Violão seria coisa do outro mundo
Esta é a impressão que Joaquim Freire tem da falta de interesse dos brasileiros pelo violão clássico.
Isto no país do mestre Villa-Lobos e do ilustre compositor Marlos Nobre.
Os brasileiros adoram o violão popular, constata Joaquim Freire. Mas mostram-se pouco sensíveis ao violão clássico, não se deixando levar pela música erudita, aliás marcadamente elitista.
“O violão passa a ser outra coisa, mas também já não é violão”, tenta explicar.
Seja como for, a impressão do violonista é que o instrumento não tem o mesmo impacto no Brasil e na Europa, em particular na Suíça, “onde as pessoas gostam”.
Joaquim admite que pode até estar enganado. Outras pessoas poderiam talvez avançar que no Brasil o violão popular seja tão forte que sobre pouco espaço para o violão clássico.
Villa-Lobos e Marlos Nobre
Resta, porém, que Villa-Lobos (1887-1959) – cuja importância para o instrumento é internacionalmente reconhecida – compôs uma música para violão que Joaquim descreve como “muito viva, verdadeira e generosa”.
E com certeza exigente, pois “o compositor carioca procurou chegar quase aos limites do violão”, realça o artista.
Vale lembrar que além do Concerto para Violão e Orquestra – “o mais bonito no repertório de violão” – o mestre carioca compôs para o instrumento os 12 Estudos, os 5 Prelúdios, a Suíte Popular e o Sexteto Místico.
Hoje o Brasil tem em Marlos Nobre, 65 anos, um dos importantes compositores para violão, um dos sucessores de Villa-Lobos.
Grandes mestres
Quando se fala em grandes compositores para violão, Joaquim Freire destaca mestres antigos e modernos, como Fernando Sor (1778-1839), Ferdinando Carulli (1770-1841), Dionísio Aguado (1784-1849), Francisco de Asís Tárrega (1852-1909) que transformou a técnica do instrumento, dando-lhe um caráter novo.
E Emilio Pujol (1886-1980), discípulo de Tárrega, grande violonista, “estabeleceu a técnica moderna do violão”.
A lista é longa, mas Joaquim não se esquece também do florentino Mario Castelnuovo-Tedesco (1895-1968) e alguns latino-americanos, como Manuel Ponce (1882-1948), considerado o maior compositor clássico do México.
Aliás as “Variações sobre Folias de España”, de Ponce, é uma das peças prediletas do músico e professor Freire.
E se não ele deixa igualmente de citar a Sonata do argentino Alberto Ginastera, Joaquim fala ainda com particular admiração de Nocturnal, de Benjamin Britten (1913-1976), obra que o compositor inglês escreveu doze anos antes de morrer.
Nocturnal é uma peça de 20 minutos com variações sobre uma canção de John Dowland, famoso alaudista virtuose, cantor e compositor, do período renascentista.
Essa obra, como observa o violonista, “é completamente atonal e, conseqüentemente muito moderna. Mas vai ganhando tonalidade aos poucos, e, no fim, aparece o tema de John Dowland….”. Ou seja, Britten procede ao revés: não parte do tema como se faz normalmente, mas chega ao tema. “Uma beleza”, extasia-se Joaquim!
swissinfo, J.Gabriel Barbosa
Joaquim Freire e sua esposa tem um selo próprio: o Leman Classics. Além de produzir as próprias interpretações, produzem uma meia dúzia de artistas, entre os quais o brasileiro Marlos Nobre, 65 anos, tido em grande estima.
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