The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Promover a democracia, mas qual?

Daniel Bochsler

As suíças e os suíços têm uma compreensão própria e bastante peculiar de democracia. O cientista político Daniel Bochsler argumenta que essa concepção não deveria ocupar o primeiro plano na promoção da democracia em escala mundial.

A promoção da democracia em todo o mundo é um dos pilares da política externa suíça, conforme estabelece o artigo 54 da Constituição Federal. SegundoLink externo uma pesquisa de opinião, nove em cada dez suíços apoiam a ideia de que a Suíça deva promover a democracia em sua política externa. Contudo, a compreensão suíça da democracia é tão singular que surge a pergunta: será que o país é realmente adequado para desempenhar o papel de promotor da democracia?

Democracia é um conceito polissêmico. Tão polissêmico que, por exemplo, o Estado oficialmente denominado “República Popular Democrática da Coreia” é justamente a Coreia do Norte, ou que Viktor Orbán proclamou uma “democracia iliberal”, expressão que serviu como manto ideológico para o enfraquecimento da liberdade de imprensa e da independência do poder judiciário. Mas, mesmo deixando de lado rótulos enganosos como esses, os princípios e as regras associados à democracia variam consideravelmente de um país para outro. Por isso, quando se trata de política externa voltada para a promoção da democracia, impõe-se a pergunta fundamental: qual democracia deve ser promovida?

A população suíça oferece uma resposta clara a essa questão. No âmbito do European Social SurveyLink externo, a maior pesquisa sociológica da Europa, investigou-se o núcleo da compreensão de democracia em 36 países europeus. Os suíços destacaram-se por uma concepção de democracia bastante peculiar. Em primeiro lugar, demonstraram estar muito satisfeitos com o seu próprio sistema democrático. Além disso, em quatro de quinze questões específicas, e ao longo de duas rodadas da sondagem, ficou evidente o quanto os suíços priorizam objetivos e princípios de forma diferente da maioria dos demais europeus.

Mostrar mais
Pessoas olhando para cartazes em uma vitrine

Mostrar mais

Suíça mantém meta de promover democracia apesar de retrocessos

Este conteúdo foi publicado em A Suíça lança diretrizes para defender a democracia global. Com menos foco em transições e mais em evitar retrocessos, o país adapta sua política externa ao cenário autoritário de 2025.

ler mais Suíça mantém meta de promover democracia apesar de retrocessos

As duas dimensões da excepcionalidade suíça

O caso suíço pode ser dividido em duas dimensões. Por um lado, os entrevistados suíços associam a democracia ao debate público que precede as decisões políticas, bem como aos referendos e às iniciativas populares. Por outro, vinculam a democracia, em menor grau do que a maioria dos europeus, às instituições representativas, como eleições e partidos políticos.

Conteúdo externo

Sobretudo, a ideia de que o governo pode ser constituído e substituído por meio de eleições ocupa um lugar relativamente secundário na concepção de democracia dos suíços. O aspecto mais notável é que os direitos de democracia direta são considerados muito mais importantes pelos suíços do que as eleições e os princípios da democracia representativa. Isso não acontece em nenhum outro lugar da Europa. É importante notar que as perguntas não se referiam à descrição da democracia no próprio país; ela buscava identificar o que, na opinião dos entrevistados, caracteriza uma democracia autêntica.

Poderia se imaginar que, ao pensar no conceito de democracia, os suíços têm em mente a Landsgemeinde (Assembleia Cantonal) de Glarus ou de Appenzell-Rodes Interiores, na qual os cidadãos debatem e decidem diretamente, enquanto os partidos desempenham apenas um papel secundário. Aliás, essa imagem da democracia é mais forte precisamente na região do país onde ainda existem as Landsgemeinden: ela é sobretudo difundida na Suíça de língua alemã, ao passo que a Suíça francófona e italófona se aproximam mais da média europeia.

Instituições mantêm a Suíça unida

A democracia direta trouxe muitas vantagens à Suíça, provavelmente até algumas das quais os próprios suíços não têm plena consciência. Na ausência de uma língua ou de uma religião comum, nada mantém a Suíça unida a não ser suas instituições. Entre elas, os domingos de votação ocupam, sem dúvida, um lugar central: embora revelem regularmente divisões e antagonismos, também reúnem os diferentes campos políticos em alianças sempre renovadas. Se dermos crédito a dois economistasLink externo, a democracia direta torna os suíços até mais felizes.

