa mais gratificante na sua carreira, diz, é participar do Beaux Arts Trio.

Em 1977, o violoncelista brasileiro vence o Concurso Internacional de Munique e em 1982, com 24 anos, ganha o primeiro prêmio, ou seja, a medalha de ouro no renomado Concurso Tchaikovsky, em Moscou.

Desde então as portas se abrem para o músico que inicia uma intensa carreira de solista, principalmente nos primeiros anos. De maior impacto para o jovem artista é atuar com as famosas Filarmônica de Berlim – na época dirigida por Herbert von Karajan – e a Sinfônica de Londres, sob a batuta de Cláudio Abbado…

Mas podemos acrescentar, entre várias outras, a Sinfônica de Viena, a Concertgebouw, de Amsterdã, as Filarmônicas de Moscou e de São Petersburgo, e mesmo a Orquestra da Suíça Romanda.

“A nova etapa”

Quando fala da experiência e emoção de tocar com as grandes orquestras, Antonio Meneses, 47 anos, gosta de realçar que “cada uma das interpretações foi uma coisa única, memorável e importante”, acha que todas têm sua importância, descartando convite de falar sobre suas preferências.

Mas estima que a entrada no Beaux Arts Trio representa uma etapa marcante na sua carreira, “uma nova etapa”, como ele diz. Meneses acha que na vida da gente há esses momentos: “dá-se uma grande virada e um novo capítulo começa”.

Para ele esse um capítulo novo começou há seis anos, em 1998, justamente quando passou a integrar o renomado conjunto, verificando que desde então pôde combinar melhor a vida de solista com a de camerista. “Na música de câmara, quase só toco com o trio”, constata o violoncelista. Porque não sobra tempo…, justifica.

Mas é um trabalho muito “gratificante” que qualifica “do mais alto nível”.

O mestre Pressler

O artista acha ter aprendido muito com o pianista Menahem Pressler, membro fundador do trio, que, pasmem, completa 81 anos em dezembro deste ano e, segundo Meneses, parece tocar até melhor que antes.

“Realmente devo muito a ele, não me envergonho disso, pois não tem idade para parar de aprender. Fizemos muitos recitais, tocando sonatas de Beethoven para violoncelo e piano.Ele abriu a minha mente às possibilidades que existem nessas obras… Foi uma pessoa de grande influência na minha vida musical nos últimos anos”.

É bom lembrar que o Beaux Arts Trio – que está justamente comemorando 50 anos de existência – é considerado uma referência no mundo musical.

Se a base de seu repertório são os compositores clássicos – Haydn, Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert – para a nova temporada tem 4 compositores escrevendo obras para o trio. Sinal de que há sempre uma preocupação de renovar-se e de explorar outros horizontes.

Seis anos de trabalho

Se Antonio Meneses vê um salto qualitativo na sua carreira desde que se incorporou ao legendário ensemble é porque “foram seis anos de trabalho – ensaios, concertos, recitais, com os mesmo músicos – sempre tentando apurar cada vez mais, tentando melhorar. Isto é uma coisa que tocando com uma orquestra não acontece”, realça.

É partindo dessa constatação que ele vem preferindo tocar música de câmera e dar recitais. As condições de um artista evoluir são maiores, estima, quando, por exemplo, toca, como é seu caso, com o mesmo pianista várias vezes por ano.

O violoncelista admite que tocar com uma orquestra é também importante e mesmo interessante, pois um público de duas ou três mil pessoas impressiona. Mas “faz-se um ou dois ensaios, segue-se o concerto, se se tem sorte, aparece uma turnê de cinco, dez apresentações e acabou-se. Assim não há chance de melhorar, descobrir coisas novas…”.

E mais: “É sempre aquela coisa do solista que aparece, é ele que sobressai e não a musica. Isso já não me interessa tanto como antigamente”.

“O CD é um produto”

Por esses motivos considera o entrosamento com um parceiro de recitais muito mais enriquecedor.

Antonio Meneses sente também certa angústia quando grava pelo simples fato de a gravação ser um registro : “A partir do momento que está feito você não pode mudar nada”.

Não é que não goste de gravar, mas acha a gravação, o CD, principalmente hoje em dia, uma coisa muito artificial, um produto…

“Naturalmente, quando você vê um CD novo que acabou de sair da impressora, você fica feliz e emocionado. Não deixa de ser um produto importante. Agora, na nova gravação das suítes de Bach (que acaba de ser lançada) você vê, isto é uma síntese do que tenho feito, digamos. Mas não deixa de ser no final das contas um momento. No próximo recital que tocar pode sair tudo diferente”.

Um concerto “é coisa única”

Meneses vê então a gravação como uma necessidade, inclusive por razões de promoção. Todo artista precisa de CDs para se promover. Lembra também que as pessoas gostam, depois de um concerto, de ir à loja e ter uma lembrança…

Mas não deixa de enfatizar que um recital, um concerto, é uma coisa única, que existiu num certo tempo: “Nunca mais você vai tocar exatamente nas mesmas condições, com os mesmos sentimentos, o mesmo regente, a mesma orquestra, na mesma sala”.

É por isso, conclui, que o público gosta tanto, consciente que aquilo nunca mais vai acontecer exatamente da mesma maneira, nas mesmas condições.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

Nascido em Recife em 1957, criado no Rio de Janeiro, Antonio Meneses está radicado na Europa desde os 16 anos. Tornou-se internacionalmente conhecido aos vencer dois prestigiosos prêmios para violoncelo, na Alemanha e na Rússia. Hoje reside em Basiléia e é membro do Beaux Arts Trio.

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