The Swiss voice in the world since 1935

Filho 01 versus esposa 03, justiça para Marielle e alívio para o Tapajós

Indígenas e ativistas protestam contra a dragagem do rio amazônico em frente à sede da multinacional de alimentos Cargill, em São Paulo, em 20 de fevereiro de 2026.
Indígenas e ativistas protestam contra a dragagem do rio amazônico em frente à sede da multinacional de alimentos Cargill, em São Paulo, em 20 de fevereiro de 2026. Keystone/Sebastião Moreira

Flávio ou Michelle? A TV pública suíça se pergunta quem do clã Bolsonaro tem as melhores chances na próxima eleição presidencial. A condenação dos assassinos de Marielle Franco ribombou positivamente na imprensa helvética, mas a vitória dos ativistas indígenas contra a privatização de hidrovias na Amazônia só foi destaque nos órgãos religiosos da Suíça.

Nesta edição da revista de imprensa, eu reúno para você como a mídia suíça enxergou o Brasil, Portugal e o mundo lusófono nesta semana.

Dinastia: entre o filho 01 e a esposa 03

Flávio Bolsonaro, o filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, quer ser o herdeiro político do pai. “Mas a terceira esposa do pai entra em campo”, anuncia a chamada de matéria da TV pública de língua alemã SRF.

O canal resumiu as questões entre as duas personalidades de mais evidência atualmente no campo da extrema-direita brasileira em cinco tópicos:

O filho Zero-um.
O filho Zero-um. Copyright 2025 The Associated Press. All Rights Reserved.
  • Do que se trata? Em outubro próximo, serão realizadas as eleições presidenciais no Brasil. Nas pesquisas, o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva obtém entre 43% e 47% dos votos. Um de seus adversários é Flávio Bolsonaro, um dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. De acordo com as pesquisas, ele obtém entre 33% e 40% dos votos.
  • Quem é Flávio Bolsonaro? Flávio tem 44 anos e é senador pelo Partido Liberal (LB), de direita. Ele é o filho mais velho de Jair e é chamado por ele de 01, pois Jair Bolsonaro numera seus filhos – ele tem três – como se fossem militares. Flávio se esforça para parecer mais moderado do que seu pai na campanha eleitoral, e é menos provocativo do que seus dois irmãos, também políticos. Em termos de conteúdo, ele segue a linha de seu pai.
  • Quais são as chances de Flávio Bolsonaro se tornar presidente? De acordo com as pesquisas, sua popularidade aumentou ligeiramente. Porém, em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito, houve uma série de escândalos de corrupção e políticos que o ajudaram, como outsider, a vencer a eleição. Agora, esse não é o caso de seu filho. Pelo contrário: o atual governo Lula é bastante bem-sucedido economicamente. E o país não está mais isolado internacionalmente, como estava durante o governo de Bolsonaro pai.
  • Por que Jair Bolsonaro não se candidata ele mesmo? Porque foi condenado a 27 anos de prisão por ter planejado um golpe de Estado.
Michelle Bolsonaro no 7 de setembro.
Michelle Bolsonaro no 7 de setembro. Keystone-EPA/Sebastiao Moreira
  • Qual é o papel de Michelle Bolsonaro? Ela é a terceira esposa de Jair Bolsonaro e se colocou na disputa como candidata à presidência. Ela não tem experiência política além da que adquiriu como ex-primeira-dama. No entanto, como primeira-dama, ela teve mais presença do que outras mulheres nesse cargo. Ela e Jair têm uma filha. Michelle é evangélica. Quando leva comida para o marido na prisão, publica a receita no X.
  • Quão grandes são as diferenças entre os membros da família Bolsonaro? Existem conflitos que deverão ser resolvidos nos próximos meses para que se apresentem unidos como uma alternativa de direita. Para a candidatura de Flavio Bolsonaro, isso teria o efeito de lhe garantir votos dos eleitores evangélicos.

Fonte: SRFLink externo, 26.02.2026 (em alemão)

Justiça para Marielle, enfim

Quase oito anos após o assassinato chocante da vereadora Marielle Franco no Rio de Janeiro, cinco pessoas envolvidas no crime foram condenadas a longas penas de prisão. O Supremo Tribunal Federal (STF) considerou culpados, entre outros, dois irmãos políticos e impôs penas de prisão de mais de 76 anos a cada um.

Além disso, eles terão que pagar indenizações aos familiares, conforme foi divulgado na sessão transmitida ao vivo. Ainda é possível recorrer da decisão ao Supremo Tribunal, mas as chances de sucesso são consideradas mínimas.

A ministra da Igualdade Racial do Brasil, irmã de Marielle Franco, Anielle Franco (à esquerda), e Luyara Franco (à direita) assistem ao julgamento no Supremo Tribunal Federal, em Brasília.
A ministra da Igualdade Racial do Brasil, irmã de Marielle Franco, Anielle Franco (à esquerda), e Luyara Franco (à direita) assistem ao julgamento no Supremo Tribunal Federal, em Brasília. Keystone-EPA/Andre Borges

Visto do exterior, o assassinato da vereadora expõe o poder exercido pelas milícias do Rio de Janeiro, e suas complicadas relações com os poderes públicos e a burocracia estatal.