Mas como promover a democracia em outros países a partir dessa concepção? É possível fomentar a democracia tomando como modelo uma ordem constitucional que inclui um governo colegiado, votações por referendo acompanhadas de contrapropostas e questões subsidiárias de desempate, além de controvérsias sobre quais propostas submetidas a referendo devem estar sujeitas à exigência da dupla maioria dos eleitores e dos cantões?

Fora o Uruguai, não existe nenhum país que tenha modelado suas instituições constitucionais segundo as da Suíça. Isso aconteceu, porém, há mais de um século e sem qualquer intervenção da política externa suíça, mas como consequência de uma viagem de estudos à Suíça realizada pelo presidente uruguaio e pai da constituição do país, José Batlle y Ordóñez.

Tensões na promoção da democracia

A tradição suíça de democracia direta é reconhecida e frequentemente admirada em todo o mundo, mas exerce atração sobretudo sobre populistas. Além disso, o argumento de que a democracia direta deve prevalecer sobre a democracia eleitoral foi repetidamente instrumentalizado por figuras como Hugo Chávez e Ilham Aliyev, quando procuraram legitimar, por meio de pseudorreferendos, revisões constitucionais destinadas a esvaziar a própria democracia. A referência ao referendo constitucional suíço fez parte do arsenal argumentativo desses dirigentes, tanto na Venezuela quanto no Azerbaijão.

Mostrar mais
Local de votação. Mãe com carrinho de bebé

Mostrar mais

Eleições globais

Ditaduras usam referendos para legitimar poder

Este conteúdo foi publicado em Ditaduras também usam referendos para legitimar poder. Sem liberdade de imprensa e regras claras, votações dificilmente são justas, embora, em raros casos, tenham levado à democratização.

ler mais Ditaduras usam referendos para legitimar poder

Por isso, a concepção particular de democracia dos suíços também gera tensões no campo da promoção da democracia e desperta dúvidas quanto à possibilidade de esse modelo servir de instrumento eficaz em outros contextos.

As dúvidas dos constituintes e formuladores de sistemas políticos ao redor do mundo quanto à possibilidade de uma democracia direta moldada segundo o modelo suíço funcionar em seus países provavelmente são ainda mais acentuadas do que as de suas próprias populações. E, mesmo quando consideram essa possibilidade, tendem a enxergá-la apenas em âmbito local.

A Suíça pode, no entanto, distinguir-se em sua política externa de promoção da democracia por meio do incentivo ao federalismo e da criação de instituições democráticas em países multiétnicos ou em sociedades que emergem de conflitos. Exemplos frequentemente citados são o Nepal e a Colômbia.

Mostrar mais
Duas pessoas com uniformes militares dando as mãos

Mostrar mais

Eleições globais

Nepal constrói paz após guerra com apoio da Suíça

Este conteúdo foi publicado em Após 10 anos de guerra, o Nepal virou república com apoio da Suíça. Hoje, apesar dos avanços democráticos, o país ainda lida com desigualdade, protestos e desafios na consolidação da paz.

ler mais Nepal constrói paz após guerra com apoio da Suíça

A Suíça também ocupa posição de destaque na promoção da liberdade de imprensa e da sociedade civil – fundamentos essenciais da democracia que desempenharam um papel central na própria história suíça. Que a perspectiva interna e a externa enfatizem aspectos diferentes não é algo incomum; o mesmo ocorre no domínio das exportações econômicas.

No caso da exportação da democracia, porém, isso exige dos atores políticos envolvidos sensibilidade, discernimento e uma consciência particularmente aguda da legitimidade dos diferentes modelos democráticos. Os promotores suíços da democracia devem ter em conta tanto a vontade do soberano (o eleitorado) em seu próprio país quanto os desafios e a concepção predominante de democracia nos países aos quais se dirigem seus esforços.

Edição: Benjamin von Wyl

Adaptação: Karleno Bocarro

As opiniões expressas pela autora não refletem necessariamente as da Swissinfo.

Mostrar mais

Debate
Moderador: Benjamin von Wyl

Você já participou de plebiscitos?

Você já participou de um plebiscito? Escreva para nós sobre as suas experiências.

2 Curtidas
20 Comentários
Visualizar a discussão

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR