Cinema de visão singular em Nyon
Em Nyon, perto de Genebra, nova edição do Festival Internacional "Visões do real" privilegia o cinema subjetivo para evitar a limitação do documentário.
Para sua 8a. edição (de 22 a 28/4), o Festival Internacional do Cinema Documentário, em Nyon, (no estado de Vaud, mas a cerca de apenas 20 km de Genebra), decidiu afinar sua filosofia. Conserva a denominação “Visions du réel”, mas deixa de lado a alusão ao cinema documentário que para muitos é sinônimo de chatice.
Cento e treze filmes de 22 países participam do evento. Principalmente da Europa, Estados Unidos, Canadá, Japão e Suíça, além de África do Sul, MOCAMBIQUE, Namíbia e Palestina.
Curtas, medias e longas metragens – com duração de 1 a 358 minutos – figuram entre as 7 seções do programa. Vinte e duas películas participam do concurso.
Visões subjetivas
O nome que mais nos interessa é o de “Visões do real” porque atende à expectativa de quem espera ver em Nyon um cinema documentário de visões, de pontos de vista pessoais, firmas de autor e singularidades”, observa Jean Perret, diretor do festival, em entrevista a swissinfo.
Em seus 8 anos de existência, o Festival de Nyon, único no gênero na Suíça, demonstrou que o cinema do real é muito diferente. Pode abranger desde a obra experimental até grandes produções de 35 mm.
“Com tanta variedade o termo documentário, associado à idéia de cinema didático, é insuficiente. Além disso, ao cinema documentário se atribui a virtude da objetividade, quando o que lhe dá força e riqueza é a subjetividade”, realça Perret.
Destaques
O programa de Nyon tem 3 pontos fortes:
– produções em vt ligeiro voltado para a introspecção, intimidade e identidade em círculos privados e familiares
– a formidável ânsia dos cineastas de conhecer outras culturas para se enriquecerem das diferenças, como o filme “Gambling, Gods and LSD”, do suíço-canadense, Peter Mettler
– e a volta do cinema de compromisso social.
Antoine Duplan, da revista suíça “Hebdo”, reconhece a pertinência da opção de Nyon. “Os atentados de 11 de setembro nos Estados Unidos, ao mobilizar milhões e milhões de telespectadores, mostraram como a realidade pode se vingar da ficção, como as imagens mais fortes são as mais verdadeiras”, escreve o redator.
Convidados e debates
Para o evento, os organizadores do festival de Nyon convidaram duas destacadas figuras do documentário: o norte-americano Frederic Wiseman e o candense Donigan Cumming. O primeiro, em cerca de 30 obras, aborda aspectos da sociedade norte-americana como a vida num hospital psiquiátrico, uma agência de manequins ou um jardim zoológico. Já Cumming se interessa pelos marginais e pela desgraça das pessoas.
A tragédia da Aids na África do Sul, a vida cotidiana de uma casal de lésbicas na China, e a vida solitária dos pastores suíços, terceira parte de uma trilogia sobre a vida campestre suíça, de Erich Langjahr, são outras surpresas do festival.
O documentário suíço
“A enfermidade e a memória”, filme de Richard Dingo sobre doença de Allzheimer; um filme de Alexander Seiler, “September Wind”, sobre os italianos que regressaram à pátria depois de trabalharem na Suíça, e vários curtas-metragens realizados para a “Expo.02” (exposição nacional de maio a outubro) testemunham a abundante produção suíça nesse gênero de cinema.
“Com uma forte tradição no documentário e com realizadores que viajam muito, Suíça mostra no Festival “Visions du réel”, a emergência de nova vaga de cineastas na região de língua francesa do País, em particular Lausanne, conclui Jean Perret.
Jaime Ortega
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