Suíços rejeitam mudança no sistema de saúde
No final de semana, os eleitores suíços votaram claramente contra uma proposta da esquerda de criar uma caixa única e pública para financiar o sistema de saúde.
Nesta segunda-feira, a imprensa suíça considera que o resultado é uma lição para a esquerda mas destaca que o voto não representa um plebiscito do sistema atual. Os editorialistas afirmam ainda que é necessário encontrar soluções para conter a alta constante dos custos da saúde.
O editorialistas na imprensa suíça fazem um balanço unânime do voto de domingo. A rejeição da proposta de uma seguradora única e pública para o sistema de saúde era esperada e não foi uma surpresa.
O surpreendente, no entanto, foi o grau de rejeição. A proposta foi aprovada em apenas dois dos 26 cantões suíços: Neuchâtel e Jura. Os jornais consideram que foi uma verdadeira lição para a esquerda, que defendia o projeto.
Para o Tages Anzeiger de Zurique, “o resultado deve provocar uma reflexão no Partido Socialista em um ano eleitoral como este. Suas propostas não são apreciadas pelos cidadãos, sobretudo na Suíça-alemã”, afirma o jornal.
O Neue Zürcher Zeitung, também de Zurique, afirma que os cidadãos, “pela terceira vez, disseram um não muito claro às propostas socialistas de reforma dos seguros”.
O La Regione do Ticino (sul da Suíça e de língua italiana), lembra as condições em que transcorreu a campanha “objetivamente desequilibrada em que o autores da iniciativa popular não puderam rivalizar com a força financeira das seguradoras”.
Vigora na Suíça um sistema misto em que os Cantões arcam com a estrutura e o pessoal hospitalar mas as pessoas são obrigadas por lei a contratar uma das muitas seguradoras privadas.
Um projeto confuso
Os editorialistas são unânimes ao explicarem as razões da derrota da esquerda. O projeto era, segundo a imprensa, muito confuso para convencer a maioria dos eleitores. “A derrota, que também é dos Verdes, era previsível. A iniciativa não respondia às principais questões”, afirma o Basler Zeitung, de Bailéia.
“Quase ninguém mais acreditava que bastaria cobrar mais das grandes fortunas ou dos altos executivos para reduzir os prêmios dos seguros. As simulações de financiamento da caixa única eram totalmente virtuais e não inspiravam confiança”, afirma o diário La Liberté, de Friburgo.
Para os analistas, o financiamento claro era o nó do problema na proposta votada. O Blick, de Zurique, afirma que o resultado da votação poderia ter sido diferente se os autores da iniciativa tivessem colocado simplesmemente a pergunta: “87 caixas ou só uma?”.
Tudo resta por fazer
No entanto, a derrota da esquerda não é um cheque em branco para a direita. “Esse resultado não autoriza um liberalismo total. Durante a campanha, em que o clima foi detestável, a população manifestou um certo mal-estar com as seguradoras”, escreve o Le Matin, de Lausanne.
A derrota da esquerda demonstra que os suíços não querem uma revolução do sistema de saúde. Essa constatação também vale para a direita.
“Ao recusar um salto no escuro, os suíços reiteraram sua desconfiança frente a mudanças radicais. Pode-se duvidar, contudo, que aceitem renunciar à livre escolha do médico como querem as seguradoras”, averte o Le Temps, de Genebra.
De qualquer maneira, o problema continua o mesmo. Como conter a alta dos custos da saúde e, conseqüentemente, a dos prêmios dos seguros? Para os editorialistas, será preciso agora evitar idéias simples para resolver o problema.
swissinfo, Olivier Pauchard
A iniciativa foi recusada por 71,2% dos eleitores.
Somente dois dos 26 cantões (Neuchâtel e Jura) votaram a favor da caixa única.
A participação foi de 45,5% (o voto não é obrigatório na Suíça)
A iniciativa popular “por uma caixa de saúde única e social” foi lançada pelo Movimento Popular das Famílias, em 2004.
Ela previa que o seguro obrigatório básico de saúde ficaria a cargo de uma caixa nacional única, com prêmios fixados conforme a renda e a fortuna dos segurados.
O Partido Socialista e os Verdes apoiavam a iniciativa. O governo federal a a maioria do Parlamento eram contra.
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