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Suíça relega mudanças climáticas a segundo plano

material informativo sobre a iniciativa do fundo climático exposto num armário
A iniciativa para um fundo climático foi rejeitada numa votação popular em 8 de março. Keystone / Peter Klaunzer

O clima e o aumento das temperaturas globais seguem como uma das principais preocupações da população do país alpino. No entanto, a maioria dos cidadãos votou contra investir mais dinheiro na transição ecológica. Por que isso acontece?

O resultado nas urnas foi claro: os suíços não querem aumentar o financiamento público para o clima, ou pelo menos não da forma defendida pelos partidos de esquerda e verdes. Na votação de 8 de março, 71% dos eleitores rejeitaram a iniciativa que previa o investimento anual de até 1% do produto interno bruto (PIB) em medidas para proteger o clima e a natureza.

No contexto atual, é difícil chegar a um consenso em torno de uma proposta que acarreta custos, mas que ninguém sabe como financiar, disse Cloé Jans, cientista política do instituto Gfs.bern. “As pessoas estão mais cautelosas”, disse à Swissinfo.

“Muitas pessoas temiam ter que arcar com os custos do próprio bolso, por exemplo, por meio de um aumento do ICM.”

Cloé Jans, political scientist

A Suíça está debatendo como o financiamento do 13º salário para os aposentados, aprovado por referendo em 2024, e o aumento dos gastos militares. A iniciativa para um fundo climático aparecia como uma terceira proposta ainda sem definição precisa sobre de onde viria o dinheiro, disse Jans. “Muitas pessoas temem ter que pagar do próprio bolso, por exemplo, por meio de um aumento nos impostos.”

Lena Maria Schaffer, professora de ciências políticas da Universidade de Lucerna, também considera que as pessoas estão menos dispostas a aceitar propostas que envolvam custos adicionais ou mudanças em seu estilo de vida.

“Vemos isso em Link externopesquisas internacionaisLink externo: 89% das pessoas dizem que os governos precisam fazer mais para combater as mudanças climáticas, mas quando a ação atinge a esfera individual, as pessoas ficam muito mais hesitantes”, disse à Swissinfo.

Mas não foram apenas os detalhes da iniciativa e os aspectos financeiros que influenciaram o voto. No momento, há questões consideradas mais importantes do que o clima, como a situação econômica, o aumento do custo de vida e a segurança, diz Jans. “O clima não é a principal prioridade.”

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Mudança nas prioridades

O clima ainda está muito presente na cabeça da população, observa Jans. De acordo com o Link externoBarômetro de PreocupaçõesLink externo publicado no final de 2025, a proteção ambiental e as mudanças climáticas ocupam o segundo lugar entre as principais preocupações da população suíça. Em primeiro lugar aparecem os custos com saúde e o aumento dos prêmios de seguro saúde.

O clima está entre as principais inquietações, mas agora as prioridades estão em outro lugar, diz ela. “Estamos em um contexto de crise, tanto econômica quanto geopolítica, com as guerras na Ucrânia e no Oriente Médio.”

Em comparação com alguns anos atrás, vivemos hoje em um mundo diferente, diz Jans. Isso também pode ser observado em outros países, por exemplo, nos Estados Unidos, onde o governo Trump desmantelou a política climática de seu antecessor e retirou o país do Acordo Climático de Paris.

Por enquanto, não há indícios de que a reviravolta climática dos EUA tenha influenciado o comportamento eleitoral na Suíça, considera Jans. “No entanto, está claro que hoje é mais aceitável relegar o clima a um segundo plano.”

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Perda de interesse

A queda na atenção com a questão climática também ficou evidente nas campanhas para a votação do começo de março. A iniciativa do fundo climático teve uma presença marginal no debate público, que ficou dominado pela proposta de redução do pagamento de rádio e televisão e pela reforma da tributação individual.

Uma análise da cobertura da mídia dedicada às questões em votação mostra em números: a iniciativa sobre o financiamento da mídia pública foi o foco de 416 artigos e reportagens de televisão, em comparação com 229 sobre a tributação individual e 124 sobre a iniciativa climática. Os dados são do monitoramento da mídia realizado pelo fög, o Instituto de Pesquisa sobre Opinião Pública e Sociedade da Universidade de Zurique, entre 15 de dezembro e 15 de fevereiro.

Os recursos investidos nas campanhas eleitorais também refletem a perda de popularidade das mudanças climáticas em comparação com questões percebidas como mais concretas e com efeitos imediatos no bolso. As campanhas a favor e contra a iniciativa climática mobilizaram um total de cerca de 2,3 milhões de francos suíços (3 milhões de dólares), menos da metade dos recursos financeiros utilizados para a iniciativa da mídia (cerca de 5,9 milhões de francos suíços).

Para Cloé Jans, “o clima não é mais tão sedutor quanto era em 2019”. Naquele ano, uma forte mobilização popular contribuiu para o sucesso do Partido Verde nas eleições federais. O clima, explica ela, entrou na agenda política graças à forte pressão do público e da sociedade civil. “No momento, essa pressão não existe mais.”

Muitas pessoas têm a impressão de que já foi feito o suficiente pela proteção climática e que os instrumentos existentes da política climática suíça são suficientes, disse Lukas Golder, também cientista político da gfs.berne, à emissora pública suíça SRF.

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Conceito abstrato

Cloé Jans destaca outro aspecto. Embora as pessoas estejam cientes de que é preciso agir agora, o clima – e suas repercussões – continuam sendo um conceito muito abstrato. “Percebemos que há enchentes e ondas de calor mais intensas, mas as consequências mais graves só se tornarão evidentes daqui a cerca de 20 anos”, diz.

Delphine Klopfenstein Broggini, deputada do Partido Verde, também observa que é difícil convencer as pessoas sobre a relevância das questões climáticas, pois são problemas de longo prazo. “Nesta sociedade do ‘tudo e agora’, as pessoas têm dificuldade em entender que, se não agirmos agora diante da crise climática, as consequências serão ainda mais graves”, disse ao jornal 24heures.

Também no 24heures, a vice-presidente do Partido Verde Liberal, Céline Weber, argumenta que é errado pensar que basta investir mais dinheiro para resolver a crise. “Temos que mostrar à população que a luta contra o aquecimento global é também uma oportunidade para a Suíça se concentrar em sua independência energética e criar empregos”, disse ela.

Lena Maria Schaffer concorda: o clima, e em particular a transição energética, não é mais uma questão isolada na qual simplesmente tomamos partido a favor ou contra. Suas repercussões afetam muitas áreas da vida cotidiana e também estão entrelaçadas com grandes turbulências geopolíticas globais.

Com a guerra no Irã, observa Schaffer, cresce a preocupação com o aumento dos preços da energia. Questões como a dependência do petróleo e os regimes autocráticos estão voltando ao centro do debate. “Tudo isso poderia dar um novo impulso à questão climática.”

Será que os conflitos que colocaram a crise climática em segundo plano agora podem trazê-la de volta aos holofotes? Essa hipótese será posta à prova em breve, quando o parlamento suíço debater a iniciativa para construir novas usinas nucleares e a iniciativa para impulsionar a energia solar na Suíça.

Edição: Samuel Jaberg/fh

Adaptação: Clarissa Levy

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