Cadeias globais em crise ameaçam remédios essenciais na Suíça
A crise no Oriente Médio voltou a expor a fragilidade das cadeias globais de medicamentos e reacendeu o debate sobre a segurança do abastecimento na Suíça. Apesar de medidas adotadas após a pandemia, o país ainda enfrenta escassez de medicamentos essenciais.
O bloqueio do Estreito de Ormuz há semanas prejudicou as cadeias de suprimentos e afetou o transporte de um quarto do gás mundial, levando ao aumento nos preços dos combustíveis. A Agência Internacional de Energia escreveLink externo que o mundo vive a “maior ameaça global à segurança energética da história”, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS) alertou para efeitos cascata em diversos setores, incluindo medicamentos e suprimentos essenciais.
Na Suíça, o Depto. Federal de Abastecimento Econômico (OFAELink externo, na sigla em francês) informa que nenhum setor corria risco de escassez, exceto o de bens terapêuticos, definidos como medicamentos essenciais, dispositivos médicos e produtos de higiene. Esses itens foram registrados no relatório publicado pelo órgão em 15 de abril, no qual também se considerou que a disponibilidade de alguns ingredientes farmacêuticos essenciais estava “limitada”.
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Por que o pólo farmacêutico mundial enfrenta escassez de remédios
Essa categoria de bens tem sido destacada em amarelo desde que o OFAE começou a codificar a escassez por cores, em maio de 2025: cerca de 140 medicamentos essenciais estão atualmente indisponíveis na Suíça. Eles fazem parte de um grupo mais amplo de mais de 500 medicamentos sob prescrição indisponíveis, devido à dependência da indústria farmacêutica de alguns mercados fornecedores.
As linhas de produção foram ainda mais enfraquecidas pelo conflito no Oriente Médio, que atrasou a entrega de produtos químicos fundamentais para fabricantes de medicamentos e equipamentos médicos na China, desacelerou a produção na Índia e elevou os custos globais de transporte.
Ainda não há escassez adicional de medicamentos, mas especialistas dizem que genéricos, como analgésicosLink externo, são particularmente vulneráveis a interrupções, porque são majoritariamente importados da Índia e da China. Eles estão sujeitos a altos custos de frete, não são considerados críticos e rendem pouco benefício financeiro em comparação aos medicamentos patenteados.
Durante a pandemia de Covid-19, a Suíça limitou temporariamente as vendas de paracetamol a uma caixa por paciente. Uma situação semelhante pode ocorrer em poucos meses, segundo especialistas.
A restauração das infraestruturas de energia levará vários meses, e o OFAE sinalizou que as entregas de mercadorias para a Europa atrasarão, independentemente de qualquer cessar-fogo entre o Irã e os Estados Unidos. “Você não pode simplesmente impedir que a escassez aconteça, mas pode estar preparado”, afirma Enea Martinelli, que faz parte do comitê de uma iniciativa cidadã que pressiona por uma melhor abordagem na aquisição de medicamentos.
Swissinfo analisa as medidas que a Suíça implementou para evitar a falta de remédios e quais mudanças foram feitas após a Covid-19, a última ameaça global ao suprimento de fármacos.
Quais medidas estão em vigor?
A Suíça tem a obrigação de manter estoques estratégicos de bens terapêuticos essenciais, como tratamentos contra o câncer, analgésicos e vacinas, suficientes para durar de cinco a seis meses. Desde 2015, os distribuidores também têm o dever de notificar as autoridades sobre riscos de escassez de medicamentos vitais que possam durar 14 dias ou mais. Uma lista de princípios ativos, atualizada regularmente, determina quais remédios são considerados essenciais, incluindo insulina e anticoagulantes.
Mas o país vem enfrentando a escassez de medicamentos desde o início dos anos 2000, devido à terceirização de etapas críticas de produção para países com baixos salários, à forte dependência de um pequeno número de locais de produção na Ásia e à redução dos níveis de estoque em toda a cadeia de valor.
Apesar de introduzir medidas adicionais desde 2006, como a modificação de leis para que hospitais sejam melhor abastecidos, crises globais, como a pandemia de Covid-19 ou o atual conflito no Oriente Médio, exacerbam sistematicamente o que o OFAE chama de “cadeias de suprimentos frágeis e interrompidas”.
E as novas medidas?
O país está atualmente modificando sua lei de epidemias, que visa proteger a população de doenças transmissíveis, para dar ao governo mais poder de intervenção. No caso de escassez de equipamentos médicos, por exemplo, o governo federal poderia intervir, em vez de depender apenas da colaboração do setor privado com os cantões (estados), como ocorre no sistema atual.
Desde 2023, para superar a escassez cotidiana de medicamentos vitais, a Suíça introduziu o reembolso de medicamentos preparados por farmácias, expandiu sua lista de remédios que salvam vidas e aprovou a venda fracionada de caixas de comprimidos.
