Suíça costuma pagar mais do que outros países pelos jatos militares

Um caça FA-18 da Força Aérea Suíça decolando no Aeroporto Militar de Payerne. Keystone / Christian Brun

A Suíça está acostumada a pagar preços mais elevados pelas aeronaves que compra para sua força aérea. O país desembolsou quase o mesmo que a Finlândia por caças F/A-18, mas recebeu em troca apenas a metade no número de aeronaves. As comparações internacionais têm, entretanto, seus limites, já que o conteúdo exato dos contratos é quase sempre desconhecido.

Este conteúdo foi publicado em 14. setembro 2020 - 10:00

Em 27 de setembro de 2020, os eleitores suíços decidirão sobre a compra de novos jatos de caça. O governo destinou um máximo de seis bilhões de francos suíços para este fim. Neste artigo explicamos exatamente o que está em jogo.

A frota suíça de caças é "superdimensionada"? Os custos de sua renovação são um "luxo"? swissinfo.ch analisou de perto o tamanho da frota, os projetos de substituição de aviões de caça e seus orçamentos em outros países.

A Suíça dispõe de aviões de combate suficientes?

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De acordo com o Relatório das forças aéreas no mundo 2020, a Suíça tem 46 aviões de caça na ativa. Isto a coloca no 43º lugar no mundo inteiro. Se você contar apenas os 30 F/A-18s, ela cai para o 51º lugar haja vista que, segundo o as Forças Armadas, os F-5 Tiger só são usados para "liberar os F/A-18s de tarefas secundárias".

Entretanto, se for levado em conta o tamanho do espaço aéreo suíço, a Suíça é um dos países com mais aeronaves em relação ao seu território. A Suíça ultrapassa, por exemplo, a Áustria, a Suécia e a Finlândia; países europeus que, como a Suíça, são neutros e parceiros na OTAN sem serem membros.

Para opositores um excesso, para partidários uma necessidade

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Essa frota seria excessiva? A interpretação dos números depende de quem os analisa. "A Força Aérea Suíça em sua constituição atual é completamente superdimensionada pelos padrões internacionais", escreve o Partido Socialdemocrata (SP) em seu posicionamento sobre a questão. O partido de esquerda é a favor de se manter ainda os F/A-18 em serviço por mais tempo.

"A Suíça precisa de entre oito e doze aeronaves leves para a polícia aérea, mas não mais", diz Lewin Lempert, secretário político do grupo Por uma Suíça sem Exército (GSoA). Este movimento antimilitarista deu início ao referendo contra a compra.

É "enganoso" dizer que a Suíça tem muitos aviões, diz Alexandre Vautravers, coordenador do mestrado em segurança da Universidade de Genebra. Os antimilitaristas "carecem de informações sobre as realidades estratégicas", disse o especialista militar à swissinfo.ch.

Um dos argumentos apresentados pela esquerda é que os estados que não possuem aviões de combate garantiriam a segurança de seu espaço aéreo com aviões de vigilância e helicópteros mais baratos. Este é o caso da Irlanda e da Macedônia do Norte, por exemplo. Ou que a OTAN assumiria a segurança de seu espaço aéreo como no caso dos três estados bálticos e da Islândia, por exemplo.

Vautravers retorque que esses países não teriam aviões de caça, principalmente por não terem os fundos necessários, e que recorrer a uma missão da OTAN para garantir a segurança aérea está "longe de ser grátis", pois requer um quid pro quo. Por exemplo, esses países teriam que "enviar soldados para onde quer que seja, se necessário".

A Suíça paga mais por seus aviões de combate?

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Pela compra de seus 34 F/A-18, a Suíça pagou "pouco mais de 4,1 bilhões de francos suíços, ajustados à inflação", diz Jacqueline Stampfli, a porta-voz da Armasuisse, a agência federal responsável por gastos com armamentos. Armasuisse estima que os custos operacionais sejam o dobro do preço de compra. Pode-se deduzir que a frota terá custado pelo menos 12 bilhões ao longo de seus 30 anos de vida útil.

Na Finlândia, a decisão de comprar 64 aviões de caça F/A-18 foi tomada em 1992. Este foi o único dos cinco países europeus contatados pela swissinfo.ch que se dispôs a fornecer informações. Segundo o coronel Juha-Pekka Keränen, diretor do programa de substituição da frota da Força Aérea finlandesa, o custo foi de cerca de 3,1 bilhões de euros.

Duas atualizações haviam sido feitas por aproximadamente um bilhão de euros. Além disso, há custos operacionais e de manutenção "inferiores a 200 milhões de euros por ano", acrescentou ele. Isto significa que a Finlândia pagou quase o mesmo preço que a Suíça, mas recebeu em troca o dobro das aeronaves.

Várias compras mais baratas no exterior

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E também no futuro, a Suíça parece estar preparada para investir mais recursos na renovação de sua frota de caças do que outros países. O crédito previsto de seis bilhões de francos suíços deverá permitir a compra de entre 30 e 40 novas aeronaves. Isto deve ser possível a um preço unitário de 150 a 200 milhões de francos. De acordo com Stampfli da Armasuisse, o número exato dependerá do modelo que for finalmente selecionado.

Vários países europeus anunciaram a compra de caças F-35, um dos modelos que poderá vir a substituir a frota suíça. Mas isto a um preço menor do que o calculado pela Confederação Suíça.

