The Swiss voice in the world since 1935

Construir marcas globais de alimentos segue difícil, diz executiva

Monika Friedli-Walser
A presidente e delegada do Conselho de Administração da ORIOR, Monika Friedli-Walser, possui um mestrado em Comunicação Técnica e Retórica pela Universidade de Michigan, nos EUA. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

À frente do fabricante suíço Orior desde 2025, Monika Walser afirma que a companhia pretende crescer por meio de aquisições e inovação, mas reconhece que transformar marcas alimentícias locais em referências globais continua sendo um dos maiores desafios do setor.

A OriorLink externo pode não ser um nome muito conhecido, mas as 12 marcas desse grupo internacional suíço do setor de alimentos e bebidas abrangem diversos produtos e segmentos de mercado.

Entre seus produtos estão Bündnerfleisch (carne bovina curada do cantão dos Grisões), sucos de vegetais, produtos à base de carne de frango e limonadas orgânicas, vendidos principalmente por supermercados e outras redes varejistas de alimentos na Suíça e em outros países da Europa.

O ano de 2024 foi desafiador para o grupo sediado em Zurique. A empresa, com ações negociadas na bolsa de valores da Suíça, “gastou acima do previsto” e sua dívida líquida chegou a 181,4 milhões de francos suíços, afetando o EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), que ficou em 22,5 milhões de francos suíços. Em 2023, seu EBITDA havia sido de 59,2 milhões de francos suíços. As vendas permaneceram estáveis em 2024, totalizando 642,1 milhões de francos suíços.

Um ano mais tarde, em 2025, a Orior registrou vendas de 623 milhões de francos suíços – uma queda de 3% em relação ao ano anterior –, juntamente com um aumento significativo do EBITDA, que cresceu 91% quando comparado a 2024.

Em entrevista exclusiva à Swissinfo na sede da Orior, Monika Walser, presidente do conselho administrativo e delegada do conselho (diretora-executiva do grupo) desde maio de 2025, foi indicada para conduzir o processo de mudança. Walser afirma que a Orior se encontra agora em uma posição sólida para prosseguir com sua expansão.

Swissinfo: Desde que você assumiu a direção da Orior, em maio de 2025, quais têm sido seus principais desafios? E quais são suas ambições para o futuro da Orior?

Monika Walser: Em termos de desafios, tivemos gastos excessivos em 2024. Por isso, em 2025, foi necessário normalizar nosso fluxo de caixa e nosso EBITDA, retomando o crescimento e lidando com níveis elevados de dívida líquida.

Isso exigiu uma correção da nossa direção estratégica, sobretudo evitando projetos excessivamente grandes e onerosos. Como consequência, em 2025, nossa dívida líquida sofreu uma redução de 29,1 milhões de francos suíços, indo para 152,3 milhões. E nosso EBITDA atingiu 43 milhões de francos suíços, ou seja, um aumento de 91% se comparado ao ano anterior.

Olhando para o futuro, temos grandes ambições. Nos próximos cinco a dez anos, queremos que a Orior não apenas cresça significativamente em dimensão, mas também fortaleça sua posição no segmento dos alimentos de excelência.

Swissinfo: Você passou por setores muito diferentes na sua carreira – telecomunicações, redes de energia, fabricação de malas, móveis e, agora, indústria alimentícia. Quais são as vantagens e as desvantagens de uma trajetória profissional tão diversificada?

M.W.: É verdade que já trabalhei em diversos setores, mas sempre desempenhei essencialmente a mesma função: fazer empresas crescerem ou conduzi-las em seus processos de recuperação. Na minha opinião, é importante que os líderes entendam se preferem administrar a continuidade ou liderar processos de reestruturação. Ambos os perfis são necessários, mas eu me identifico claramente com o segundo. Por isso, quando uma empresa já está estabilizada, não sou mais necessariamente a líder certa para a próxima fase.

Quando uma empresa se estabiliza, já não sou necessariamente o líder mais adequado para a fase seguinte.
«Quando uma empresa se estabiliza, já não sou necessariamente o líder mais adequado para a fase seguinte». Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Na maioria das empresas com ações negociadas na bolsa suíça, as funções de presidente do conselho administrativo e direção-executiva (delegado do conselho administrativo) são separadas. Quais são as vantagens e desvantagens de assumir ambas as funções?

Monika Walser.: Não era minha intenção assumir as duas funções; isso se tornou necessário, porque tanto o presidente do conselho quanto o diretor-executivo do grupo deixaram seus cargos. Como em qualquer estrutura, há vantagens e desvantagens. A principal vantagem de combinar ambas as funções é a celeridade: as decisões podem ser tomadas e implementadas mais rapidamente. Ao mesmo tempo, continua sendo essencial explicar e justificar as decisões perante o conselho. Isso é mais fácil quando a pessoa em questão está intimamente envolvida nas operações e entende os principais processos de negócios. No caso da Orior, acredito que essa função dupla tenha sido adequada para uma fase de transição que exigia ações rápidas.

Swissinfo: A Orior conta com aproximadamente 2500 funcionários, enquanto a de Sede AG, que você liderou até 2024, tem aproximadamente 100. A gestão de uma organização maior é fundamentalmente diferente?

M.W.: Apesar da diferença de tamanho, a natureza da função de liderança é bastante semelhante. Em última análise, o número de subordinados diretos permanece comparável. Na Orior, trata-se principalmente dos diretores-executivos das subsidiárias.

gráfico
Kai Reusser, Swissinfo

Swissinfo: O crescimento da Orior tem sido principalmente impulsionado por aquisições na Suíça e em outros países da Europa. Hoje, o grupo reúne 12 subsidiárias e marcas. Qual é a lógica estratégica por trás dessa expansão?

