Caso Marielle Franco expõe poder das milícias no Brasil
A condenação dos mandantes e executores do assassinato da vereadora Marielle Franco, decidida pelo STF oito anos após o crime, expôs a profunda infiltração das milícias e do crime organizado no Estado brasileiro. Esta e outras notícias na revista de imprensa da semana.
Além disso, duas notícias relacionadas à cultura portuguesa: o falecimento do escritor António Lobo Antunes e a nova peça do dramaturgo Tiago Rodrigues na Alemanha.
Do barulho da lua
O crítico suíço Eberhard Geisler publicou um artigo destacando a importância literária do escritor português António Lobo AntuneLink externos, falecido aos 83 anos em 5 de março. O texto ressalta que a notícia teve ampla repercussão na imprensa suíça, sendo publicada também por diversos outros meios de comunicação do país, dada a relevância internacional do autor.
Considerado um dos maiores cronistas da história recente de Portugal, Lobo Antunes é frequentemente visto como herdeiro artístico de Fernando Pessoa. Sua obra se caracteriza pela polifonia narrativa, substituindo a voz única tradicional por múltiplas perspectivas que revelam as complexidades da sociedade portuguesa, especialmente após a ditadura de Salazar. Essa multiplicidade de vozes também representa uma ruptura com discursos ideológicos dominantes, tanto do salazarismo quanto do comunismo.
Médico psiquiatra de formação, Lobo Antunes incorporou em sua literatura uma forte empatia pelas experiências humanas, incluindo personagens marginalizados, mulheres e pacientes psiquiátricos. Seus romances exploram intensamente a vida interior das personagens e questionam relações de poder e conhecimento.
A obra do autor também se distingue pelo uso de imagens poéticas e metáforas ousadas, além de uma linguagem que aproxima narrativa e poesia. Livros como “Os cus de JudasLink externo” e “Manual dos InquisidoresLink externo” exemplificam seu estilo inovador, que desafia formas tradicionais de narrativa e amplia o horizonte da literatura contemporânea.
Segundo Geisler, Lobo Antunes deixou uma literatura de alcance universal, ainda a ser plenamente apreciada em toda a sua profundidade. Sua morte representa a perda de uma das vozes mais importantes da literatura europeia contemporânea.
Fonte: nzz.chLink externo, srf.chLink externo, bluewin.chLink externo, rts.chLink externo; 06.03.2026 (alemão e francês)
“Os negros são ladrões”
Publicado pelo Blick, jornal de maior circulação da Suíça, o artigo aborda um tema social recorrente no país: o racismo, especialmente no ambiente de trabalho. A reportagem relata o caso de Rafael (nome fictício), um brasileiro negro que vive na Suíça há cerca de 20 anos e possui cidadania suíça.
Ex-gerente de uma grande rede de varejo alimentar, Rafael afirma ter sido alvo de comentários racistas repetidos por parte de superiores, incluindo afirmações estereotipadas sobre pessoas negras e episódios discriminatórios durante reuniões e processos de recrutamento. Segundo ele, após denunciar os fatos ao departamento de recursos humanos em 2024, não recebeu apoio adequado e ainda enfrentou reações consideradas insensíveis por parte da empresa.
A companhia nega as acusações e afirma combater a discriminação internamente, destacando a diversidade de sua força de trabalho. Mesmo assim, após quase dez anos no grupo, Rafael decidiu deixar o emprego no final de 2024, afirmando que a situação se tornou insustentável.
Ao tornar público seu relato no Blick, ele espera incentivar empresas suíças a refletirem sobre sua responsabilidade diante do racismo no ambiente profissional e a adotarem medidas mais firmes para proteger funcionários vítimas de discriminação.
Fonte: blick.ch, 05.03.2026Link externo (francês)
Ator interpreta um fascista
Publicado no caderno de cultura do Neue Zürcher Zeitung (NZZ) — considerado o jornal mais prestigioso da Suíça — o artigo analisa a estreia da peça Catarina ou A Beleza de Matar FascistasLink externo, do dramaturgo português Tiago RodriguesLink externo, apresentada no Schauspielhaus Bochum, na Alemanha. A montagem ganhou grande repercussão ao provocar reações inesperadas da plateia.
Durante uma cena em que o ator Ole Lagerpusch interpreta um político fascista em um monólogo provocativo, alguns espectadores confundiram o discurso ficcional com uma posição real. Na estreia, o público interrompeu a apresentação, lançou objetos ao palco e dois homens chegaram a invadir o espaço e agredir o ator.
Segundo a análise do NZZ, a reação revela como o espetáculo toca em questões extremamente sensíveis. O personagem fascista é apresentado de forma realista e perturbadora, justamente para mostrar como discursos extremistas podem se infiltrar de maneira aparentemente normal no debate público.
