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Suíços criam aventuras em Berlim

O cineasta Sören Senn, com a carteira de identidade suíça, feliz em Berlim. swissinfo.ch

Um cineasta cria histórias berlinenses e uma pintora trocou a certeza parisiense pela instabilidade de Berlim.

O curioso é que ambos são suíços e trocaram a quietude do país alpino para serem mais criativos.

“Cair no trecho”, significa para algumas pessoas por o pé na estrada a fim de descobrir o próprio rumo, o mundo.

A pintora suíça romanda Valérie Favre e o suíço alemão, cineasta Sören Senn sabem bem o que é isso.

Ainda muito jovens migraram da Suíça para se aventurar no exterior. Eles conheceram a metamorfose da Berlim dos anos 90 e afirmam que a dinâmica da capital é pulsante. São unânimes em dizer que as pessoas que vivem nessa cidade são interessantes e essenciais para a inspiração necessária à criação de suas histórias. Além disso, para padrões europeus, Berlim oferece uma boa qualidade de vida a um custo razoável, se comparado aos preços suíços.

Um suíço em Berlim

Apesar de terem nascido na Suíça e viverem na mesma cidade, Sören e Valérie têm trajetórias profissionais diferentes. O cineasta, mais jovem, mudou-se para Berlim em 1991, aos 21 anos. Estudou na Alemanha literatura e religião para depois se dedicar ao cinema, uma ambição que só se concretizou há pouco tempo.

“Um dos meus primeiros apartamentos em Berlim foi ocupado. Na época havia muitos imóveis vazios e as pessoas costumavam morar nos apartamentos até que aparecessem os donos. No meu caso não tive muita sorte, pois somente quatro meses depois da mudança o prédio vizinho pegou fogo e a ocupação foi percebida. Tive que deixar o imóvel”, explica.

Sören também se lembra das intermináveis filas nas cabines telefônicas de Berlim Oriental. “Para ganhar um dinheiro extra transmitia notícias para uma rádio suíça, uma aventura, em plenos anos 90, na Europa, ter que esperar horas para poder fazer uma ligação telefônica, pois quase não havia telefones privados.”

A ironia faz parte do caráter de Sören que sorri ao descrever os primeiros choques culturais na Alemanha. Apesar de vir de um país vizinho que fala o mesmo idioma, sua maneira diplomática de falar, característica dos suíços, impacientava os berlinenses, bem mais diretos em seu modo de lidar com as pessoas. No país dos Alpes Sören sentia-se limitado no modo de desenvolver seus talentos, uma das razões que o levou a emigrar. Ele também critica as preocupações que atingem os suíços. “Às vezes na Suíça, devido ao excesso de perfeição, as pessoas se irritam por problemas que não são reais e isso restringe os horizontes”, completa.

Histórias cinematográficas

Alguns personagens berlinenses foram os atores de seu primeiro documentário de 18 minutos, “Aniversário de Casamento”, onde o cineasta aponta um traço cultural da Alemanha industrializada.

A descrição do aniversário de casamento de uma família do bairro de Berlim Oriental, Lichtenberg. A convite da Audi o chauffeur Uwe, sua esposa Siglinde e o filho Nico viajam para a cidade de Ingolstadt, no sul do país, onde o motorista compra seu primeiro carro novo, diretamente da fábrica.

Sören descreve de maneira sutil esse curioso hábito alemão implantado pela indústria automobilística. Ironia do destino, ou não, dizem as más línguas que os automóveis são um dos maiores concorrentes das mulheres nesse país.

O primeiro longa-metragem feito por Sören chama-se “KussKuss” (Beijo-Beijo). É uma alusão à palavra cuscuz, do árabe kuskus, e recebeu há pouco, em Potsdam, o Prêmio Babelsberg de Mídia 2005 na categoria do melhor filme. O enredo relata a história de uma migrante ilegal argelina em Berlim e as conseqüências de sua entrada no cotidiano de um feliz casal alemão transformando sua regrada vida em um triângulo amoroso curioso.

Atriz e pintora

Valérie deixou a casa de seus pais aos 18 anos e foi morar em Paris, onde até os 23 anos trabalhou como atriz comediante, bem sucedida, e conta:

“A pintura sempre esteve presente na minha vida, desde a infância. Venho de uma família bastante conservadora e quando era criança meus pais queriam que eu aprendesse piano. Como não gostava de tocar eles permitiram que eu também pintasse. O período de atriz foi um parêntesis na minha carreira, que até hoje influencia na criação dos personagens das minhas pinturas e na disposição do espaço na tela.”

Apesar de ter tido sucesso como atriz, a pintora não se sentia satisfeita e, aos poucos, foi se afastando do meio teatral para ingressar na carreira de artista plástica. Muitos não compreendiam como ela poderia deixar uma profissão bem sucedida para se aventurar em um meio para o qual não tinha experiência nem formação.

Entretanto, para a surpresa de muitos, a autodidata logo entrou no mercado e, com o mesmo sucesso da vida de atriz. Em 1997, ao visitar Berlim a pintora sentiu-se imediatamente atraída pela cidade, apesar de não saber falar uma palavra em alemão. Um ano mais tarde aí estava, estabelecida numa cidade que mal conhecia.

“Em Berlim eu sentia muita tranqüilidade e tinha mais tempo para criar. Em Paris estava sempre rodeada de telefonemas e convites que às vezes roubavam tempo eu poderia estar dedicando ao trabalho. É bem verdade que a solidão às vezes incomodava, mas rapidamente eu fui me integrando na cidade e, aos poucos, também pude me estabelecer aqui”, completa.

Universo fantástico

Em seu ateliê, no alto de um prédio em Prenslauerberg, um bairro habitado por artistas e pessoas relacionadas ao mundo das artes assim como da política, há muitos quadros que ela pinta simultaneamente.

Alguns deles são como histórias surrealistas complexas. Quando fala da Suíça, a artista diz que parece “um país perfeito que me faz lembrar os contos de fada, uma fábula, onde eu poderia voltar a viver somente se tivesse muito dinheiro.” Segundo a pintora, idéias não lhe faltam.

Em suas obras Valérie cria universos e personagens. Um deles é o Universo do Coelho Ágil (Lapin Univers/Agile), que está sempre em ação em um mundo fantástico que representa uma reflexão da complexa realidade vivida pelo mundo contemporâneo. A sua criação acontece em um universo livre, distante da indicação de caminhos e certezas.

swissinfo, Gleice Mere, Berlim

A pintora e atriz suíça romanda Valérie Favre e o cineasta suíço alemão, Sören Senn dizem que Berlim é mais dinâmica, tem pessoas interessantes e o ambiente é mais propício para a criação do que na Suíça.

Alguns personagens berlinenses foram os atores de seu primeiro documentário de Sören Senn – “Aniversário de Casamento” – onde o cineasta aponta um traço cultural da Alemanha industrializada.

Seu primeiro longa-metragem – “KussKuss” (Beijo-Beijo) – é uma alusão à palavra cuscuz, do árabe kuskus, e recebeu há pouco, em Potsdam, o Prêmio Babelsberg de Mídia 2005 na categoria do melhor filme.

Depois de ter trabalhado como atriz, em Paris, Valérie Fabre dedica-se à pintura. Alguns quadros são como histórias surrealistas complexas. Quando fala da Suíça, vê “um país perfeito que me faz lembrar os contos de fada, uma fábula, onde eu poderia voltar a viver somente se tivesse muito dinheiro.”

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