Traços biográficos de Antonio Meneses
Com dez anos Antonio Meneses começa a aprender o violoncelo, com dezesseis vai estudar na Europa. E com vinte e quatro vence o concurso mais importante para o instrumento.
Começa então uma carreira ainda em plena expansão.
O violoncelo foi uma imposição do pai ao garoto de 10 anos, natural de Recife, onde nasceu em 1957 (mas foi criado desde um ano de idade no Rio de Janeiro para onde a família se mudou).
É pura invenção que o menino tenha começado pelo violino: “Eu apenas brincava com o violino de meu irmão, imitando o que ele fazia”.
Mas é verdade que desde criança estava em contato constante com a música: seu pai tocava trompa na Orquestra Municipal do Rio de Janeiro. Queria que os filhos aprendessem instrumentos de corda, porque ofereciam no Brasil melhores perspectivas de carreira. O piano também foi excluído “porque havia pianistas demais”.
Para Antonio Jerônimo de Meneses Neto, o instrumento foi inicialmente uma obrigação. Mas quando recebeu seu primeiro violoncelo o pai já lhe havia ensinado a ler e escrever música. O prazer veio pouco tempo depois, “quando começou a tirar umas musiquinhas”.
Meneses lembra que o violino, o violoncelo são instrumentos difíceis: precisa-se dominar o arco, a afinação. Por isso mesmo “no começo não é muito prazeroso”. Só quando se consegue dominar as primeiras dificuldades é que “as coisas se tornam interessantes e bonitas”.
Profissional com 15 anos
Superada essa etapa ele começou a “sentir paixão pela música”. Paixão que parece intacta.
Assim, com quinze anos, Meneses já era músico profissional da Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro. Na época “levava um dia-a-dia interessante”: As 9, 9:30 h da manhã ensaiava na orquestra de 3 a 3 horas e meia. Depois de comer ia direto para a escola. “Foram dois anos assim”, lembra o artista.
No segundo ano dessa vida de orquestra e estudos, vai haver uma virada importante na sua carreira, por influência do grande violoncelista Antonio Janigro em turnê no Brasil.
Janigro estava no Rio para ser solista da Orquestra Sinfônica, os colegas de Meneses insistiram para que tocasse para o mestre ouvir. “Janigro gostou muito e achou que eu tinha talento”, recorda-se o músico.
Conservatório na Alemanha
Estimulado pela sua professora (Nídia Otero, que achava que “ele não devia perder tempo”) abandonou o científico e no ano seguinte, em 1974, com 16 anos, Antonio Meneses estava em Düsseldorf, na Alemanha, para seguir os cursos do mestre violoncelista italiano.
“Janigro foi muito importante, diz Meneses. Devo muito a ele no começo de minha carreira: era ótimo maestro, tinha uma orquestra, e me lembro que ele me convidava muitas vezes para ser violoncelista spalla da orquestra, e me convidava como solista”.
Permitindo-lhe aparecer como solista, criou possibilidade de ganhar um pouco de dinheiro com seu instrumento, aliviando as despesas da família porque não tinha bolsa de estudos.
Viveu também em parte do dinheiro que economizara tocando na Orquestra Sinfônica do Rio de Janeiro. “Esses concertos me ajudaram a sobreviver durante os primeiros anos”.
Janigro também serviu de intermediário, apresentando-o a empresários o que lhe permitia demonstrar seu talento em outros lugares.
Depois desse começo um tanto difícil, o primeiro prêmio, em 1977, no concurso promovido pela televisão alemã (ARD) veio facilitar muito sua carreira. Mas o artista estourou mesmo depois que ganhou a medalha de ouro no prestigioso Tchaikovsky, em 1982.
Na época, antes de queda da “cortina de ferro” o concurso Tchaikovsky era o mais importante para violoncelo. “Depois concursos como este caíram de moda, e de prestígio”.
Resta que com 24 anos de idade Meneses recebeu convites cobiçados como tocar com a Filarmônica de Berlim e a Sinfônica de Londres, regidas, respectivamente, por Herbert von Karajan e Cláudio Abbado e muitos outros maestros famosos. “Então – diz o artista – isso realmente me ajudou bastante”.
Depois de ganhar esses concursos, Antonio Meneses começou uma intensa carreira de solista que só diminuiu de intensidade nos últimos anos. O violoncelista, que desde 1998 integra o renomado Beaux Arts Trio, consegue combinar melhor a vida de solista com a de camerista. E, antes de mais nada, parece buscar a qualidade do que a quantidade (veja primeira parte da reportagem).
Os membros do trio vivem em pontos diferentes do mundo. O pianista, Menahem Pressler, em Bloomington (Indiana), o violinista Daniel Hoper, em Amsterdã e Antonio Meneses em Basiléia na Suíça. Quando se encontram é para uma turnê de 10 a 15 concertos.
Antonio Meneses ainda acha tempo para tocar com orquestras, fazer recitais, ir ao Brasil umas 3 vezes por ano, dar cursos de virtuosidade, e gravar (ver as obras gravadas no site do artista).
A última gravação de que é muito cioso são as 6 suites de Bach para violoncelo solo. Saíram agora em outubro de 2004. Gravação que considera “uma síntese do que tem feito”.
Essas suítes figuram entre as obras marcantes para violoncelo. Entre as outras peças relevantes para o instrumento Meneses destaca as Sonatas de Beethoven para violoncelo e piano e o Concerto de Dvorak, “uma obra de uma beleza, paixão e intensidade incrível”.
No século XX, destaca também os concertos de Chostakovitch, Witold Lutoslawski, Henri Dutilleux, “todas escritas para Rostropovitch, o grande incentivador para os compositores”.
Convidado a falar de seus projetos, Antonio Meneses menciona a intenção de gravar as sonatas de Beethoven, com o Menahen Pressler – obras que já tocou várias vezes no Brasil – e também os trios do mesmo compositor, com seus colegas do Beaux Arts, e ainda de gravar concertos brasileiros com a OSESP (Orquestra sinfonia do Estado de São Paulo), dirigida por John Neschling.
Só a gravação dos trios de Beethoven é um projeto de três anos.
Meneses menciona por fim que na sua agenda figuram além de recitais e concertos, a música brasileira, “música nova, escrita para mim por compositores brasileiros”.
swissinfo, J.Gabriel Barbosa
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