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Acordo comercial dos EUA exige reposicionamento da indústria farmacêutica suíça

Edifícios Roche
Em 2024, a empresa farmacêutica suíça Roche abriu um novo centro de investigação precoce na sua sede em Basileia. Keystone / Georgios Kefalas

Empresas farmacêuticas suíças planejam investimentos expressivos em pesquisa e produção nos Estados Unidos como parte de um acordo para garantir tarifas mais baixas. Mas esse não é o único motivo de preocupação sobre o futuro da indústria farmacêutica suíça.

O setor farmacêutico suíço teve motivos para comemorar na sexta-feira, 14, quando o governo anunciou que estava negociando um acordo com os EUA para diminuir as tarifas aplicadas a produtos suíços de 39% para 15%. O acordo também isenta, por enquanto, os medicamentos da aplicação das tarifas.

A taxa sobre produtos farmacêuticos também será limitada a 15% caso Trump decida impor tarifas a outros setores. Esse valor é bem inferior aos 200% sobre medicamentos de marca que o presidente americano havia ameaçado impor no meio do ano.

Novartis e Roche planejam investimentos nos EUA

O acordo tarifário, que ainda não foi finalizado, foi em grande parte resultado de promessas de investimentos expressivos por parte das gigantes farmacêuticas suíças Roche e Novartis. Juntos, os investimentos somam US$ 73 bilhões (CHF 58 bilhões) ao longo dos próximos cinco anos e visam garantir a produção de todos os medicamentos essenciais em solo americano.

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“São investimentos significativos, não apenas pelo tamanho e relevância para a indústria biofarmacêutica americana, mas também em comparação a quanto as empresas suíças investiram no passado”, afirmou Prashant Yadav, especialista em cadeia de suprimentos de saúde e pesquisador sênior do Conselho de Relações Exteriores dos EUA. “Esses investimentos indicam que, no futuro, os centros de excelência em produção de terapias avançadas estarão nos EUA”.

Ainda não está claro o impacto que esses investimentos terão domesticamente na indústria farmacêutica suíça, afirmou Johannes von Mandach, diretor de pesquisa econômica na consultora Wellershof & Partners, com sede em Zurique. No entanto, eles já estão gerando ansiedadeLink externo na Suíça, alimentando receios de que possam reduzir a atratividade do país enquanto polo farmacêutico e prejudicar o crescimento do setor.

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A indústria farmacêutica suíça é responsável por cerca de metade do crescimento econômico suíço e 60% das exportações para os Estados Unidos. Caso a participação da indústria suíça no mercado americano migre, von Mandach estima que cerca de CHF 3 bilhões em receita tributária estariam em risco.

“É difícil avaliar se os investimentos nos EUA substituirão a produção existente na Suíça ou se o objetivo principal é atender ao crescimento futuro diretamente em solo americano”, escreveu von Mandach em um e-mail. “Mas mesmo a segunda hipótese teria um impacto perceptível na Suíça”.

Cresce a concorrência por investimentos farmacêuticos

O acordo comercial é o golpe mais recente contra a liderança da Suíça no setor farmacêutico, consolidada há décadas. Cerca de 50 mil pessoas estão empregadas diretamente na indústria no país, que tem uma população de 9 milhões de pessoas. Apenas a Roche e a Novartis empregam cerca de 25 mil pessoas na Suíça – aproximadamente 10 a 15% de suas equipes globais.

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A indústria é composta por milhares de pequenas e médias empresas, incluindo startups universitárias, empresas de biotecnologia focadas em pesquisa, fabricantes terceirizados e prestadores de serviços. Muitas farmacêuticas estrangeiras, como a americana Biogen e a japonesa Takeda, têm suas sedes europeias ou internacionais na Suíça.

No entanto, a concorrência por investimentos na indústria farmacêutica está crescendo, particularmente entre os países que veem o setor como fonte de empregos especializados e inovação. A Espanha se tornou um dos principais destinos para novos investimentos farmacêuticos graças a generosos incentivos fiscais para pesquisas, um processo regulatório ágil e um robusto sistema de saúde, escreveu recentemente a BloombergLink externo. Nos últimos anos, AstraZeneca, Sanofi e Roche aumentaram seus investimentos em pesquisa e desenvolvimento no país.

A China também se apresenta como uma fonte importante de inovação e um mercado consumidor em crescimento, com muitas empresas estabelecendo centros de pesquisa locais para aproveitar o setor de biotecnologia do país. Ao longo dos últimos cinco anos, 11 gigantes farmacêuticas destinaram mais US$ 150 bilhões para licenciar novos medicamentos da China, segundo um relatório publicadoLink externo pela Nature.

Não existem dados confiáveis sobre quanto das exportações farmacêuticas é realmente produzido na Suíça e quanto apenas transita pelo país ou é embalado e distribuído a partir dele. Os processos de produção são altamente fragmentados, e muitos produtos intermediários cruzam a fronteira várias vezes durante a fabricação. Como resultado, as estatísticas de comércio exterior podem superestimar a produção e o valor agregado realmente gerados na Suíça, explica Johannes von Mandach, diretor de pesquisa econômica na consultoria Wellershof & Partners, em Zurique.

Cada vez mais governos também desejam fomentar a produção farmacêutica em seu próprio território, em vez de deixar o fornecimento de medicamentos à mercê das cadeias globais de suprimentos. Parte dessa localização também se deve à natureza das terapias de próxima geração, que se beneficiam de uma produção mais próxima aos pacientes.