M.W.: A Orior foi estruturada de maneira muito inteligente em torno de três segmentos: produtos premium, conveniência e mercados internacionais. Como o desempenho varia entre esses segmentos, essa diversificação torna o grupo altamente resiliente a diversos desafios externos.

Swissinfo: Qual é a importância das sinergias entre as subsidiárias?

M.W.: Incentivamos uma colaboração sólida e o apoio mútuo entre as subsidiárias, não apenas no nível da direção-executiva, mas também entre equipes de vendas, especialistas em marketing e profissionais de produção e inovação. Ao mesmo tempo, é essencial que cada diretor-executivo e equipe executiva mantenha total responsabilidade empreendedora, incluindo a responsabilidade total por lucros e perdas.

Mantemos um número limitado de serviços compartilhados – como finanças, jurídico e relações com investidores – em nossa sede em Zurique, que é propositalmente enxuta, com cerca de 15 funcionários. Dada a diversidade de nossos produtos e ingredientes, instalações de produção compartilhadas não seriam adequadas. Por fim, nossa linha de produtos não nos confere acesso privilegiado a espaços de varejo, já que atuamos em múltiplas categorias de produtos.

Swissinfo: A sede da empresa onde você trabalha é pequena. Qual a importância de ter sua sede na Suíça?

M.W.: O que realmente importa para nós é a localização das nossas unidades de produção. O salame, por exemplo, é produzido no Ticino, onde podemos aproveitar a identidade italiana e o know-how da região.

Perfil de Monika Friedli-Walser
«O nosso objetivo é crescer de forma orientada, tirando partido dos nossos pontos fortes no setor dos alimentos funcionais e de alta qualidade». Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Vocês pretendem realizar novas aquisições e/ou simplificar ainda mais a estrutura do grupo?

M.W.: Nosso objetivo é crescer de forma focada, aproveitando nossos pontos fortes no segmento de alimentos funcionais e de alta qualidade. Temos interesse especial por produtos de nicho, nos quais podemos nos diferenciar por meio da inovação e da agilidade. O crescimento pode ocorrer tanto organicamente quanto por meio de aquisições, na Suíça e no exterior. Concluímos recentemente, por exemplo, a aquisição da Pastificio Gaetarelli, fabricante italiana de massas. Ao mesmo tempo, após uma análise cuidadosa, decidimos não vender a Culinor, empresa belga especializada em refeições frescas e componentes de refeições de alta qualidade.

Swissinfo: Muitas marcas da Orior são líderes nos mercados regionais ou nacionais e não marcas pan-europeias. Vocês pretendem internacionalizá-las mais?

M.W.: Algumas das nossas marcas já têm presença internacional. Nossos sucos de vegetais de alta qualidade da marca Gesa, produzidos na Alemanha, são exportados para vários países, por exemplo. No entanto, o setor alimentício é, por natureza, local, e construir marcas internacionais é um desafio. Diferenças na regulamentação, nos gostos dos consumidores e no prazo de validade desempenham um papel importante.

Entrevista com Monika Friedli-Walser
«Cada categoria de produtos tem os seus próprios desafios e oportunidades específicos». Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Muitos produtos Orior enquadram-se nos critérios do selo “Swissness”, que permitiria usar a bandeira suíça para sua comercialização. Muitas vezes vocês optam por não fazer isso. Por quê?

M.W.: Utilizamos a bandeira suíça em determinados produtos, como nos nossos sucos Biotta. Em outros casos, porém, isso pode não agregar valor, pois a origem suíça já é evidente. Há também casos, em que a proporção de ingredientes importados pode ser alta demais para atender aos critérios exigidos para receber o selo “Swissness”.

Swissinfo: As marcas das suas subsidiárias são fortes, mas você considera importante fortalecer a marca corporativa Orior, a exemplo do que fez a Nestlé?

M.W.: Em nosso modelo, as marcas das subsidiárias são fundamentais, pois são elas que interagem com os clientes. A marca corporativa Orior desempenha um papel muito limitado. Embora possa ajudar a atrair talentos, a maioria dos funcionários é recrutada nas subsidiárias e não na sede.

Swissinfo: Apenas cerca de 30% das vendas da Orior são geradas fora da Suíça. Quais são os principais desafios dos mercados internacionais?

M.W.: No lugar de exportar a partir da Suíça, normalmente produzimos in loco para cada mercado. Cada categoria de produto apresenta suas próprias oportunidades e seus próprios desafios específicos, tornando difícil generalizar.

Swissinfo: A Orior está listada na SIX Swiss Exchange [a principal bolsa de valores da Suíça]. Em junho de 2026, o preço de suas ações estava em torno de 13,5 francos suíços, com um índice preço/lucro (P/L) abaixo de 10. Algumas empresas comparáveis do mesmo setor apresentam um índice P/L de 18. Você acha que a Orior está sendo avaliada de forma justa pelos investidores?

M.W.: Minha responsabilidade é servir aos acionistas que nos confiaram seu capital. A melhor maneira de fazer isso é focar no desempenho da empresa em longo prazo e implementar uma estratégia sólida, em vez de nos concentrarmos exclusivamente nos resultados de curto prazo. Embora o preço de nossas ações não esteja, no momento, no nível que gostaríamos, estou confiante de que o cumprimento consistente de nossos compromissos acabará sendo reconhecido pelo mercado.

Swissinfo: O capital da Orior é amplamente distribuído entre diversos acionistas, entre estes um majoritário. Como vocês garantem o tratamento igualitário de todos os acionistas?

M.W.: Temos a obrigação legal de fornecer as mesmas informações a todos os acionistas, independentemente de sua participação. Além das encontros com grandes investidores, também estamos à disposição para dialogar individualmente com os acionistas de menor porte.

Edição: Virginie Mangin/ds

Adaptação: Soraia Vilela

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR