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Vista geral de rio poluído que passa pela favela de Alexandra, em Johanesburgo, África do Sul, em 15 de julho de 2014

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A morte de três bebês após a ingestão de água da bica contaminada com esgoto virou um símbolo trágico da luta travada na África do Sul para dar conta da enxurrada de pessoas que chegam a cidades projetadas na época do apartheid para abastecer a minúscula minoria branca.

Os pobres, como sempre acontece no mundo em desenvolvimento, carregam o fardo da escassez de água e do acesso irregular a este recurso, com comunidades afetadas pela seca às vezes virando palco de protestos mortais.

As três crianças, a mais jovem delas com cinco meses, morreram na semana passada, depois que a bactéria "Escherichia coli" contaminou a água potável em Bloemhof, pequena cidade a sudoeste de Johannesburgo.

As autoridades das cidades atribuíram a contaminação ao vazamento de esgoto para um açude, levando mais de cem pessoas a sofrer de diarreia.

"Todo mundo reconhece que nossa infra-estrutura é antiga. Como uma cidade pequena, estamos enfrentando dificuldades de financiamento", admitiu o porta-voz do conselho municipal, Oatile Letebele.

"É um problema com o qual estamos lutando", acrescentou.

Uma investigação, realizada pelo jornal City Press, este mês, revelou que 15 bebês faleceram na pequena cidade da província North West, após consumir água contaminada. A "E. coli" foi novamente identificada como a principal causa da contaminação.

Enquanto bebês morriam, comunidades de todo o país foram às ruas nos últimos meses para protestar contra a falta d'água, frequentemente com consequências mortais.

As mortes em Bloemhof foram registradas depois de confrontos em uma empobrecida cidade a noroeste da capital, Pretória.

As bicas em Mothutlung ficaram secas por dias, deixando os moradores dependentes do abastecimento intermitente de carros-pipa. Pessoas adoeceram, o que levou a protestos violentos, nos quais policiais dispararam contra os manifestantes.

Cinco pessoas morreram nos confrontos e a atuação da polícia está sob investigação.

Os incidentes ocorreram semanas antes das quintas eleições democráticas do país, chamando atenção para os desafios sociais que afetam a economia mais desenvolvida da África.

Antes do fim do regime do apartheid e da ascensão ao poder do Congresso Nacional Africano, em 1994, o acesso de pessoas negras às cidades era limitado e a infraestrutura favorecia poucos.

- Problemas generalizados -

Embora admita "problemas generalizados" na cadeia de abastecimento de água, o governo assegura que 90% da população agora têm acesso à água limpa e promete que responderá aos desafios.

Segundo o Departamento de Assuntos Hídricos, a "rápida urbanização" dificultou o cumprimento de metas, mas está "em processo de renovar a antiga infraestrutura com um custo enorme".

A proporção da população sul-africana de 52 milhões de pessoas vivendo em áreas urbanas aumentou de 52% em 1990 para 62% em 2011, segundo uma pesquisa realizada pelo Instituto Sul-africano de Relações Raciais (SAIRR), no ano passado.

De acordo com o instituto, as principais causas deste aumento foram o trânsito mais livre de pessoas desde o fim do apartheid e a busca por trabalho, enquanto observou que o fenômeno trouxe maiores problemas para a provisão de serviços nas novas cidades.

O crescimento mais rápido ocorreu nas cidades menores sul-africanas, sobretudo devido a pequenas populações iniciais e à crescente atividade econômica, prosseguiu.

As estatísticas e os desafios trazem pouco conforto para as mães que perderam os filhos em Bloemhof.

"Estou furiosa", disse Keabetswe Wageng, a jovem mãe do bebê de cinco meses morto em junho após sofrer uma diarreia severa.

"Foi por causa da água", declarou à AFP.

Os problemas hídricos vão muito além das áreas urbanas e se estendem para regiões do país que têm poucas chuvas. Em algumas cidades afastadas, os moradores compartilham a água barrenta de poços com os animais de criação.

Segundo o Conselho de Pesquisa Científica e Industrial, a África do Sul tem uma média anual de chuvas de 450 milímetros, cerca da metade da média mundial.

AFP