“Piano não dá, mas tem fagote”
Esta a resposta que Rogério Gonçalves, adolescente, recebeu do maestro que criava uma orquestra sinfônica em Londrina.
Pegou o fagote mesmo e hoje, na Suíça, com 33 anos, vive do instrumento, tocando música medieval, renascentista e barroca.
Com 14 anos, Rogério nem sabia o que era um fagote. Mas desde os oito já arranhava um piano. Hoje, casado e estabelecido na vida, em Lausanne, onde vive com a esposa holandesa, lembra com bom humor como se despertou para a música erudita.
Recorda-se dos tempos em que, ainda criança, ficava encantado com o piano de uma prima que a família visitava aos domingos. Quando a prima tocava “eu achava bonito, sentia aquela pressão na barriga, aquela vontade…”
Nada o orientava para a música. Não havia tradição musical na família. Os pais e os irmãos não tocavam instrumento algum. Na sua casa em Londrina, no Paraná, “não tinha rádio, não tinha toca-discos, nada… Fui eu quem comprou o primeiro toca-disco. Televisão, sim, lógico, no Brasil não pode faltar”.
“Queria oboé, me deram fagote”
Se a musica não fazia então parte de sua vida, recebeu apoio da mãe quando quis tocar piano. Arranjou-se logo uma professora, uma velhinha de 83 anos ! Provavelmente pouco eficiente – a não ser que o menino não desse mesmo para o instrumento – pois seis anos depois não sabia tocar nada comme il faut.
Mas a sorte vem aos 14 anos com a criação de uma orquestra sinfônica na Universidade de Londrina, idéia um tanto louca de um dirigente de coral da cidade (Antonio Benvenuto), uma personalidade local.
Rogério vai oferecer seus préstimos como pianista, ao “louco” Benvenuto. “Piano, não dá, mas tem fagote”, diz o maestro. “Que é isso?”, espanta-se o jovem, “eu quero oboé”. Mas acabou aceitando a proposta: ficou com o fagote e diz ter adorado.
Dedicando até 10 horas diárias ao instrumento já o dominava um ano depois, prazo que recebera para aprender.
O fagotista lembra-se ainda de algumas das primeiras peças tocadas na orquestra londrinense: Summertime, de Gershwin (da ópera Porgy and Bess), Coração de estudante, de Gilberto Gil e Finlândia, de Sibelius. “Por falta de público (interessado) tinha que se misturar tudo”, avalia Rogério.
Virada na carreira
A proposta de componentes da Orquestra de fazer música antiga ia representar novo rumo na sua carreira do fagotista ainda pouco calejado, uma experiência de que vai gostar. Mas em 1990 envereda por novo caminho, quando o grupo de 5 músicos (dois fagotes, dois violinos e canto) é convidado para estudar na Schola Cantorum Basiliensis, instituição bem conhecida de Basiléia, no noroeste suíço.
Em meio a dificuldades de custear os estudos, Rogério Gonçalves pôde desvendar horizontes ignorados, aprofundando conhecimentos na área da música barroca, renascentista e medieval. Foi assim que tocou até bombarda, de que deriva o fagote, tirando 5 anos depois, em 1995, um certificado de estudos, inclusive em música medieval.
Como era um “diploma de externo” (não profissional), Rogério prosseguiu ainda, durante 4 anos, os estudos no Conservatório de Genebra, consagrando-se unicamente ao fagote barroco, à harmonia, à notação antiga… Envolve-se, então, muito mais com teoria. (Em Basiléia os estudos foram mais práticos).
Em 1999 recebeu o diploma de “musique ancienne” (música antiga) que lhe permite até ensinar em conservatórios.
Vida profissional
Na Europa, Rogério pôde mostrar seus talentos já desde 1992 – dois anos após chegar à Suíça – atendendo a convite para tocar “umas óperas”. Convite formulado pela orquestra parisiense La Grande Ecurie et la Chambre du Roi.
Mas, principalmente em Basiléia, ele devia se virar para pagar os estudos e para viver. Fazia concertos aqui e ali e inclusive trabalhou durante 4 anos em restaurante americano de fast-food.
No período de estudos em Genebra, onde as taxas eram o dobro, já conseguia pagar as taxas de conservatório somente com participação em concertos.
E hoje, Rogério Gonçalves, se descreve como freelancer, só fazendo concertos. Mas acontece de ser convidado para dar aulas em festivais. Resultado: viaja com freqüência, principalmente nos fins de semana, para a Itália, França, Alemanha…
A vantagem, diz, é de ser chefe de si mesmo. A desvantagem é uma certa precariedade. Se há orquestras que sempre o chamam, nada é fixo: “Na música antiga, na música barroca, não é como na música moderna em que você é empregado de uma orquestra. Me chamam. Me pagam e tchau”.
Independência
O fagotista tem também seu grupo e organiza por própria conta os concertos que lhe são solicitados. E parece apreciar essa vida de músico independente, apesar de uma situação instável, resultante da dita precariedade.
Muito cioso de sua independência, Rogério realça gostar da música antiga, inclusive do barroco, porque ela proporciona ao intérprete liberdade de “adaptar, de utilizar a partitura. Liberdade de orquestração, de adaptação, de… invenção”, ou seja, a possibilidade de “botar o próprio jeito dentro de uma peça”, comparável ao que ocorre no jazz nos dias de hoje.
O artista aprecia a música pouco explorada e diz adorar “o que não é conhecido e bonito”, como o Calendarium Musicum do compositor austríaco (do final do barroco), Gregor Joseph Werner, que gravou há dois anos.
Entre os famosos, seus preferidos são Rameau e Mozart. Mas aqui já entramos em outro capítulo (clique em Eu gosto de música desconhecida)
swissinfo, J.Gabriel
Nascido em Londrina, no Paraná, Rogério Gonçalves, 33 anos, estudou fagote em Basiléia e em Genebra, dedicando-se à musica antiga, medieval e barroca. Ele adora compositores pouco conhecidos e pouco tocados desses períodos, tendo gravado um deles, Gregor Joseph Werner.
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