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Genebra sob tutela federal

Ilustração que retrata os motins em Genebra em 1864
Em 1864, as eleições para o Conselho de Estado desencadearam violentos motins em Genebra. Desenho retirado da revista «Monde illustré» de 3 de setembro de 1864. Bibliothèque de Genève

Em 1864, a eleição para o Conselho de Estado de Genebra desencadeou violentos distúrbios na "Cidade de Calvino". A Confederação Suíça foi forçada a intervir e ocupar militarmente a região por vários meses.

swissinfo.ch publica regularmente artigos provenientes do blog do Museu Nacional da SuíçaLink externo, dedicados a assuntos históricos. Esses artigos estão sempre disponíveis em alemão e, geralmente, também em francês e inglês.

Em 1846, James Fazy derrubou o governo oligárquico (sistema político em que o poder é concentrado nas mãos de poucas famílias ou grupos privilegiados) de Genebra, após este ter se recusado a apoiar a dissolução do Sonderbund (liga defensiva formada por sete cantões católicos conservadores que se opunham à centralização da Suíça). Seu partido, os RadicaisLink externo, assumiu então o poder de forma duradoura.

Ao instaurar uma democracia representativa e fundar a Constituição de 1847, o regime fazysta presidiria o destino de Genebra até 1861. Durante esses anos, mudanças profundas transformaram o rosto da cidade, com o avanço da laicização (processo de separação entre as instituições do Estado e a Igreja) e a destruição das antigas fortificações, que deram lugar a novos bairros urbanos.

James Fazy
Retrato de James Fazy, datado da década de 1870. Musée national suisse

Em 1861, Fazy sofreu uma derrota. Sua gestão autoritária enfrentou uma oposição que reunia Independentes, conservadores e liberais. Eles organizaram o isolamento político de Fazy e acabaram por impedir sua reeleição ao Conselho de Estado (o poder executivo do cantão, equivalente a um governo estadual).

No entanto, como permanecia o pilar e a principal “peça-chave” de sua vertente política, o orador revolucionário conseguiu ingressar no Grande Conselho (o poder legislativo cantonal, semelhante a uma assembleia legislativa), de onde continuou a influenciar a política genebrina. De fato, apesar de sua expulsão do alto escalão, o governo ainda era composto exclusivamente por homens de seu partido: Adolphe Fontanel, Moïse Jacques Piguet, Moïse Vautier, Marc Mottet, Jacques Fol-Bry e Jean-Jacques Challet-Venel, futuro Conselheiro Federal (membro do governo executivo nacional da Suíça).

Embora sua derrota eleitoral tenha sido uma afronta, não era da natureza de James Fazy desistir. O genebrino tinha a firme intenção de retornar ao centro do poder da Cidade de Calvino.

Ilustração representando Genebra em 1862
Genebra passou por um período de grandes mudanças na década de 1860. Vista da cidade nessa época. Bibliothèque de Genève

Em um clima de fortes tensões entre Radicais e Independentes, uma nova Assembleia Constituinte foi formada em junho de 1862 com o objetivo de revisar a Constituição de Genebra. O projeto, contudo, foi rejeitado nas urnas por votação popular.

Foi nesse contexto extremamente tenso que ocorreram as eleições de 21 de agosto de 1864. O resultado, em pleno verão, teve o efeito de uma bomba. James Fazy, que tentava retornar ao Conselho de Estado, foi novamente rejeitado. Amplamente apoiado pelos membros de seu partido, o conservador Arthur Chenevière foi declarado vencedor por 337 votos, apenas alguns boletins a mais do que Fazy.

Arthur Chenevière
No verão de 1864, Arthur Chenevière conquistou o lugar de James Fazy no Conselho de Estado de Genebra, com uma vantagem mínima. Retrato de Chenevière por volta de 1870. Bibliothèque de Genève

A pequena diferença inflamou os ânimos dos Radicais mais ferrenhos. Seus membros, que controlavam a comissão eleitoral, não demoraram a declarar o pleito inválido no dia seguinte, alegando fraudes. Logo, cartazes cobriram os muros da cidade, convocando os Radicais à mobilização:

“Povo de Genebra! O Grande Bureau, único juiz soberano da eleição do Conselho Geral […] não validou a eleição que acaba de ocorrer. Os cidadãos radicais e todos os amigos da Constituição são chamados a se reunir para defender a Constituição e as leis perante a decisão soberana do Grande Bureau.”

(Apelo dos Radicais pela anulação da eleição)

A acusação foi a gota d’água. Esse último ultraje, considerado abusivo e até tirânico, foi visto como uma declaração de guerra pelos Independentes, que iniciaram uma insurreição (revolta armada contra a autoridade). O motim espalhou-se por várias ruas da cidade e foi suficientemente assustador para que Élie Ducommun (futuro Prêmio Nobel da Paz e então chanceler do Estado de Genebra) decidisse telegrafar com urgência ao Conselho Federal.

