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Uma história de encontros

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Eduardo Botelho tem certeza que é músico porque encontrou outros músicos que o formaram. Ele acredita também que tem a missão de divulgar a boa música brasileira.

Na Suíça há quinze anos, o músico diz que encontrou condições para desenvolver seu trabalho.

Por onde passa na cidadezinha de Yvonand, às margens do Lago de Neuchâtel, Eduardo Botelho é saudado com simpatia por cada um dos dois mil habitantes. Todos o conhecem pelo nome e sabem que ele é músico, compositor e pai de família.

“Essa tranqüilidade é muito boa mas às vezes sinto falta do burburinho de São Paulo”, conta o músico paulistano que está há quinze anos na Suíça e já compôs até para a fanfarra de Yvonand.

O exemplo de casa

Claro que Eduardo não seria músico sem seu próprio esforço mas toda a sua formação foi feita através do encontro com outros músicos. Seu pai tinha um restaurante em São Paulo onde havia música ao vivo.

“Eu era menino e o Wilson sanfoneiro vinha em casa uma vez por semana dar aulas para a minha irmã. Uma outra irmã estudava piano e eu ganhei um violão do meu pai quando tinha 8 anos”, relembra Botelho.

Nos primeiros anos ele tocava de ouvido, por imitação do que via na tv e nas revistinhas de música cifrada que comprava nas bancas. Até que foi estudar, aos domingos, com Francisco Araújo.

“Ele era muito exigente, só tocava choro e não dava nada fácil para os alunos. Levei anos para tocar direito os temas dele mas aprendi muita leitura”, explica o violonista.

Futebol e música

O segundo professor de Eduardo foi o violonista João Bossa Nova, músico da noite paulistana que se apresentava de terno, gravata e brilhantina e tinha verdadeira paixão por João Gilberto e Tom Jobim.

“A primeira coisa que ele perguntava era se o aluno jogava futebol. Se não jogava ele mandava procurar outro professor. Eu jogava e fiquei”, diverte-se. Segundo Botelho, o professor dizia que existia no futebol uma criatividade e capacidade de improvização úteis para a Música.

“Durante as aulas ele me fazia tocar no banheiro do mínúsculo apartamento onde morava porque a acústica era melhor! Mas ele escrevia muito bem e foi com ele que tive as primeiras noções de harmonia. O bom professor é quando a gente não esquece o que ele ensinou. Até hoje toco temas e harmonias do João Bossa Nova”.

Piano para leigos

Outro encontro importante para o violonista foi com o pianista Charles Franz que havia criado um tratado de harmonia para piano, sem solfejo.

“Ele era meu vizinho e um dia me convidou para ir lá ver as aulas. Era incrível como o método dele funcionava. Os alunos não sabiam nada de música e tocavam no primeiro dia! Eram donas de casa, médicos, advogados, todos leigos, que queriam tocar por prazer. Comecei a participar das aulas e aprendi bastante de harmonia”.

“Ele era um músico genial e dava concertos sem programa. Entrava, sentava ao piano e perguntava para o público o que queria ouvir. Ficava lá duas horas assim, tocando tudo de cor, de Litz a Jobim”, lembra Eduardo.

A grande abertura

Foi na casa de Charles Franz que Botelho encontrou Carioca, outro músico importante para a sua carreira. “Já tocava na noite e ganhava um dinheirinho mas me faltava alguma coisa”, relembra.

“Ele havia tocado e produzido um disco de Egberto Gismonti e me deu a abertura para a música instrumental. Ele tem uma cultura musical fabulosa e trabalhávamos bastante ritmo e harmonia. Ele me incentivava muito e, com essa convivência, comecei a compor. Quando ele saiu do Brasil me senti meio órfão”.

Foi justamente através de Carioca que Eduardo Botelho teve seu primeiro contato com a Suíça, em 1989, quando veio de férias para tocar com Carioca no castelo de Wattwil, região leste.

Missão

“Quando voltei para São Paulo, achei que estava na hora de pegar meu violão e cair na estrada. Foi assim que desembarquei em Berna, em 1990, e estou na Suíça até hoje. Achei que as pessoas aqui eram muito receptivas à música e que poderia viver do meu trabalho, o que era essencial para mim”, conta Botelho.

Ele já deu concertos em toda a Suíça mas prefere o público da parte alemã, que considera mais atento e receptivo. Fez curso de arranjo para metais em Genebra, dirige o grupo feminino de percussão “Colibri” – depois de cinco anos de aulas com as meninas – e dá aulas de iniciação musical nas escolas para crianças a partir de 7 anos.

“Considero que tenho a missão de formar o público para a boa música instrumental brasileira e divulgar a nossa cultura”, conclui Eduardo Botelho.

swissinfo, Claudinê Gonçalves

Discografia:

– “Vamos seguindo” (Sao-Paolo, 1989)
com:
Mauricio Batloni (sx. fl.)
Armando Tibério (drums)

– “Terra Brazil” (Suisse, 1993)
com:
Claudio Rugo (gt. cv.)
Claudio Minerio (perc.)
Véronique Michoud (voc.)

– Um Batiza” (Suisse, 1995)
com:
Mathieu Michal (tp.)
Harry Kanzig (cb.)
Danilo Moccia (tb.)
Daniel Pezotti (cello)

– Manda-là-do-Brasil” (Suisse, 1999)
com:
Carioca (perc.)
Werner Wültrich (cl.)
Osiaz Gonçalvez (cb.)
Eleonora Esposito (cello)

– Prepara um disco de ritmos brasileiros

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