Esse é o caso especialmente para terapias celulares e gênicas, que são complexas de se produzir e exigem a coleta de amostras de sangue dos pacientes, além de visitas frequentes ao hospital.

Centros farmacêuticos consolidados enfrentam fortes desafios

Ao mesmo tempo, as empresas passaram a ser mais críticas em relação ao ambiente regulatório e aos preços praticados em polos estabelecidos, como Reino Unido, Japão e Suíça.

O Japão é o terceiro maior mercado farmacêutico do mundo, mas vem se tornando cada vez mais negligenciado por laboratórios internacionais devido ao rígido controle de preços, que dificulta o lançamento de novos medicamentos e inibe a inovação.

Em setembro de 2025, a MSD (conhecida como Merck nos EUA) encerrou suas atividades de pesquisa e desenvolvimento no Reino Unido e se retirou de um centro de pesquisa em Londres avaliado em £ 1 bilhão (CHF 1,05 bilhão), citando pressões sobre os preços de medicamentos e a falta de investimento do governo britânico em ciências da vida.

Em um artigo de opinião publicado no Financial Times em abril, os diretores-executivos das Novartis e da Sanofi criticaram a Europa por não valorizar devidamente a inovação, e afirmaram que os controles de preços europeus estavam reduzindo a atratividade do mercado. Líderes da indústria também apoiaram os apelos do presidente americano, Donald Trump, que disse que a Europa deveria aumentar os preços dos medicamentos, alinhando-os aos praticados nos EUA, caso o continente queira continuar sendo líder em biofarmacêutica.

Crescimento farmacêutico estagnado na Suíça

A indústria farmacêutica também voltou suas críticas à Suíça após disputas com as autoridades de saúde nacionais sobre preços dos medicamentos. Por se tratar de um mercado consumidor pequeno, o país tem menos poder de negociação do que um grande gerador de receita como os Estados Unidos.

“Há, portanto, um risco considerável de que a crescente localização da produção nos EUA e em outros países enfraqueça a posição da Suíça como centro farmacêutico”, afirmou Georg Därendinger, porta-voz da associação do setor Interpharma.

Além de fortalecer a pesquisa clínica e garantir acordos bilaterais com a União Europeia, a Suíça precisa urgentemente “modernizar a precificação de medicamentos inovadores e evitar novas medidas de contenção de gastos”.

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Uma mão preparando uma injeção intravenosa

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Entre 2018 e 2023, a saída de CHF 560 bilhões em investimentos estrangeiros da Suíça começou a se refletir, entre outros pontos, no mercado de trabalho da indústria farmacêutica. O ritmo de crescimento, que avançava 2,5% ao ano entre 2011 e 2020, zerou entre 2020 e 2022, de acordo com a Interpharma, principal associação do setor, sediada na Basileia.

Estabilidade e ecossistema suíços são vantagens

Especialistas consultados pela Swissinfo afirmam que o panorama não é totalmente pessimista para a Suíça. O acordo comercial, por enquanto, mantém as tarifas sob controle. Tarifas elevadas sobre produtos farmacêuticos suíços teriam causado um grande impacto na indústria doméstica.

A Suíça continuará “produzindo para os mercados europeus, bem como para os mercados globais fora dos EUA”, afirmou Christof Klöpper, diretor-executivo da Basel Area Business & Innovation. “Os investimentos nos EUA não competem com a Suíça; ao contrário, representam investimentos adicionais importantes de nossas grandes empresas de ciências da vida”.

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O país também está em uma melhor posição para enfrentar mudanças do que alguns outros, graças à sua sólida base em pesquisa e desenvolvimento, afirma Yadav. Isso contrasta, por exemplo, com a Irlanda, que se tornou um polo global de produção farmacêutica na década de 1950, mas possui pouca atividade de pesquisa e desenvolvimento.

Isso se torna cada vez mais relevante à medida que “novos tratamentos, como terapias celulares e gênicas, borram as fronteiras entre pesquisa e desenvolvimento e produção comercial”. Essas terapias frequentemente exigem profissionais altamente qualificados e conhecimento científico especializado, além de padrões rigorosos de qualidade para sua produção e distribuição – algo que a Suíça faz muito bem.

Empresas como a Novartis mantêm centenas de parcerias locais com hospitais e universidades para a realização de pesquisas iniciais e testes clínicos. A Roche acabou de inaugurar um centro de pesquisa inicial no valor de CHF 1,2 bilhão, parte dos cerca de CHF 5,8 bilhões que a empresa investiu em sua sede desde 2009.

A Suíça também oferece outras vantagens, como salários elevados, baixa tributação, alta qualidade de vida e políticas estáveis, que ajudam a atrair talentos. Recentemente, várias empresas chinesas – incluindo a Hengrui, Luye Pharma e BeOne Medicines (antiga BeiGene) – instalaram centros de pesquisa e desenvolvimento ou sedes europeias no país.

“Polos do setor surgem onde há profissionais especializados, infraestrutura adequada e know-how acumulado ao longo de muitos anos”, afirmou von Mandach. “Isso torna um país como a Suíça amplamente estável e reduz significativamente a probabilidade de uma migração rápida dessas atividades”.

Edição:Veronica DeVore/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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