Também concordou, em algumas circunstâncias, em abrir mão de avaliações regulares que reduzem os preços de medicamentos essenciais, com o objetivo de diminuir os custos de saúde. A medida busca dar aos fabricantes um incentivo para manter esses medicamentos disponíveis no mercado.
As cadeias de suprimento de medicamentos são particularmente complexas, o que significa que as soluções são difíceis de implementar. “Não se deve esperar medidas revolucionárias porque elas não funcionariam”, disse Martinelli.
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Escassez de remédios desafia farmácias e governos
No mês passado, após dois anos de pesquisa, o governo apresentou uma proposta ao parlamento: a curto prazo, as importações da União Europeia (UE) serão simplificadas, e as bulas multilíngues específicas da Suíça nas caixas de remédios serão substituídas por códigos QR, para facilitar a colaboração com produtos autorizados na UE.
Até o final de 2026, a Suíça começará a classificar todos os medicamentos aprovados no país em várias categorias, e não apenas os essenciais, para determinar seu uso e rastrear sua disponibilidade. Até lá, o site drugshortage.ch, criado por iniciativa própria de Martinelli em 2016, continuará sendo a única plataforma a rastrear todas as faltas de medicamentos.
Algumas dessas medidas já estão sendo aplicadas e, a longo prazo, o país espera modificar sua constituição para dar ao governo poderes adicionais, incluindo leis que criem incentivos econômicos para que os fabricantes continuem vendendo certos remédios.
Quais problemas persistem?
Embora medidas para produtos que salvam vidas tenham sido tomadas, os fabricantes não são obrigados a sinalizar a falta de medicamentos que não sejam considerados essenciais.
A Suíça sofre regularmente com a falta de remédios para doenças crônicas, pois não consegue planejar com antecedência. Por exemplo, o pó Nemluvio, da farmacêutica suíça Galderma, que trata eczemas graves, está fora de estoque desde o início de fevereiro. As autoridades autorizaram a importação de um produto idêntico comercializado na Alemanha.
O plano do governo de monitorar medicamentos para doenças crônicas chega com cerca de dez anos de atraso, segundo Martinelli, porque levará vários anos até ser implementado, já que as leis suíças podem demorar anos para serem aprovadas. “A situação muda muito rápido para que nosso sistema consiga lidar com ela, e nosso sistema político é lento demais”, afirma.
Caso o conflito no Oriente Médio cause mais falta de medicamentos, a Suíça recorreria ao seu estoque de medicamentos essenciais. Mas, para remédios que tratam doenças crônicas, o país não tem outra escolha senão “esperar para ver” e torcer pela colaboração internacional. “Estamos sozinhos. Esse é o problema”, diz Martinelli.
As cadeias de suprimento farmacêutico também são um risco para a UE, mas a diferença é que o bloco possui uma estratégia, em contraste com o “conceito de plano” da Suíça, explica Martinelli.
O reforço das exigências de estoque pela França, em setembro de 2021, é atualmente considerado uma boa prática em todo o bloco de 27 membros. Alguns países da UE também possuem restrições de exportação, o que significa que, quando um produto se torna escasso, ele não será vendido fora das fronteiras do bloco, excluindo, assim, a Suíça.
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O papel da Eslovênia na cadeia de suprimentos farmacêutica global
O Departamento Federal de Saúde Pública (BAG) da Suíça tem seu próprio departamento internacional, “que mantém contato regular com outros grupos de trabalho internacionais sobre essas questões”, declara o porta-voz do OFAE.
No entanto, o tamanho do mercado suíço será sempre um ponto crítico. “A Suíça é um mercado pequeno para os padrões internacionais e, portanto, menos atraente para empresas que operam em escala global, o que agrava a situação (por exemplo, com empresas se retirando do mercado)”, acrescenta o porta-voz.
No ano passado, a multinacional farmacêutica Roche retirou seu tratamento contra o câncer Lunsumio do mercado suíço porque não conseguiu chegar a um acordo sobre o preço com o órgão regulador nacional.
Enquanto isso, em Interlaken, cidade no cantão de Berna, a fabricante de ampolas e bolsas de perfusão (soros e fluidos intravenosos), Bichsel, anunciou que fechará no final do ano devido a dificuldades financeiras, deixando apenas uma empresa, a Streuli, encarregada de fornecer ao país equipamentos médicos fundamentais para qualquer tratamento, publicouLink externo a mídia local.
Para Martinelli, estabelecer completamente linhas de produção na Suíça não é uma opção realista por razões de custo, e resolver a escassez de medicamentos exigirá uma mudança de paradigma: deixar de tratar os tratamentos como uma questão econômica para abordá-los como uma questão terapêutica. “Hoje em dia, mesmo que um tratamento seja muito importante, se ele não for mais lucrativo, deixará de existir na Suíça, e é nisso que a Suíça precisa trabalhar”, afirma.
Edição: Virginie Mangin/gw
Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl
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