O preparador de peixes
Jovem suíço torna-se nos Estados Unidos campeão mundial de preparo de peixes.
Após dois meses de trabalho de precisão cirúrgica, eletricista transforma pequeno peixe de rio em jóia de exposição. Museus zoológicos são os principais clientes.
“Desde criança eu tenho uma fascinação por peixes. Fazia com meu pai caminhadas pelas montanhas e descobria nos lagos as mais interessantes espécies. Não demorou muito, e comecei a levar alguns para casa. Lá os conservava em formol para depois secá-los e expô-los no meu quarto. Claro que minha mãe ficava furiosa com o cheiro que empesteava o porão, porém ela entendia minha paixão”.
Assim explica Matthias Fahrni, 34 anos, seus primeiros passos na sua curiosa profissão.
O jovem suíço da pequena cidade de Aegerten, distante meia hora de Berna, acaba de chegar dos Estados Unidos, onde ganhou em Springfield, Illinois, o título de campeão mundial 2003 em preparo de peixes, depois de já ter ganhado com o mesmo trabalho duas vezes o título de campeão europeu. O evento americano contou com a participação de 700 objetos, realizados por dois mil preparadores de 15 diferentes países.
Sua obra-prima é um pequeno peixe prateado – o “Alburnoides bipunctatus”, ou mais conhecido como “Costureiro” – que pode ser encontrado em rios suíços como o Aare e é usado comumente como isca por pescadores.
Fahrni trabalhou dois meses, dia e noite, para transformar o pequeno peixe num objeto de exposição.
“Preparar uma truta é banal. Difícil é um peixe pequeno”
“Secar e plastificar um peixe grande como uma truta é uma coisa muito banal, mais praticada por pescadores, que gostam de expor seu troféu na parede da sala. O desafio que eu enfrentei foi preparar um peixe minúsculo, mantendo todas as suas cores, suas escamas e deixando-o com um aspecto natural”, explica Fahrni.
O trabalho de preparar um peixe é tão complexo como montar um relógio suíço. Exige-se precisão, domínio da técnica e muita paciência.
O primeiro passo é a captura da espécime. Depois o peixe é fotografado com lentes macro e são analisados e descritos todos os seus detalhes, como cores e marcas. No futuro, Fahrni espera utilizar computadores que farão o mapeamento completo do animal, incluindo sua medição.
“Essa parte é importante, pois eu tiro a pele do peixe, como se fosse uma laranja e a coloco numa solução conservante. A cabeça é também separada pois sua conservação ocorre separadamente. As cores e outros detalhes desaparecem logo após a morte do animal. Só ficam as pintas”.
O preparador de peixes passa então horas no seu laboratório, manejando equipamentos cirúrgicos de precisão, modelando o corpo do peixe em resina. Depois ela é coberta com a pele, ainda flexível e que não deve ser danificada.
“Se eu fizer um mínimo erro, as escamas minúsculas começam a cair. Elas se parecem com telhas de uma casa. Depois que uma cai, as outras perdem também a fixação. Então não há forma de consertar o buraco”.
Copiar a natureza para alcançar realismo
A segunda fase é pintar o corpo e a cabeça do peixe, que ainda estão separados. Esse, segundo Fahrni, é um dos trabalhos mais penosos.
“Durante semanas fico copiando todos os detalhes que encontro no corpo do peixe vivo, como as centenas de pintas pretas geometricamente dispostas, o fundo dourado escuro, o vermelho nas barbatanas e até a cor e formato dos olhos, que também são fabricados por mim”.
Depois, como num brinquedo de montar, a cabeça e o corpo são juntadas. Muitas vezes as duas peças não combinam. “Se eu não conseguir conservar a cabeça corretamente, ela murcha e perde tamanho. Nesse caso, tenho de recomeçar o trabalho.”
A última fase no preparo do vertebrado é fixar as barbatanas. No final, uma camada de resina é passada sobre todo o corpo do peixe “para imitar a gosma lustrosa que normalmente os cobre”.
O peixe preparado é colocado numa pequena caixa, que imita uma cena no meio natural. Duas lâmpadas xenon instaladas na base iluminam o “Cortador” e dão a impressão que ele está nadando num aquário sem água.
Maior parte dos clientes é de universidades
Tanto detalhismo tem seu preço. Mathias Fahrni acaba de vender seu exemplar campeão para o Museu Zoológico da Universidade de Zurique, que pagou oito mil francos pela peça (US$ 5800).
Há nove anos, o jovem suíço trabalha profissionalmente com seu hobby. A profissão original – de eletromecânico – foi abandonada. “Porém ela é útil para saber lidar com instrumentos e construir ferramentas”.
Hoje Fahrni atende instituições de pesquisa como o Museu Natural de Solothurn, do qual irá restaurar todo seu acervo de peixes.
“Meu desafio é de preparar peixes considerados impossíveis”, lembra Fahrni. Na Suíça existem 60 espécies de peixes, sendo que delas, 40 são consideradas “não preparáveis”. O jovem suíço parece ser um dos grandes especialistas no seu setor: o “Cortador” era uma delas.
Além do prazer de ganhar a vida com algo que gosta de fazer, Fahrni também não esconde uma pretensão ecológica com seu trabalho. “Talvez meu trabalho possa ajudar as pessoas a conhecerem melhor a natureza da Suíça”.
swissinfo, Alexander Thoele
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