Conforme explica o jornal Blick, “essas organizações criminosas, criadas há cerca de quarenta anos por ex-policiais e que inicialmente se apresentavam como grupos de autodefesa contra o tráfico de drogas, rapidamente se tornaram gangues temíveis que praticavam extorsão e se apropriavam de terrenos públicos para construir ilegalmente moradias ou edifícios comerciais, contando com o apoio de políticos de alto escalão. Segundo os juízes do Supremo Tribunal Federal, Marielle Franco foi assassinada para “enviar uma mensagem” à classe política do Rio. Eles denunciaram o racismo e a misoginia dos acusados.”

“Os irmãos Brazão “não tinham apenas contatos com a milícia. Eles eram a milícia”, afirmou o magistrado Alexandre de Moraes.”

O jornal aponta que, “na Câmara Municipal da megalópole carioca, Franco se empenhava em impedir a expansão de loteamentos clandestinos nos bairros pobres, uma das principais fontes de renda das milícias.”

Fontes: BlickLink externo (francês), nau.chLink externo, blue NewsLink externo (alemão)

“O rio venceu”, mas a Suíça não viu

A disputa entre ativistas indígenas e a gigante multinacional estonidense Cargill contra a privatização de hidrovias na bacia amazônica foi noticiada discretamente pelas principais mídias online da Suíça no fim da semana passada.

A nau.ch relatou então que, “em protestos contra a dragagem de rios na região amazônica, indígenas brasileiros ocuparam o porto fluvial da empresa agrícola norte-americana Cargill, no norte do país. As operações em Santarém, no estado do Pará, foram completamente interrompidas, informou a empresa. Os funcionários foram evacuados do local.”

Já o final do entrevero, quando o governo brasileiro decidiu reverter a medida, só foi destaque nos jornais religiosos, ref.ch (Protestante) e kath.ch (Católico). Ambos celebraram a vitória dos povos indígenas contra o poder do lobby do agrobusiness.

Ao contrário dos seus vizinhos europeus, nenhum dos grandes grupos de mídia da Suíça registrou a história, mas (coincidência?) o diário conservador Neue Zürcher Zeitung (NZZ) publicou uma coluna de opinião com uma crítica afiada às grandes multinacionais de comércio internacional, as traders, várias das quais são suíças.

“Saiam das sombras”, mancheta o jornal. “Gigantes suíços de commodities dominam o comércio de petróleo, metais e grãos: eles deveriam ser mais transparentes. A partir de Genebra e Zug, empresas como Glencore, Mercuria e Vitol controlam as matérias-primas em todo o mundo. Em uma época de grandes potências ávidas por controle, isso expõe a Suíça – e a torna vulnerável.”

Fontes: ref.chLink externo, kath.chLink externo, nau.chLink externo, cash.chLink externo, NZZLink externo , 21 e 26.02.2026 (em alemão)  

Para onde vai a BYD? 

O grupo chinês Build Your Dreams (BYD) consolidou-seLink externo como líder absoluta no segmento de elétricos (BEV) no Brasil, com 73,62% de participação até novembro de 2025. No mercado automotivo geral, a marca atingiu cerca de 9,77% de market share em novembro de 2025, tornando-se uma das 4 marcas mais vendidas no varejo nacional.

A BYD está agora entre os cinco maiores grupos automotivos do mundo e é a maior fabricante global de carros elétricos, à frente da Tesla. Os cerca de 15 milhões de veículos elétricos e híbridos plug-in registrados representam um salto quântico da 436ª posição no ranking da Fortune Global em 2022 para a 91ª posição no ano passado. Mas a BYD ainda está longe de atingir seus objetivos – a expansão internacional deve continuar sob a liderança de Stella Li (55), com quem o jornal Blick conversou essa semana.

Stella Li, vice-presidente da BYD, durante a exposição automobilística de Munique, Alemanha, em setembro de 2025.
Stella Li, vice-presidente da BYD, durante a exposição automobilística de Munique, Alemanha, em setembro de 2025. KEYSTONE/DPA/Sven Hoppe

Stella Li menciona apenas uma vez o Brasil: “No momento, não temos interesse em entrar no mercado dos EUA. Por outro lado, estamos obtendo um enorme sucesso na América Central e do Sul e já inauguramos uma fábrica no Brasil.” Motivo pelo qual a entrevista pode interessar o leitor brasileiro. Destaques:

Na Europa, está sendo discutido um novo tipo de veículo que apresenta semelhanças com os pequenos carros Kei do Japão. A BYD está interessada nesse segmento – ou as tarifas alfandegárias da UE impossibilitariam a comercialização a preços competitivos?

