The Swiss voice in the world since 1935

Um espectro ronda Porto Alegre: Antifas ecoam na Suíça mas não no Brasil

Porto Alegre vai sediar a primeira "Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos", de 26 a 29 de março.
A capital gaúcha vai sediar a primeira "Conferência Internacional Antifascista pela Soberania dos Povos", de 26 a 29 de março. Nelson Almeida / AFP

Deu na imprensa suíça o que não saiu na brasileira: a primeira Conferência Internacional Antifascista em Porto Alegre coincidiu com o destaque dessa semana do semanário de esquerda WOZ. Os suíços também passearam pela história da escravidão no Rio de Janeiro, e um explorador francês, desaparecido desde 1950 na Amazônia, foi declarado morto.

Nesta semana, reuni algumas reportagens originais publicadas na imprensa suíça que mencionam o Brasil, Portugal e o mundo lusófono. Além das histórias citadas acima, vale também citar a iniciativa brasileira de reciclar bitucas de cigarro e o hype dado à soprano Ana Vieira Leite pelo diário genebrino Le Temps.

Ajude-nos a melhorar a nossa revista de imprensa

Como leitor(a) da nossa revista de imprensa semanal, sua opinião é muito importante para nós. Reserve 2 minutos para responder a uma breve pesquisa e nos ajudar a aprimorar o nosso jornalismo.
A pesquisa é anônima e todos os dados são confidenciais.

👉 [Participe da pesquisaLink externo]

Antifas do mundo todo, reúnem-se

Ameaçados de serem tachados de terroristas pelo governo Trump, os militantes antifascistas, mormente conhecidos como “antifas”, se reunem este mês na capital gaúcha, e a escolha não foi casual. Porto Alegre foi o berço do movimento altermundialista no início dos anos 2000, como lembra o Le Courrier.

“A iniciativa, que visa superar a fragmentação das resistências diante da virada neofascista em curso, foi lançada por um apelo assinado por um amplo leque de personalidades representativas da esquerda combativa e dos movimentos sociais, provenientes dos cinco continentes”, relata o jornal.

A chamada “grande imprensa” local e internacional, também conhecida como “imprensa burguesa” no jargão antifascista, até agora ignorou totalmente o evento, que tem se difundido em plataformas alternativas e redes sociais.

A Conferência, entretanto, foi ignorada também pelo semanário de esquerda de Zurich Wochenzeitung (WOZ) que, sem mencionar o evento em Porto Alegre, dedicou toda a edição de sua revista mensal para o tema, sob o título “No Pasarán: por que precisamos da Antifa”.

A edição dá um giro pelos movimentos antifa em diversos países do primeiro e terceiro mundos, fechando com uma entrevista com Gralha, pseudônimo de um militante do grupo C.H.A.M.A. AntifaLink externo. A seguir, trechos da entrevista:

Capa desta semana da revista mensal do jornal WOZ.
Capa desta semana da revista mensal do jornal WOZ. Reprodução

WOZ: Gralha, como você se tornou antifascista?
Gralha: Não posso falar nada sobre mim, isso poderia me colocar em perigo. O que posso dizer é que faço parte de um coletivo de hacktivismo antifascista. Realizamos ataques cibernéticos; entre outras coisas, derrubamos sites de aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Quando se pensa no Brasil no exterior, nem sempre vêm à mente os nazistas…
No Brasil, existem inúmeros grupos neonazistas, especialmente no sul e no sudeste do país. Essas regiões são marcadas pela imigração italiana e alemã. As ideias racistas são muito presentes por lá: muitas pessoas se consideram superiores ao Norte, que é mais pobre e tem uma população predominantemente afro-indígena. O fascismo não é um fenômeno novo no Brasil. O país teve, na década de 1930, com a Ação Integralista Brasileira, o maior movimento fascista de massa fora da Europa, fortemente inspirado no fascismo italiano.

E hoje?
Hoje, entre outros, estão os chamados neo-integralistas, que se destacaram, especialmente durante o mandato de Jair Bolsonaro, de 2019 a 2023, por inúmeros ataques a minorias. Além disso, também existem grupos neonazistas clássicos, geralmente organizados em células clandestinas, como a Misanthropic Division. Também na cena musical encontram-se inúmeras bandas com ligações a redes neonazistas internacionais, como os Hammerskins. Por fim, há muitos influenciadores misóginos, cujas narrativas, em parte, penetraram até a corrente dominante da sociedade. O ecossistema do bolsonarismo na internet funciona como um ponto de encontro para muitos desses atores.