O alerta foi dado em 22 de agosto de 1864, pouco depois das 13 horas. Mas era tarde demais. Os dois clãs políticos estavam nas ruas ao mesmo tempo; os Independentes, ao ocuparem o arsenal e confrontarem os Conselheiros de Estado, levaram os Radicais a sacarem suas armas. Um tiroteio eclodiu por volta das 16h30, perto da rua de Chantepoulet, deixando vários mortos em um cortejo conservador.

Ilustração do motim de Genebra de 22 de agosto de 1864
Genebra, 22 de agosto de 1864: um tiroteio causa várias mortes na Rue de Chantepoulet. Bibliothèque de Genève

Ironia do destino: no mesmo dia, a primeira Convenção de Genebra, que tratava da melhoria da sorte dos feridos e doentes das forças armadas em campanha, era assinada por dezesseis Estados na Prefeitura da cidade.

A reação imediata das autoridades federais não foi surpresa. Elas nomearam o Conselheiro Federal do cantão de Vaud, Constant Fornerod (então chefe do Ministério da Defesa), como comissário para Genebra. No dia seguinte, 23 de agosto, tropas federais ocuparam a Cidade de Calvino para restaurar a ordem. Os principais envolvidos foram rapidamente identificados e presos.

Quadro representando a assinatura da primeira Convenção de Genebra em 1864
Assinatura da primeira Convenção de Genebra, em 22 de agosto de 1864. Quadro de Edouard Armond-Dumaresq. Wikimédia

A insurreição genebrina causou grande comoção na Suíça, e a intervenção da Confederação no cantão foi vista como uma medida razoável e coerente.

A intervenção federal, no entanto, não parou por aí. Em 2 de setembro de 1864, a Confederação validou oficialmente a eleição de Arthur Chenevière.

Caso para o Tribunal Federal

Finalmente, o Tribunal Federal (a suprema corte da Suíça), que só passaria a ter sede permanente em Lausanne a partir de 1875, foi convocado. Um colegiado de juízes reuniu-se sob a presidência do conselheiro de Estado de Vaud, Victor Ruffy: o prefeito de Cully, Louis Mercanton; o relojoeiro Victor Chappuis; o tabelião Victor Bernard; o prefeito de Ecublens, Henri-Vincent Masson; além de Jean-Louis Loup e François Vignier.

A investigação durou três meses e resultou, após a oitiva de centenas de testemunhas, no indiciamento de 54 indivíduos. Após a intervenção da Câmara de Acusação, apenas 14 deles foram levados a julgamento em dezembro. O processo ocorreu no Palácio Eleitoral de Genebra. O edifício era grande o suficiente para abrigar o público que compareceu em massa para ouvir as acusações do procurador-geral, o conservador William TurrettiniLink externo.

Dada a gravidade dos eventos e as tensões que ainda agitavam a cidade, a Confederação enviou, no início de dezembro de 1864, pouco antes do início do julgamento, um batalhão de Berna sob o comando do major Luginbühl para manter a ordem caso as paixões se reacendessem. Isso não foi necessário, e o tribunal pôde proferir seu veredito sem grandes dificuldades, condenando vários homens à prisão.

Ilustração do julgamento dos autores da insurreição de Genebra em 1864.
Em dezembro de 1864, realizou-se no Palácio Eleitoral o julgamento dos responsáveis pela insurreição de Genebra. O evento despertou grande interesse entre o público. Bibliothèque de Genève

O Exército federal retirou-se em janeiro de 1865, após ocupar a cidade por quatro meses. A memória desses eventos é pouco preservada em Genebra, que prefere recordar episódios históricos mais gloriosos, como a EscaladeLink externo (celebração da vitória de Genebra contra o ataque das tropas do Duque de Saboia em 1602).

A tutela de Genebra demonstrou que a jovem autoridade federal era capaz de se impor. Além disso, houve uma clara consolidação interna do país.

Cerca de 17 anos após a guerra do Sonderbund, grandes esforços foram feitos para não permitir que um conflito político local degenerasse em uma nova guerra civil que envolvesse toda a Suíça. Embora muitos cidadãos genebrinos tenham se sentido humilhados, a intervenção das tropas federais contribuiu, sem dúvida, para a estabilização da cidade e fez com que muitos contemporâneos percebessem a necessidade de Genebra se integrar ainda mais ao sistema federal suíço.

Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl

Christophe Vuilleumier é historiador e membro do comitê da Sociedade Suíça de História. É autor de diversas contribuições sobre a história helvética dos séculos 17 e 20.

Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo

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