Ouro histórico nos Jogos de Inverno e Carnaval de Lula geram repercussão na Suíça
Da conquista inédita de Lucas Pinheiro Braathen nas Olimpíadas de Inverno à homenagem a Lula no Carnaval do Rio que provocou debate eleitoral, jornais suíços voltaram os holofotes nesta semana para o Brasil — entre celebração esportiva e polarização política.
Nesta edição da revista de imprensa, eu reúno para você como a mídia suíça enxergou o Brasil nesta semana — do ouro histórico de Lucas Pinheiro Braathen nos Jogos de Inverno à polêmica homenagem a Lula no Carnaval do Rio em ano eleitoral. A ideia é oferecer esse olhar de fora, mostrando quais aspectos chamaram mais atenção, que tom foi adotado e como o Brasil aparece nas manchetes europeias entre admiração esportiva e debate político.
Controvérsia política no Carnaval do Rio
A mídia suíça destacou com grande atenção a polêmica política em torno da homenagem ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o Carnaval do Rio de Janeiro, em pleno ano eleitoral.
O portal Blue NewsLink externo relatou que a escola de samba Acadêmicos de Niterói apresentou o enredo “Do alto do Mulungu nasce a esperança: Lula, o trabalhador do Brasil”, narrando a trajetória do líder de esquerda desde a infância pobre no Nordeste até a Presidência da República. O desfile integrou a primeira noite do Grupo Especial no Sambódromo, com fantasias luxuosas, bateria potente e carros alegóricos que empolgaram dezenas de milhares de espectadores.
A homenagem, porém, gerou controvérsia porque Lula pretende disputar um quarto mandato na eleição presidencial de outubro. Partidos de oposição tentaram barrar o desfile sob a acusação de campanha eleitoral antecipada, mas o Tribunal Superior Eleitoral rejeitou os pedidos.
A Corte, no entanto, advertiu que o Carnaval não pode se tornar espaço para propaganda eleitoral irregular. Pela legislação brasileira, a campanha só pode começar após o registro oficial da candidatura — o que ainda não ocorreu, embora Lula já tenha anunciado a intenção de concorrer.
Já a emissora suíça RTNLink externo abordou o tema sob o título “Homenagem vibrante e divisiva a Lula”. A reportagem descreveu a presença de uma estátua gigante do presidente saudando o público, além de alas representando cactos e agricultores pobres para simbolizar sua infância no Nordeste, e operários metalúrgicos lembrando seu passado sindical.
Segundo a RTN, foi a primeira vez que um presidente em exercício recebeu tal homenagem na famosa avenida de 700 metros projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer.
Lula, de 80 anos, que voltou ao poder em 2023 após dois mandatos anteriores (2003-2010), assistiu ao desfile ao lado da esposa Rosângela “Janja” da Silva e do prefeito do Rio, Eduardo Paes, aliado político. Parte do público entoava o refrão “Olé, olé, olé, olá, Lula, Lula!”, tradicional entre seus apoiadores.
A RTN destacou ainda que o desfile assumiu contornos de manifesto de esquerda, com referências à luta contra a fome, à defesa dos povos indígenas e aos programas sociais. Um dos carros alegóricos satirizou o ex-presidente Jair Bolsonaro, retratado como um palhaço com tornozeleira eletrônica — alusão à sua condenação a 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado. O episódio deve acirrar ainda mais os ânimos entre conservadores e apoiadores do governo.
Enquanto opositores classificaram o espetáculo como campanha disfarçada, organizadores negaram intenção eleitoral. A Presidência orientou autoridades a evitarem declarações que pudessem ser interpretadas como propaganda antecipada, e o Partido dos Trabalhadores pediu que fossem evitadas faixas ou vestimentas de cunho político.
A cobertura suíça sublinhou, em comum, dois pontos centrais: o caráter inédito da homenagem a um presidente em exercício no Sambódromo e o clima de polarização que marca o Brasil às vésperas de mais uma eleição decisiva.
Fonte: Blue NewsLink externo, RTNLink externo,16.02.2026 (alemão e francês)
Ouro histórico para o Brasil nos Jogos de Inverno
A imprensa suíça destacou com grande ênfase a conquista histórica do brasileiro Lucas Pinheiro Braathen no slalom gigante dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. O feito, alcançado em Bormio, rendeu ao Brasil a primeira medalha olímpica de inverno de sua história — e também a primeira da América do Sul na competição.
