Genebra sob tutela federal
Em 1864, a eleição para o Conselho de Estado de Genebra desencadeou violentos distúrbios na "Cidade de Calvino". A Confederação Suíça foi forçada a intervir e ocupar militarmente a região por vários meses.
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Em 1846, James Fazy derrubou o governo oligárquico (sistema político em que o poder é concentrado nas mãos de poucas famílias ou grupos privilegiados) de Genebra, após este ter se recusado a apoiar a dissolução do Sonderbund (liga defensiva formada por sete cantões católicos conservadores que se opunham à centralização da Suíça). Seu partido, os RadicaisLink externo, assumiu então o poder de forma duradoura.
Ao instaurar uma democracia representativa e fundar a Constituição de 1847, o regime fazysta presidiria o destino de Genebra até 1861. Durante esses anos, mudanças profundas transformaram o rosto da cidade, com o avanço da laicização (processo de separação entre as instituições do Estado e a Igreja) e a destruição das antigas fortificações, que deram lugar a novos bairros urbanos.
Em 1861, Fazy sofreu uma derrota. Sua gestão autoritária enfrentou uma oposição que reunia Independentes, conservadores e liberais. Eles organizaram o isolamento político de Fazy e acabaram por impedir sua reeleição ao Conselho de Estado (o poder executivo do cantão, equivalente a um governo estadual).
No entanto, como permanecia o pilar e a principal “peça-chave” de sua vertente política, o orador revolucionário conseguiu ingressar no Grande Conselho (o poder legislativo cantonal, semelhante a uma assembleia legislativa), de onde continuou a influenciar a política genebrina. De fato, apesar de sua expulsão do alto escalão, o governo ainda era composto exclusivamente por homens de seu partido: Adolphe Fontanel, Moïse Jacques Piguet, Moïse Vautier, Marc Mottet, Jacques Fol-Bry e Jean-Jacques Challet-Venel, futuro Conselheiro Federal (membro do governo executivo nacional da Suíça).
Embora sua derrota eleitoral tenha sido uma afronta, não era da natureza de James Fazy desistir. O genebrino tinha a firme intenção de retornar ao centro do poder da Cidade de Calvino.
Em um clima de fortes tensões entre Radicais e Independentes, uma nova Assembleia Constituinte foi formada em junho de 1862 com o objetivo de revisar a Constituição de Genebra. O projeto, contudo, foi rejeitado nas urnas por votação popular.
Foi nesse contexto extremamente tenso que ocorreram as eleições de 21 de agosto de 1864. O resultado, em pleno verão, teve o efeito de uma bomba. James Fazy, que tentava retornar ao Conselho de Estado, foi novamente rejeitado. Amplamente apoiado pelos membros de seu partido, o conservador Arthur Chenevière foi declarado vencedor por 337 votos, apenas alguns boletins a mais do que Fazy.
A pequena diferença inflamou os ânimos dos Radicais mais ferrenhos. Seus membros, que controlavam a comissão eleitoral, não demoraram a declarar o pleito inválido no dia seguinte, alegando fraudes. Logo, cartazes cobriram os muros da cidade, convocando os Radicais à mobilização:
“Povo de Genebra! O Grande Bureau, único juiz soberano da eleição do Conselho Geral […] não validou a eleição que acaba de ocorrer. Os cidadãos radicais e todos os amigos da Constituição são chamados a se reunir para defender a Constituição e as leis perante a decisão soberana do Grande Bureau.”
(Apelo dos Radicais pela anulação da eleição)
A acusação foi a gota d’água. Esse último ultraje, considerado abusivo e até tirânico, foi visto como uma declaração de guerra pelos Independentes, que iniciaram uma insurreição (revolta armada contra a autoridade). O motim espalhou-se por várias ruas da cidade e foi suficientemente assustador para que Élie Ducommun (futuro Prêmio Nobel da Paz e então chanceler do Estado de Genebra) decidisse telegrafar com urgência ao Conselho Federal.
O alerta foi dado em 22 de agosto de 1864, pouco depois das 13 horas. Mas era tarde demais. Os dois clãs políticos estavam nas ruas ao mesmo tempo; os Independentes, ao ocuparem o arsenal e confrontarem os Conselheiros de Estado, levaram os Radicais a sacarem suas armas. Um tiroteio eclodiu por volta das 16h30, perto da rua de Chantepoulet, deixando vários mortos em um cortejo conservador.
Ironia do destino: no mesmo dia, a primeira Convenção de Genebra, que tratava da melhoria da sorte dos feridos e doentes das forças armadas em campanha, era assinada por dezesseis Estados na Prefeitura da cidade.
A reação imediata das autoridades federais não foi surpresa. Elas nomearam o Conselheiro Federal do cantão de Vaud, Constant Fornerod (então chefe do Ministério da Defesa), como comissário para Genebra. No dia seguinte, 23 de agosto, tropas federais ocuparam a Cidade de Calvino para restaurar a ordem. Os principais envolvidos foram rapidamente identificados e presos.
A insurreição genebrina causou grande comoção na Suíça, e a intervenção da Confederação no cantão foi vista como uma medida razoável e coerente.
A intervenção federal, no entanto, não parou por aí. Em 2 de setembro de 1864, a Confederação validou oficialmente a eleição de Arthur Chenevière.
Caso para o Tribunal Federal
Finalmente, o Tribunal Federal (a suprema corte da Suíça), que só passaria a ter sede permanente em Lausanne a partir de 1875, foi convocado. Um colegiado de juízes reuniu-se sob a presidência do conselheiro de Estado de Vaud, Victor Ruffy: o prefeito de Cully, Louis Mercanton; o relojoeiro Victor Chappuis; o tabelião Victor Bernard; o prefeito de Ecublens, Henri-Vincent Masson; além de Jean-Louis Loup e François Vignier.
A investigação durou três meses e resultou, após a oitiva de centenas de testemunhas, no indiciamento de 54 indivíduos. Após a intervenção da Câmara de Acusação, apenas 14 deles foram levados a julgamento em dezembro. O processo ocorreu no Palácio Eleitoral de Genebra. O edifício era grande o suficiente para abrigar o público que compareceu em massa para ouvir as acusações do procurador-geral, o conservador William TurrettiniLink externo.
Dada a gravidade dos eventos e as tensões que ainda agitavam a cidade, a Confederação enviou, no início de dezembro de 1864, pouco antes do início do julgamento, um batalhão de Berna sob o comando do major Luginbühl para manter a ordem caso as paixões se reacendessem. Isso não foi necessário, e o tribunal pôde proferir seu veredito sem grandes dificuldades, condenando vários homens à prisão.
O Exército federal retirou-se em janeiro de 1865, após ocupar a cidade por quatro meses. A memória desses eventos é pouco preservada em Genebra, que prefere recordar episódios históricos mais gloriosos, como a EscaladeLink externo (celebração da vitória de Genebra contra o ataque das tropas do Duque de Saboia em 1602).
A tutela de Genebra demonstrou que a jovem autoridade federal era capaz de se impor. Além disso, houve uma clara consolidação interna do país.
Cerca de 17 anos após a guerra do Sonderbund, grandes esforços foram feitos para não permitir que um conflito político local degenerasse em uma nova guerra civil que envolvesse toda a Suíça. Embora muitos cidadãos genebrinos tenham se sentido humilhados, a intervenção das tropas federais contribuiu, sem dúvida, para a estabilização da cidade e fez com que muitos contemporâneos percebessem a necessidade de Genebra se integrar ainda mais ao sistema federal suíço.
Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl
Christophe Vuilleumier é historiador e membro do comitê da Sociedade Suíça de História. É autor de diversas contribuições sobre a história helvética dos séculos 17 e 20.
Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo
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