Vacina da Aids ainda vai demorar
Os resultados das cerca de 80 variantes de vacinas contra o virus HIV testadas até agora ainda são modestos, mas há urgência para conter a pandemia de AIDS.
800 cientistas, inclusive muitos brasileiros, estiveram reunidos durante três dias na Suíça para o Congresso Vacina Aids 2004.
“Há uma necessidade urgente de uma vacina preventiva para conter a pandemia da Aids. É um desafio científico por uma causa humanitária”, afirmou o suíço Giuseppe Pantaleo, presidente do Congresso Vacina Aids 2004, encerrado quarta-feira, em Lausanne, oeste da Suíça.
Esforço sem precedentes
Cerca de 800 cientistas do mundo inteiro estiveram reunidos durante três dias e houve quase uma centena de relatos sobre o avanço das pesquisas e dos testes da vacina.
Universidades, Fundações públicas e privadas, instituições governamentais etc. tentam trabalhar juntas “num esforço sem precendentes”, como afirma Paulo Feijó Barroso, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).
Cerca de 80 variantes de vacinas já foram testadas, até agora sem grandes resultados. Um dos objetivos do Congresso de Lausanne foi enfatizar a necessidade de criar normas comuns para testar e avaliar os resultados das vacinas. A Fundação Eurovacc, sediada na Suíça, anunciou que serão divulgados dados por país e por continente.
“Esse Congresso mostra uma preocupação cada vez maior com essa área de vacinas, que ficou esquecida muito tempo, a partir do aparecimento de medicamentos mais potentes”, explica Dirceu Greco, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
“A perspecitiva imediata não é otimista não. Vacina com um virus complexo, mutável e de difícil controle como o HIV vai ter um desenvolvimento lento, caro e que precisa de um envolvimento internacional muito grande”, acrescenta Dirceu Greco.
O Prêmio Nobel de Medicina Rolf Zinkernagel, diretor do Instituto de Imunologia Experimental da Universidade de Zurique, confirma que “a complexidade do virus nos obriga a um otimismo reservado”.
Causa humanitária
Desde que foi diagnosticada, em 1981, a Aids já provocou a morte de 20 milhões de pessoas, segundo o Programa das Nações Unidas Contra a Aids (UNAIDS).
Apesar de planetária, ela se tornou pandêmica nos países pobres. Dos 38 milhões de pessoas infectadas atualmente, 70% estão na África subsaariana. As projeções são de 45 milhões de novos casos de contaminação até 2010. Por isso Giuseeppe Panataleo fala em “causa humanitária”.
No Brasil, foram notificados 300 mil casos de Aids e metade das pessoas faleceram. Existem atualmente 150 mil pessoas em tratamento. Segundo estimativas do Ministério da Saúde, há aproximadamente 500 mil pessoas infectadas e a maioria não sabe, com uma média de 40 mil novos casos por ano.
A busca de uma vacina precisa de muitos recursos e essa necessidade também foi enfatizada no Congresso de Lausanne. Nos Estados Unidos, o orçamento para as pesquisas passará de 250 para 400 milhões de dólares por ano. Os europeus têm muito menos recursos e reivindicam 1 bilhão de euros por ano, para os próximos dez anos.
Questão estratégica
“Precisamos ter uma estratégia para que o Brasil não sirva apenas de campo de testes, como ocorreu com outros medicamentos. Temos de criar capacitação em pesquisa porque, cedo ou tarde, surgirão os produtos”, afirma Luis Brígido, responsável da Unidade Vacinas no Ministério da Saúde.
“A pesquisa no Brasil em Aids tem avançado muito nos últimos anos no sentido de entender as variantes virais que circulam no país”, afirma Mariza Gonçalves Morgado, chefe do laboratório Aids da Fundação Oswaldo Cruz (FIOCRUZ).
“Isso é importante para o desenvolvimento e testagem de vacinas e tentar entender a resistência aos medicamentos retrovirais. Em quase todo o Brasil existem as variantes B e F do virus HIV, com exceção da região sul, onde predomina a variante C, como na África”, explica a bióloga.
Outro exemplo é o de Célio Silva, da Universidade de São Paulo (USP), que trabalha com desenvolvimento de vacinas desde 1992. “Nossa área de interesse é de tuberculose e conseguimos desenvolver uma nova vacina, preventiva e terapêutica”, explica o pesquisador.
Tecnologia própria
“Mas aí tivemos problemas porque não é competência da universidade fazer o desenvolvimento, a indústria nacional não tem competência para produzir uma vacina de terceira geração em escala industrial e as multinacionais não se interessam porque tuberculose é doença do terceiro mundo”.
Foi criada então uma rede brasileira de pesquisa em tuberculose, com 52 instituições e 300 pesquisadores no Brasil inteiro. “Desenvolvemos plataformas tecnológicas para produção de vacinas e medicamentos no Brasil e isso também poderá servir para o HIV no Brasil, inclusive em colaboração com institutos estrangeiros, como na França, por exemplo”.
Vacina em duas etapas
Dada a complexidade da tarefa, os pesquisadores trabalham atualmente com a hipótese de uma vacina que não vai proporcionar uma proteção total contra o HIV mas o manterá em níveis baixos no organismo. Assim poderá prolongar o prazo de desenvolvimento do virus. Será, portanto, destinado às pessoas infectadas.
A vacina definitiva que neutralizaria o virus é prevista para muito mais tarde, “dentro de dez anos ou muito mais”, afirmou o presidente do Congresso 2004, Giuseppe Pantaleo.
swissinfo, Claudinê Gonçalves, Lausanne
Desde 1981:
20 milhões de mortos
31 milhões de infectados
70% na África subsaariana
Projeção para 2010: 45 milhões de infectados
– Os pesquisadores trabalham atualmente com uma vacina intermediária, destinada às pessoas infectadas, que prolongaria o período de incubação do virus.
– A vacina definitiva, que imunizaria contra o HIV, viria muito depois.
– 150 mil pessoas infectadas estão em tratamento atualmente no Brasil.
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