Fontes: WOZ Link externo19.03.2026 (em alemão, paywall); Le CourrierLink externo 18.03.2026 (em francês, paywall)

Passeio da escravidão não é para turista

No Rio de Janeiro, guias oferecem passeios pela “Pequena África”, seguindo os rastros da escravidão e da resistência negras. O Le Courrier acompanhou um dos passeios, voltado para alunos e alunas dos bairros periféricos.

O Rio de Janeiro foi o principal porto de desembarque de escravos de toda a América. Mais de dois milhões de africanos foram levados à força para lá entre o século XVI e o fim do tráfico transatlântico, em 1850. Uma história cuidadosamente ocultada em um país ainda extremamente marcado pelo racismo e pela dominação branca.

Armazém portuário centenário em obras no Rio de Janeiro, Brasil. Obras na região portuária do Rio revelaram, em 2012, o porto de Valongo, que foi o porto de comércio de escravizados mais movimentado do mundo.
Armazém portuário centenário em obras no Rio de Janeiro, Brasil. Obras na região portuária do Rio revelaram, em 2012, o porto de Valongo, que foi o porto de comércio de escravizados mais movimentado do mundo. Keystone-AP/Victor R. Caivano

Foi somente a partir de 2011 que os moradores da região começaram a ouvir falar sobre isso. Durante a preparação dos Jogos Olímpicos do Rio de 2016, escavações revelaram locais históricos da escravidão. Em frente ao Museu de Arte do Rio, no ar abafado da capital do estado, o historiador Jorge Maia dirige-se a um grupo de cerca de trinta alunos e alunas. Eles têm entre 10 e 14 anos e estudam na escola municipal Pará, no bairro de Rocha Miranda, na periferia da cidade.

A iniciativa da organização “Rio Memórias” leva, todos os meses, alunos de bairros de baixa renda do norte do Rio, em sua grande maioria negros, à descoberta de suas origens no centro da cidade: a escravidão, seguida da extraordinária história de resistência e das criações sociais e culturais dos afrodescendentes cariocas.

Fonte: Le Courrier,Link externo 19.03.2026 (em francês) 

76 anos sumido, morto enfim

“Ele teria 99 anos hoje, o que deixa pouca margem para dúvidas”, declarou a presidente do tribunal, Naïma Sajie, antes de proclamar “a morte de Raymond Maufrais em 13 de janeiro de 1950”, última data registrada nos diários de viagem do explorador francês, encontrados alguns meses após seu desaparecimento e posteriormente adaptados para um livro.

Nascido em 1º de outubro de 1926 em Toulon, no sul da França, e membro da Resistência durante a Segunda Guerra Mundial, Raymond Maufrais partiu inicialmente em 1946 para o Mato Grosso brasileiro, penetrando em um território então de difícil acesso.

Essa expedição lhe rendeu uma participação na rádio francesa já em 1949. Em janeiro de 1950, o jovem tentou chegar ao Brasil atravessando sozinho o centro da Guiana. Depois de partir do litoral e subir o rio Mana, ele chegou a Maripasoula (oeste) a pé, atravessando a floresta, antes de desaparecer ao seguir em direção ao leste.

Em seus cadernos, encontrados em abril de 1950 em um abrigo improvisado por um morador de Camopi, município no leste do território habitado majoritariamente pelas comunidades indígenas Wayãpi e Teko, ele descreve nas últimas páginas a fome e a doença que o atormentavam e o momento em que, sem forças, teve de abater e comer seu cão.

Fotografia sem data, recebida em 15 de julho de 1952, mostra o explorador francês Raymond Maufrais posando com indígenas do Mato Grosso em um local não identificado.
Fotografia sem data, recebida em 15 de julho de 1952, mostra o explorador francês Raymond Maufrais posando com indígenas do Mato Grosso em um local não identificado. INTERCONTINENTALE / AFP

Já em 1950, as autoridades e os conhecedores da floresta da Guiana concordavam com um desfecho fatal. “Raymond Maufrais não conseguiu sobreviver e todos o consideraram morto, seja por afogamento, seja de fome e exaustão em uma margem”, seu corpo devorado por peixes carnívoros, jacarés ou necrófagos, de acordo com o pedido transmitido ao tribunal por Geoffroi Crunelle, presidente da Associação dos Amigos de Edgar e Raymond Maufrais (AAERM). Seu pai, Edgar, dedicou cerca de dez anos à sua busca pela Guiana, pelo Brasil e pelo Suriname, recolhendo depoimentos até 1964, ano em que ele próprio escapou por pouco do mesmo destino que seu filho.

Em 76 anos, ninguém havia investigado a certidão de óbito de Raymond Maufrais, já que seus pais nunca aceitaram a provável morte de seu único filho e ele próprio não teve descendentes.