O jornal Le MatinLink externo ressaltou o caráter histórico da vitória e relembrou a trajetória singular do atleta de 25 anos, nascido em Oslo, filho de pai norueguês e mãe brasileira. A publicação destacou que Braathen já havia entrado para a história em novembro, ao se tornar o primeiro brasileiro a vencer uma etapa da Copa do Mundo de esqui alpino, em Levi, na Finlândia.
Em Bormio, segundo o jornal, ele dominou a primeira descida com quase um segundo de vantagem sobre o suíço Marco Odermatt e administrou a liderança na segunda manga, disputada sob neve e chuva, garantindo o ouro com 0s58 de vantagem. O periódico também relembrou o episódio de 2023, quando o atleta anunciou aposentadoria em meio a um conflito com a federação norueguesa por direitos de imagem, retornando meses depois para competir pelo Brasil, país onde passou parte da infância.
A Tribune de GenèveLink externo também enfatizou o simbolismo da medalha para o Brasil, observando que a prova repetiu o roteiro do Mundial de Saalbach: três suíços entre os quatro primeiros colocados, mas atrás de um “convidado indesejado”.
Além de Odermatt, que ficou com a prata, o bronze foi conquistado por Loïc Meillard. O jornal destacou ainda que Odermatt, apesar de sair de Bormio sem ouro, soma agora quatro medalhas olímpicas na carreira, tornando-se o primeiro esquiador alpino suíço a alcançar esse número.
Já o 20 MinutenLink externo adotou um tom mais direto, sublinhando que Odermatt deixou os Jogos com três medalhas, mas sem repetir o ouro conquistado há quatro anos. O jornal destacou declarações do suíço, que afirmou estar “muito, muito feliz” com a prata, apesar da expectativa por um título.
A publicação também ressaltou o caráter extraordinário da conquista brasileira, lembrando que, após anos turbulentos marcados por aposentadoria, retorno às pistas e mudança de nacionalidade, Braathen escreveu um capítulo inédito para o esporte de inverno sul-americano.
Em comum, os três veículos suíços ressaltaram o peso histórico da vitória, a personalidade pouco convencional do atleta — apaixonado por moda e música — e o impacto simbólico de ver o Brasil subir ao lugar mais alto do pódio em uma modalidade tradicionalmente dominada por países europeus.
Fonte: Le MatinLink externo, Tribune de GenèveLink externo, 20 MinutenLink externo, 14.02.2026 (francês e alemão)
Insultos racistas levam a investigação da UEFA
O jornal Le MatinLink externo noticiou que a UEFA abriu uma investigação após denúncias de insultos racistas contra o atacante brasileiro Vinícius Júnior durante a partida entre Real Madrid e Benfica, válida pelo jogo de ida dos playoffs da Liga dos Campeões.
Segundo a publicação, o confronto foi interrompido por cerca de dez minutos depois que Vinícius Jr. relatou ter sido chamado de “macaco”. O jogador apontou como responsável o argentino Gianluca Prestianni, atleta do Benfica.
Em comunicado divulgado na quarta-feira, a UEFA informou que designou um inspetor especializado em ética e disciplina para apurar as acusações de comportamento discriminatório ocorridas durante a partida entre Benfica e Real Madrid.
De acordo com o jornal, após marcar um belo gol aos 50 minutos, Vinícius provocou a torcida no Estádio da Luz, o que gerou uma discussão com jogadores do Benfica e resultou em cartão amarelo para o brasileiro. Pouco antes da retomada do jogo, ele correu em direção ao árbitro francês François Letexier, apontando para Prestianni e alegando ter sido chamado de “mono” (macaco, em espanhol).
O meio-campista do Real Madrid Aurélien Tchouaméni afirmou à Movistar+ que a equipe cogitou deixar o campo. “É inaceitável. Vini nos disse que o jogador o chamou de macaco enquanto escondia a boca com a camisa, antes de negar. Queríamos sair de campo, mas conversamos e Vini disse que deveríamos continuar”, declarou.
Após a partida, Vinícius criticou os autores dos ataques em uma publicação no Instagram, chamando-os de “covardes”. Já Kylian Mbappé afirmou que Prestianni não “merecia” disputar a Liga dos Campeões e pediu uma resposta firme da UEFA, classificando o caso como grave.
A investigação segue em andamento.
Fonte: Le MatinLink externo, 18.02.2026 (francês)
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