Recentemente, apresentamos um conceito de carro kei para o mercado japonês. Se a Europa realmente avançar com o projeto de uma classe de veículos abaixo dos atuais carros urbanos, poderemos reagir imediatamente. E como em breve inauguraremos nossa nova fábrica na Hungria, poderemos produzir lá um carro urbano muito compacto e acessível, sem sermos prejudicados por tarifas alfandegárias.

A senhora diz que o mercado europeu é o mais importante do mundo. Mas o mercado chinês é quase duas vezes maior.

A importância do mercado europeu deve ser avaliada em termos qualitativos, não quantitativos. Se tivermos sucesso na Europa, sabemos que podemos ter sucesso em qualquer lugar do mundo.

A BYD vai reforçar a sua cooperação com a indústria automotiva ocidental?

Não nos vemos apenas como fabricantes de automóveis, mas também como uma empresa de tecnologia. Produzimos componentes para um terço de todos os smartphones vendidos no mundo. Além disso, fornecemos baterias para várias marcas ocidentais.

Cada vez mais fabricantes de automóveis enfatizam que são empresas de tecnologia e mobilidade…

Pode ser. Mas nós realmente somos. Empregamos mais de 100.000 engenheiros, que registram 45 novas patentes por dia. No total, já registramos cerca de 70.000 patentes. Essa orientação consistente para a inovação é o nosso ponto forte.

Fonte: BlickLink externo, 22.02.2026 (em alemão)

A revolução dançante de Da Cruz

Mariana da Cruz e seu parceiro de banda Ane Hebeisen.
Mariana da Cruz e seu parceiro de banda Ane Hebeisen. Keystone / Alessandro Della Valle

Neue Zürcher Zeitung trouxe essa semana um perfil da banda bernense Da Cruz. “Tempos radicais exigem música radical”, abre o jornal. O grupo bernês Da Cruz apresenta ao seu público, no novo álbum “Som Sistema”, 25 minutos das batidas mais recentes de todos os cantos do mundo – não para distrair, mas para despertar.

Da Cruz lembra o conceito de música pop dançante, como outrora formulado por Seeed e seu idealizador Peter Fox: os grooves de inspiração global servem como estrutura, não apenas como citação. Ao mesmo tempo, “Som Sistema” ressoa a história da cultura club lusófona, que grupos como Buraka Som Sistema tornaram visível internacionalmente.

No centro está Mariana Da Cruz, nascida em São Paulo, que vive há muitos anos em Berna. Ela não canta acima do ritmo, ela trabalha dentro dele. Sua voz fala, clama, repete, condensa, entoa, interpreta. Os textos permanecem concretos: a riqueza de poucos e a realidade de muitos, a divisão social, o cansaço de uma geração entre a auto-otimização e a perda de perspectivas.

Essa radicalidade industrial ressoa novamente, mas sem peso. É possível ouvir influências de gêneros como baile funk, amapiano ou trap – mas, na verdade, a localização exata é irrelevante. A música não oprime, ela mantém em movimento constante.

É justamente aqui que se nota a diferença em relação a muitas produções populares brasileiras, que muitas vezes trabalham com exageros e kitsch. Da Cruz evita isso conscientemente. Sua música não soa como o Brasil como clichê, mas como o Brasil como experiência – carregada de brasilidade, mas sem vínculos folclóricos.

Fonte: NZZLink externo, 23.02.2026 (em alemão)

Ajude-nos a melhorar a nossa revista de imprensa

Como leitor(a) da nossa revista de imprensa semanal, sua opinião é muito importante para nós. Reserve 2 minutos para responder a uma breve pesquisa e nos ajudar a aprimorar o nosso jornalismo.
A pesquisa é anônima e todos os dados são confidenciais.

👉 [Participe da pesquisaLink externo]

>>Outros assuntos noticiados na Suíça:

Portugal: Mulher morre em apartamento – e ninguém percebeu durante dois anos Link externo(23.02)

A ex-Miss Kerstin Cook adota uma criança – e deixa a Suíça pelo Brasil Link externo(24.02)

Apesar da escassez de mão de obra qualificada: o reconhecimento de diplomas demora muito tempoLink externo (23.02)

Se você tem uma opinião, crítica ou gostaria de propor algum tema, nos escreva. Clique AQUI para enviar um e-mail.

Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 27 de fevereiro. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!

Até a próxima semana!

Conteúdo externo
Não foi possível salvar sua assinatura. Por favor, tente novamente.
Quase terminado… Nós precisamos confirmar o seu endereço e-mail. Para finalizar o processo de inscrição, clique por favor no link do e-mail enviado por nós há pouco
Nossa newsletter sobre o que a imprensa suíça escreve sobre o Brasil, Portugal e a África lusófona.

Um resumo das notícias e opiniões mais recentes publicadas em jornais, revistas e portais da Suíça.

Toda semana

A política de privacidade da SRG SSR oferece informações adicionais sobre o processamento de dados. 

</span


Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR