Sombras colidem com pessoas
A Suíça indica na Bienal Internacional de Artes de Veneza quanto tempo falta para o fim do mundo.
Faz dela também um palco para debater a questao da identidade nacional através de outras instalaçoes e vídeos. Nesta edição, o curador da mostra quis realçar a sociedade suíça multifacetada em suas diferentes identidades cultural, linguística e artística .
Nesta edição, o curador da mostra quis realçar a sociedade suíça multifacetada em suas diferentes identidades culturais, linguísticas e artísticas.
A Suíça é plural e multicultural na visão dos artistas presentes no pavilhao helvético. “Sombras colidem com pessoas” é o nome da mostra curada por Stefan Banz para a Bienal Internacional de Artes. A idéia partiu de uma observação escrita pelo filósofo francês Jacques Derrida, para quem uma língua somente sobrevive se houver outra para dialogar.
Relógio para o fim do mundo
“Na Suíça se falam muitos idiomas tais como o alemão, o francês, o italiano, o espanhol, o português, o inglês, o árabe etc. E a populaçao suíça-alemã fala uma língua mas escreve em outra, o alemao padrao”, conta o curador Stefan Banz.
Não por acaso, dos cinco artistas convidados para representar o país, apenas um nasceu na Suíça; os outros colocaram os pés no mundo pela primeira vez no Irã, na Itália, no Chile e na Holanda. Em comum entre os “estrangeiros” está o fato de falarem diferentes idiomas e de viverem em Genebra, salvo algumas mudanças provisórias. Cada um deles trouxe para a Bienal uma instalaçao na qual expressa sua visão de imagem e realidade, arte e sociedade.
Logo na entrada do pavilhão, um relógio digital marca a contagem regressiva para o fim do mundo. Domingo, dia oficial de abertura da Bienal, às dez horas da manhã, segundo as contas do artista Gianni Motti, o apocalipse final estará a 4.999.999.993 anos, 202 dias, 14 horas e alguns segundos de distância. Tempo mais do que suficiente para percorrer toda a exposição que se espalha pelas ruas, canais, praças, jardins e palácios de Veneza.
«O relógio está correndo desde 1999. Falta pouco menos de cinco bilhões de anos para que o sol desapareça. E como os suíços são os campeões da precisão, da relojoalheria, eu decidi criar esta espécie de bomba-relógio que seria o último ato de terrorismo no mundo, representaria a destruição do universo”, disse o italiano Gianni Motti a swissinfo. O “display” digital tem vinte casas numéricas e o mecanismo foi construído por um matemático no Japão.
Histórias em quadrinhos
Ou seja, pode-de dizer que a obra é ítalo-nipo-helvética para a posteridade. “Este é um presente que deixo para as gerações futuras, e espero que nos deixe mais cool e nos faça sentir menos eternos do que pensamos ser”, acrescentou Gianni Motti.
O artista italino radicado na Suíça também foi o responsável pela mundança do nome da rua do Giardino dell’Arsenale, onde està localizado o pavilhão. Ela passa a se chamar Harald Szeemann, suíço recentemente falecido que, como curador da Bienal foi o responsável pela abertura do espaço Arsenale para a exibição de mostras.
Já o iraniano Shahryar Nashat, nascido em Teerã mas educado em Genebra, criou o vídeo “The regulation line”. No museu do Louvre, na sala em meio ao quadro “A Vida de Maria de Médice”, de Peter Paul Rubens, um homem realiza movimentos lentos verticais na frente da pintura famosa por retratar a vida da rainha com cenas inspiradas na mitologia. A vídeo-instalação leva o espectador a refletir sobre a imperfeição humana e a beleza estética da obra de arte.
Por sua vez, o holandês Marco Poloni passou a infância em Roma e na Cidade do México para finalmente, na adolescência, viver na Suíça com a família. O holandês, o italiano, o espanhol, o francês e o inglês americano fazem parte da sua linguagem mae.
Para a Bienal, o artista criou uma série de painéis com fotos que revelam uma espécie de histórias em quadrinhos de homens de negócios, ambientes impessoais tais como aeroporto, avião, restaurantes de hotéis. Nas entrelinhas das imagens pode-se ler as « ante salas » das decisões importantes e que, de uma forma ou de outra, influenciam o curso da história de uma sociedade.
A questão da identidade linguística na Suíça é enfocada de frente no vídeo de Ingrid Wildi. Filha de pai suíço e mãe chilena, ela nasceu no Chile em 1963, onde viveu até o golpe militar, apoiado pelos Estados Unidos e liderado pelo general Augusto Pinochet, que derrubou o governo de Salvador Allende. A família se mudou pouco depois para o Cantão de Argóvia. Ingrid saltou do espanhol para o dialeto suíço-alemao, com o qual nunca teve intimidade, e dele para o francês, em Genebra.
Natureza e ostentação da igreja
Ela montou um vídeo em que entrevista um imigrante que levanta questões como a fronteira interna emocional e a fronteira física, real, representada pela polícia alfandegária. E tenta responder à pergunta de quanto é forte a sensação de perda e a luta pela preservação de referências, quando se finca raízes em um outro lugar que não o de origem.
A única artista helvética, nascida e criada sem imigrar, é Pipilotti Rist, de Grabs, no vale do Reno. Ela é a suíça mais famosa no mundo internacional das artes. Curiosamente, ela derruba as fronteiras e viaja para o Brasil onde realiza o vídeo exposto na igreja barroca de San Stae, no canal Grande de Veneza. “Homo sapiens sapiens” é o nome do trabalho criado para esta Bienal da qual já foi vencedora na edição de cinco anos atrás.
O filme é uma busca da genesis humana, em um paraíso existente antes do pecado original narrado pela Bíblia. Boa parte das cenas mostram uma natureza selvagem. As imagens projetadas dentro da igreja, em meio à ostentaçao da riqueza eclesiástica, em pleno altar, provocam um forte sentimento de contradição, de ambigüidade, que fazem parte da natureza “civilizada” do homem.
swissinfo, Guilherme Aquino, Veneza.
A 51a Bienal Internacional de Veneza, pela primeira vez nos seus 110 anos de história, tem a curadoria de duas mulheres, as espanholas Maria Curral e Rosa Martinez.
Dos 91 artistas convidados, 31 são mulheres. Nunca este percentual foi tão alto e jamais, nas últimas edições, o número de convidados foi tão reduzido.
A Bienal está dividia em três partes fundamentais: a exposição “Sempre um pouco mais longe”, no Arsenale, “A experiência da Arte”, no pavilhão italiano e as mostras dos pavilhões nacionais, com a presença de 70 países, entre eles a Suíça.
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.