A peça de Tiago Rodrigues se passa em uma família que, há décadas, realiza um ritual anual: executar um fascista como forma de vingar a morte de Catarina, uma trabalhadora rural assassinada durante a ditadura de António de Oliveira Salazar. O conflito surge quando uma jovem da família começa a questionar a legitimidade moral desse ritual.
Para o jornal suíço, a força da obra está em provocar o público a refletir sobre violência política, memória histórica e radicalização contemporânea. Ao criar uma situação extrema e desconfortável, Tiago Rodrigues obriga espectadores e atores a confrontar uma pergunta central: onde termina o teatro e começa a realidade.
Fonte: nzz.ch, 05.03.2026Link externo (alemão)
Os assassinos pensaram que nada aconteceria
Publicado no semanário suíço de esquerda WOZ Die Wochenzeitung, em reportagem do correspondente Philipp Lichterbeck, o artigo analisa o desfecho judicial do assassinato da vereadora brasileira Marielle FrancoLink externo, morta no Assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro, em março de 2018. O texto destaca que o julgamento revelou até que ponto o Estado brasileiro está infiltrado por redes do crime organizado.
A decisão final foi tomada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), cuja presidente, Cármen Lúcia, declarou-se profundamente comovida com o caso e questionou quantas “Marielles” ainda serão assassinadas antes que a justiça seja plenamente restaurada no país. O tribunal condenou os dois mandantes do crime a longas penas de prisão, além de três outros envolvidos diretamente na execução.
Marielle Franco, então vereadora no Rio pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), foi assassinada a tiros dentro de um carro, junto com seu motorista. Negra, bissexual e oriunda de uma favela, ela era conhecida por sua atuação em defesa dos direitos dos pobres e por denunciar a violência policial e o poder das milícias. Seu assassinato provocou protestos massivos no Brasil e repercussão internacional.
Segundo o artigo, o crime ocorreu em um momento de crescente radicalização política que culminaria, meses depois, na eleição do ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro à presidência. Desde o início, suspeitava-se de vínculos entre os autores do crime e as milícias de direita do Rio de Janeiro, grupos formados por policiais e políticos locais que controlam territórios e atividades econômicas ilegais.
As investigações avançaram lentamente durante anos, marcadas por desaparecimento de provas, pistas falsas e bloqueios institucionais. O caso só ganhou novo impulso após a entrada da Polícia Federal em 2023. Em 2024, foram presos os supostos mandantes, entre eles o deputado federal Chiquinho Brazão e seu irmão Domingos Brazão, além de outros envolvidos, incluindo o então chefe da polícia civil do Rio, acusado de obstruir as investigações.
Para o WOZ, o julgamento representa um marco e um alívio para a esquerda brasileira, mas não resolve o problema estrutural. Embora a condenação seja vista como um sinal de que o Estado ainda pode agir contra a violência política, o artigo ressalta que o crime organizado continua fortemente infiltrado nas instituições e que os índices de violência — especialmente contra mulheres — seguem aumentando no país.
Fonte: woz.ch, 05.03.2026Link externo (alemão)
Árvores como salvadoras do clima?
Publicado na plataforma da rádio e televisão pública suíça germanófona Schweizer Radio und Fernsehen (SRF), em reportagem do jornalista Jörg Niggli, o artigo analisa o boom global de plantio de árvores como estratégia climática. Segundo a reportagem, muitos projetos de reflorestamento estão criando monoculturas que ameaçam a biodiversidade e cujos benefícios climáticos podem estar sendo superestimados.
A matéria apresenta o exemplo do nordeste do Brasil, onde a comunidade indígena Pataxó vive cercada por extensas plantações de eucalipto destinadas à produção de celulose. Para os moradores, essas áreas funcionam como um “deserto verde”: ao contrário das florestas naturais da Mata Atlântica, ricas em espécies, as monoculturas secam o solo e reduzem drasticamente a vida vegetal e animal.
A expansão dessas plantações é impulsionada tanto pela demanda mundial por papel quanto pelo mercado de compensações de carbono. Empresas como a Suzano lucram não apenas com a produção de celulose, mas também com a venda de certificados de CO₂ para companhias que buscam compensar suas emissões.
Especialistas alertam que esse modelo pode gerar uma falsa sensação de solução climática. O pesquisador florestal Matthew Fagan destaca que muitas plantações substituem florestas naturais e são instaladas em áreas ricas em biodiversidade. O debate também foi alimentado por um estudo do laboratório da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH), liderado por Tom Crowther, que apontava o reflorestamento como grande solução climática — interpretação considerada simplificada por cientistas como Sonia Seneviratne, que lembram que a prioridade continua sendo reduzir o uso de combustíveis fósseis.
Fonte: srf.ch, 03.03.2026Link externo (alemão)
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