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Filme recorda sonho da França brasileira

Emmanuelle de Riedmatten swissinfo.ch

Episódio esquecido da história brasileira, os franceses tentaram no séc. XVII implantar uma "França Equinoxial" no Maranhão, onde fundaram São Luís.

Documentário de diretora suíça resgata com sensibilidade e poesia esta página da História brasileira.

Os livros escolares brasileiros registram que, em meados do século XVI, exatamente em 1555, Villegaignon, embalado por uma utopia, tenta criar no Rio de Janeiro uma “França Antártica” protestante. O sonho não dura mais de 10 anos, pois em 1565 ele e seus comparsas são definitivamente expulsos do Brasil.

O fascínio francês pelo País (que atualmente o Ano do Brasil procura ressuscitar na França) ressurge meio século depois. Em 1612, cerca de 250 franceses, comandados pelo capitão Daniel de La Touche – Monsieur de La Ravardière – lançam-se em nova aventura com o objetivo de conquistar um pedaço do Brasil.

Desembarcam no Maranhão, onde fundam São Luís, em homenagem a Luís XIII. Mas a aventura termina em tragédia: já em novembro de 1614 são vergonhosamente derrotados por tropas portuguesas sob comando de Jerônimo de Albuquerque.

Vergonhosamente, porque os franceses dispunham de 300 soldados e mais de 2000 índios; os portugueses eram apenas 200 soldados, 60 marinheiros e 200 índios. Tiveram 11 mortos e 14 feridos na chamada Batalha de Guaxenduba. Do lado inimigo as baixas foram de 1400 homens. A vitória de Albuquerque é atribuída a um melhor conhecimento do mar pelos portugueses.

Os ruivos tagarelas

Esse esquecido ou pouco lembrado capítulo da história no Brasil – e também na França – é contado em detalhes no livro de Maurice Pianzola, “Les Perroquets Jaunes” (Os Papagaios Amarelos, traduzido em português), subtítulo de “Franceses à Conquista do Brasil / XVII Século”.

É com base nesta obra que a diretora suíça, Emmanuelle de Riedmatten, uma entusiasta do Brasil, baseia seu vídeo-documentário, narrando com habilidade e sensibilidade o fracassado sonho dessa colônia francesa nos trópicos.

Por outro lado, transformou em realidade o sonho de Pianzola de realizar um filme a partir do argumento de “Os Papagaios Amarelos” e conseguiu, ao mesmo tempo, produzir um vídeo com a leveza que o livro do escritor suíço não tem.

Para evitar confusão com o reino animal, Emmanuelle optou pelo título “Terre sans Mal” (terra sem mal), poética alusão ao mito de um paraíso, almejado pelos tupinambás e outras tribos indígenas.

(Note que “papagaios amarelos” é o apelido que os índios deram aos invasores porque esses franceses ruivos da Normandia eram muito tagarelas).

Escassos vestígios

A tarefa da cineasta suíça foi mais complicada do que o previsto. Além dos problemas de financiamento, o octogenário Pianzola que devia ser o “elo de ligação” do filme, ficou enfermo, vindo aliás a falecer em 2004.

Outra dificuldade foram as raras marcas da presença francesa em São Luís.

“Logo que cheguei ao Maranhão vi que traços dessa história não existiam mais, lembra Emmanuelle de Riedmatten. Tirando um Colégio de La Touche e um Café de La Touche, são poucos os vestígios da passagem dos franceses pela região”.

A cineasta notou aqui e ali lojas com nomes alusivos a essa herança, constatando que se deve buscá-los na memória das pessoas: “Algumas são muito ciosas do fato de que São Luís foi quase uma cidade francesa”.

“E parece também que no século XIX houve uma moda francesa muito marcante, com interesse por porcelanas de Limoges, pela moda parisiense”, lembra ainda.

Acréscimo à História

Mas até hoje o trecho da história maranhense que o documentário de Riedmatten resgata, reconstituindo essa aventura francesa, suscita pouco interesse da população local, cuja maioria aliás, está mais preocupada com a própria subsistência.

Nesse sentido, o vídeo presta grande serviço à memória do Maranhão, pois além de lembrar uma página de sua História, registra um momento atual, aponta belezas como os magníficos Lençóis Maranhenses (na abertura do filme) e aflora a questão dos contrastes sociais e dos problema indígenas.

Mais dinheiro e tempo teriam certamente evitado pequenas imperfeições de um trabalho que merece ser mais visto e divulgado. Só dá vontade conhecer mais, de explorar aspectos ignorados ou olvidados do passado brasileiro naqueles que vêem o trabalho. O filme, segundo o produtor, “acrescenta o capítulo que faltava à História do Brasil”.

swissinfo, J.Gabriel Barbosa

No século XVII, uma frota francesa sob o comando de La Ravardière invadiu a Montanha dos Canibais, hoje Maranhão, na tentativa de colonizar um pedaço do Brasil.

Quase 400 anos depois, neste início do século XXI, um video-documentário, assinado pela diretora suíça Emmanuelle de Riedmatten, resgata esse episódio pouco conhecido “É um capítulo que faltava à História do Brasil”, escrevem os produtores.

O DVD merece maior divulgação, pois até agora entrou apenas na programação da Televisão Suiça Romanda e, no Brasil, da TV Senac (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial).

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