De acordo com um artigo do jornal Neue Zürcher Zeitung (NZZ) no final de 2018, a Bélgica planeja comprar 34 F-35 por cerca de quatro bilhões de euros, ou um total de CHF 4,3 bilhões, a um preço por unidade de 126,5 milhões de francos suíços. "Segundo o governo belga, este chamado “preço do sistema” inclui não apenas a aeronave em si, mas também o treinamento de pilotos, edifícios logísticos como hangares e a manutenção dos aviões de caça até 2030", informa o NZZ.

A Dinamarca também deve ser mencionada, que de acordo com a Defense News planeja comprar 27 F-35s por 2,9 bilhões de francos suíços, o correspondente a 107 milhões por jato. A Polônia assinou um contrato no início deste ano para comprar 32 F-35s por 144 milhões de dólares (CHF 131 milhões), segundo a revista Der Spiegel.

E a Grécia quer comprar 24 F-35 por três bilhões de dólares (125 milhões por jato). De acordo com a Keep Talking Greece, o preço do pacote também inclui a infraestrutura, o armamento de 82 F-16s e a possível compra de navios de guerra e material de guerra.

A Finlândia tem um orçamento de compras maior que a Suíça para a substituição de sua frota de 62 aeronaves. Segundo o coronel Keränen, um máximo de dez bilhões de euros (pouco menos de onze bilhões de francos suíços) foi reservado para isto.

O grande desconhecido: o conteúdo dos pacotes

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Especialistas militares advertem, entretanto, contra o que consideram ser conclusões simplistas. Em uma entrevista coletiva nesta primavera, Christian Catrina, um membro do projeto Air 2030, explicou que não é apropriado comparar os custos de aquisição na Suíça com os de outros países.

Ao fazer uma compra, um país pode optar por um pacote completo de serviços adicionais que, além da aeronave, inclui também armamento, logística, equipamentos específicos, sistemas de treinamento e avaliação, etc. Em alguns casos, estes representam uma parte significativa do preço final. Mas o conteúdo detalhado dos pacotes geralmente permanece desconhecido. Estas informações são ao mesmo tempo confidenciais e estratégicas.

A comparação com a Finlândia ilustra esse ponto. Segundo a Força Aérea Finlandesa, o custo de aquisição do F/A-18 também incluiu "peças de reposição, manuais de manutenção e operação de aeronaves, suporte de software, equipamentos de treinamento, suprimentos e gerenciamento de projetos".

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"A Finlândia, entretanto, tem que ter sua principal manutenção periódica realizada nos EUA porque não tem capacidade local", assinala Vautravers. A Suíça, por outro lado, decidiu adquirir todas as licenças para que o grupo tecnológico Ruag possa manter as aeronaves, diz o especialista em defesa.

Segundo a Vautravers, este pode “ser um investimento muito melhor a longo prazo" mesmo se a compra de licenças não seja a parte mais visível de uma aquisição. Porque "o que você não paga em licenças, você paga em outro lugar". O pacote negociado para a próxima frota finlandesa também incluirá mais serviços do que o anterior.

Outro fator que faz com que os preços variem de um país para outro é a dimensão política. Segundo a Vautravers, um país exportador pode, por exemplo, fazer um gesto financeiro ou oferecer benefícios em gênero, dependendo da importância que atribui à sua relação com o país comprador.

Existem muitos pontos contenciosos que poderiam desempenhar um papel no dia 27 de setembro, quando o eleitorado aprovará ou rejeitará a compra de novas aeronaves de caça para a Força Aérea Suíça.

O que os outros países estão fazendo com seus F/A-18 e Tiger F-5?

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A Suíça comprou 30 F/A-18s em 1997, 24 dos quais ainda hoje estão na ativa. Das 100 unidades do Tigre F-5E e F-5F compradas em 1978, apenas 26 ainda estão em serviço. De acordo com a ministra suíça da Defesa,Viola Amherd, estes últimos "só voam durante o dia e com bom tempo".

De acordo com um censo das Forças Aéreas Mundiais 2020, 18 países ainda utilizam um ou outro desses dois modelos.

Com quase 200 aeronaves Tiger F-5, a Coréia do Sul é o país onde a maioria dos F-5E/F ainda está em serviço. Eles foram comprados em 1974. Mas a Coréia do Sul quer substituí-los até 2026 por um modelo de sua própria produção.

Taiwan quer substituir seus F-5, que produz sob licença desde 1973, pelo AT-5, também uma aeronave de combate de sua própria produção, até 2026.

E no Brasil, de acordo com sites especializados, os 47 F-5EM e F-5FM adquiridos em 1975 serão gradualmente retirados do serviço ativo nos próximos anos, em favor do Gripen E (F-39).

Na Finlândia, os F/A-18 Hornet foram colocados em serviço entre 1995 e 2000. O país também está trabalhando na substituição de sua frota dentro de dez anos. Cinco aeronaves estão na corrida: Eurofighter, Rafale, F/A-18 Super Hornet, F-35A (estes quatro estão na seleção final na Suíça) e Gripen E/F.

Entre as razões apresentadas por Helsinque para o desmantelamento dos F/A-18 estão "a adoção de sistemas avançados de armas nas regiões vizinhas nos anos 2020", a "fadiga estrutural" da aeronave e o contínuo desmantelamento da frota de F/A-18 nos EUA.

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