“Paul Klee foi um observador”
Além de seus diários, Paul Klee deixou-nos uma grande quantidade de testemunhos sobre o seu trabalho, seus contemporâneos e sobre o seu tempo. Seus escritos nos dão uma profunda visão da sua personalidade.
swissinfo queria saber sobre o artista. Uma conversa com Christine Hopfengart, curadora no Centro Paul Klee.
swissinfo: com sete anos de idade ele aprendeu a tocar violino, com onze anos já fazia parte da Orquestra Sinfônica de Berna. Mesmo assim, ele se decidiu pela pintura. Por quê?
Christine Hopfengart: Durante o período em que freqüentava a escola, Klee desenvolveu habilidades nas duas áreas, na música e nas artes plásticas. Paralelamente às aulas de violino, ele também começou a pintar muito cedo. Se tivesse optado pela música, ele teria seguido o caminho que seus pais já tinham traçado. Decidiu-se pela pintura e, com isso, desvinculou-se mais da casa dos pais. Seu pai, um homem de fortes convicções, nunca pareceu completamente convencido da qualidade do trabalho artístico de Klee.
Além disso, Klee escolheu a pintura porque, na música, ele teria permanecido como intérprete, já que não compunha. Nas artes plásticas, no entanto, ele podia atuar criativamente e desenvolver livremente a própria personalidade.
swissinfo: O grande artista de vanguarda era muito conservador em seu gosto musical. Não há contradição nisso?
C.H.: Sem dúvida. Klee tinha uma postura cética em relação à música moderna, por exemplo de Arnold Schönberg, e considerava Bach e Mozart seus referenciais. Ele achava que, na obra destes dois compositores, o desenvolvimento artístico da música tinha atingido a perfeição. Mais tarde, Klee escreveria que não havia nada mais a acrescentar a esta perfeição e que, por este motivo, ele havia escolhido as artes plásticas, porque elas estariam num estágio menos desenvolvido do que a música e ele queria trabalhar para o seu aperfeiçoamento.
swissinfo: As crianças também gostam muito dos quadros de Klee, e ele próprio sempre tematizava a essência da infância. Ele escreveu que permanecera criança. O que ele quis dizer com isso?
C.H.: Klee não tinha nada de infantil, ele era um intelectual. Mas, fascinado pela essência criativa, pela imaginação não-convencional das crianças. Ele via na infância um mundo ideal, que ainda não havia sido deformado pelas convenções culturais. Os desenhos infantis continham o que ele próprio queria atingir, ou seja, a superação da tradição e convenção acadêmicas.
swissinfo: Klee tinha uma postura muito distante e cética em relação ao mundo político e social que o cercava. Ele era, em vários aspectos, inexorável. Por este motivo, muitos de seus contemporâneos o consideravam misterioso.
C.H.: Klee era muito reservado, por isso muitos o consideravam misterioso. Ele próprio contribuiu para reforçar esta idéia, definindo-se publicamente como um artista que „não pode ser compreendido neste mundo”.
Eu diria que Klee era, sobretudo, um observador. Ele analisava a natureza, as pessoas e, principalmente, a si próprio. O seu olhar era preciso e objetivo, muitas vezes até impiedoso. Quando jovem, a sua opinião sobre os outros e sobre si mesmo era muito rigorosa e de tom moralista. Mais tarde, porém, prevaleceu o seu sofisticado senso de humor.
swissinfo: Taxado de artista „degenerado” pelos nazistas e expulso da Alemanha, Klee fugiu para a Suíça. Como ele suportou o exílio?
C.H.: Apesar de não haver muitos escritos sobre isso, acredito que Klee tenha sofrido bastante com o exílio. É preciso ter presente que Klee, na época da ascensão de Hitler ao poder, estava no auge da carreira. Ele era famoso na Alemanha. Embora as opiniões a seu respeito não fossem unânimes, os jornais publicavam notícias sobre ele e seus quadros vendiam muito bem. De uma hora para outra, ele teve de abandonar o país no qual era considerado um importante representante da vanguarda artística.
Ao emigrar para a Suíça, ele perdeu a sua pátria intelectual, como ele mesmo descreveu. Aqui, ele não encontrou nada que substituísse o ambiente artístico livre e dinâmico a que estava acostumado na Alemanha. Depois de retornar à Suíça, Klee passou por uma crise de criatividade que o fez, a princípio, abordar em suas telas temas antigos, que ele já havia abordado, antes de conseguir voltar a desenvolver novos temas.
swissinfo: Em 1935, Klee foi acometido por uma doença rara que acabou levando-o à morte cinco anos mais tarde, aos 60 anos de idade. A doença afetou o seu trabalho artístico?
C.H.: Sim, e muito. Em 1936, Klee produziu apenas 25 obras. Ele nunca havia produzido tão pouco. Foi a maior crise da sua carreira. Pouco depois, porém, sua vitalidade voltou. Ele teve uma nova fase de entusiasmo criador culminando com um verdadeiro êxtase produtivo. Só no ano de 1939 ele produziu mais de 1000 obras. Era como se a crise lhe tivesse proporcionado um recomeço.
swissinfo: Klee passou a metade da sua vida na Suíça, mas morreu sendo cidadão alemão, poucos dias antes de ser naturalizado suíço. Como era a sua relação com a Suíça?
C.H.: Certamente ambígua. Klee sentia-se estreitamente ligado à cidade de Berna e à sua família. Por outro lado, aqui ele se sentia limitado. Mesmo assim, ele sempre voltava para cá nas férias.
Um dos motivos era certamente a paisagem, com a qual ele se identificava muito e na qual ele gostava de passear. Por outro lado, ele considerava a vida em Berna muito pacata e „eternamente burguesa”.
Swissinfo, Isabelle Eichenberger
tradução de Fabiana Macchi
1870 – Paul Klee nasce em 18 de dezembro em Münchenbuchsee, próximo a Berna.
1898 – Mudança para Munique, onde estuda na Academia de Arte.
1906 – Casamento com a pianista Lily Stumpf.
1907 – Nasce o único filho do casal.
1916 – Convocação pelo exército alemão.
1920 – Klee se torna professor na Bauhaus em Weimar, Alemanha.
1931 – Klee se torna professor na Academia de Arte de Düsseldorf.
1933 – Depois de ser demitido pelos nazistas, Klee retorna à Suíça.
1940 – Klee falece em 29 de junho em Locarno com uma doença rara.
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