Os direitos autorais de suas obras, publicadas após sua morte, nunca foram reivindicados. Foi a AAERM que finalmente recorreu à Justiça. Seu presidente teve a ideia durante uma viagem a Camopi em 2025.

“Conversava com o prefeito e, no decorrer da conversa, ficou claro que a morte de Raymond Maufrais nunca havia sido oficialmente reconhecida. Ao pesquisar, percebi que qualquer pessoa poderia dar início a esse processo”, explica ele.

A justiça baseou-se no artigo 88 do Código Civil, que permite declarar oficialmente falecido qualquer cidadão francês “desaparecido em circunstâncias que possam colocar sua vida em perigo, quando seu corpo não puder ser encontrado”.

O alcance dessa declaração tardia de óbito é, no entanto, essencialmente simbólico: a certidão de nascimento de Raymond Maufrais em Toulon deverá ser completada com a data do óbito, assim como o registro municipal de Camopi, município onde ele foi oficialmente declarado falecido.

Embora amplamente esquecida na França metropolitana, mesmo que suas obras continuem sendo publicadas, a aventura de Raymond Maufrais permanece viva na Guiana, onde entusiastas procuram regularmente chegar ao seu último acampamento conhecido, em Dégrad Claude, no meio da selva.

Suas aventuras inspiraram vários livros e um filme, La Vie Pure (A Vida Pura), lançado em 2015.

Fonte: blueNewsLink externo, 18.03.2026 (em francês)

Ana Vieira Leite, epopeia lírica

O jornal Le Temps não esconde seu encanto pelo talento de Ana Vieira Leite. Formada no conservatório de Genebra (HEM), a jovem soprano portuguesa foi aclamada como “a nova musa do barroco”.

Um primeiro disco com o conjunto La Néréide chamou a atenção
em 2023. Ana Vieira Leite, Julie Roset e Camille Allérat fizeram
ressurgir a música do misterioso trio das Damas de Ferrara,
um dos manuscritos mais empolgantes do Renascimento. Após
essa coletânea de Luzzaschi, reencontramos Ana Vieira Leite no ano passado na pastoral esquecida Venus y Adonis, ressuscitada pelo jovem Conjunto Los Elementos, de Alberto Miguélez Rouco.

Conteúdo externo

Foi em Braga, cidade no norte de Portugal apelidada de “Roma portuguesa”, que a musicista iniciou sua trajetória no violino. Durante os doze anos que Ana Vieira Leite e dedicou ao violino, seu sonho secreto era tocar no palco. “Eu gostava de teatro. Comecei com musicais, participando de pequenas produções do conservatório. Ópera? Eu nem pensava nisso, para mim era algo inacessível. Por outro lado, eu já estava convencida de que não era feita para o violino: ficar escondida na orquestra, estudar sozinha oito horas por dia, isso não era o que eu aspirava.”

Na entrevista concedida antes da estreia de Orlando, de Handel, na Ópera de Lausanne, a soprano conta mais de sua vida e trajetória, da ópera ao fado.

Fonte: Le TempsLink externo, 14.03.2026 (em francês)

Bituca tem futuro

Bituca, guimba, bagana, toco, ponta, prisca, bigu: agora podem virar até roupa nova.
Bituca, guimba, bagana, toco, ponta, prisca, bigu: agora podem virar até roupa nova. Keystone / Gaetan Bally

Em Ubatuba, litoral norte de São Paulo, um empresário transformou a reciclagem de bitucas de cigarro em um negócio duplamente virtuoso. Ele não só ajuda a livrar o meio ambiente, especialmente as praias, desses resíduos, mas a transformação deles em diversos objetos, até mesmo em roupas, também gera um faturamento considerável. Reportagem radiofônica do correspondente no Brasil, Jean-Claude Gerez. Ouça aquiLink externo.

Fonte: RTSLink externo, 20.03.2026 (em francês) 

Se você tem uma opinião, crítica ou gostaria de propor algum tema, nos escreva. Clique AQUI para enviar um e-mail.

Publicaremos nossa próxima revista da imprensa suíça em 27 de março. Enquanto isso, tenha um bom fim de semana e boa leitura!

Até a próxima semana!

Conteúdo externo
Não foi possível salvar sua assinatura. Por favor, tente novamente.
Quase terminado… Nós precisamos confirmar o seu endereço e-mail. Para finalizar o processo de inscrição, clique por favor no link do e-mail enviado por nós há pouco
Nossa newsletter sobre o que a imprensa suíça escreve sobre o Brasil, Portugal e a África lusófona.

Um resumo das notícias e opiniões mais recentes publicadas em jornais, revistas e portais da Suíça.

Toda semana

A política de privacidade da SRG SSR oferece informações adicionais sobre o processamento de dados. 

</span

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR