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Venezuela: Carmona, que sacudiu o chavismo, condena 'tirania' de Maduro

O ex-líder empresarial venezuelano Pedro Carmona, que ocupou brevemente a presidência durante o frustrado golpe de Estado contra Hugo Chávez, em 2002, fala em entrevista à AFP, em Bogotá, em 8 de fevereiro de 2019 afp_tickers
Este conteúdo foi publicado em 10. fevereiro 2019 - 17:55
(AFP)

O venezuelano Pedro Carmona, que ocupou brevemente a presidência durante o frustrado golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002, acredita que seu país sofre uma "tirania", considera legítimo o opositor Juan Guaidó como transição para novas eleições, mas rejeita qualquer intervenção militar.

"Eu chamo o regime chavista-madurista de tirania absoluta", declarou Carmona em uma entrevista exclusiva para a AFP, em Bogotá, onde viveu os últimos 17 anos como beneficiário de asilo político.

O ex-chefe da Fedecámaras, associação que reúne os empresários venezuelanos, aplaude a "legitimidade total" da equipe de Guaidó, reconhecido como presidente interino por cerca de 50 países. Ele ressalta, porém, que o opositor do presidente Nicolás Maduro "tem um papel apenas temporário" e que deve "convocar eleições".

Embora se oponha a qualquer intervenção militar, Carmona, de 77 anos, acredita que a Venezuela se tornou uma "ameaça" para a comunidade internacional e diz que "tudo mudará", caso as Forças Armadas peçam a Maduro para respeitar a Constituição.

O agora diretor do Instituto de Hidrocarbonetos, Minas e Energia da universidade privada Sergio Arboleda, de Bogotá, avalia que a economia da antiga potência petroleira, minada pela hiperinflação, pode dar uma "virada" no "curto prazo", se o governo mudar.

Para ele, superar a crise provocada pela migração de mais dois milhões de venezuelanos desde 2015, segundo números da ONU, exige que a Venezuela passe por "uma etapa de reconciliação sem que signifique, necessariamente, impunidade para todos".

Confira abaixo os principais trechos da entrevista:

- Alguns classificam o regime de Nicolás Maduro de "ditadura". O que você acha disso?

"Não é ditadura, é uma tirania (...) quando se fala de tirania ou absolutismo é que todos os estamentos de uma sociedade são transversais e as instituições republicanas são substituídas e, claro, um povo é subjugado, tentando-se implantar uma ideologia. (...) Não tem uma palha que se possa mover no país, sem a intervenção do Estado (...) Eu chamo o regime chavista-madurista de uma tirania absoluta".

- Qual é o papel de Juan Guaidó?

"Vejo a legitimidade total desse governo (...) também com um objetivo, convocar eleições (...) Acho que ele está indo bem (...) E a responsabilidade que Juan Guaidó tem, fácil não é, mas parece ir por um caminho que, na minha opinião, não tem volta (...) Diria que Guaidó tem um papel apenas temporário.

Quando houver eleições na Venezuela, é necessário um grande pacto, ou aliança, nacional para assegurar a governabilidade (...) Um partido sozinho não poderia governar o país com facilidade no médio prazo (...) Eu acho que até poderiam caber figuras da esquerda democrática, o que não cabe é da esquerda totalitária".

-Você é a favor de uma intervenção militar?

"Intervenções militares unilaterais, não. Concordo que haja tentativas de que entre a ajuda humanitária para um povo necessitado, faminto (...) mas uma intervenção unilateral dos Estados Unidos eu não estaria de acordo.

O país tem que entrar em uma etapa de reconciliação sem que isso signifique necessariamente impunidade para todos. Promover uma lei de anistia para os que não tenham cometido crimes contra a humanidade é uma forma de lhes dar garantias de que não haverá perseguição nem uma caça às bruxas. O que mais me preocupa é que as feridas que vão ficar na população pela fratura e pela luta de classes que foi semeada cicatrizem.

- Por que a Venezuela é importante para o resto do mundo?

"Transformada em um Estado falido, em um Estado fora-da-lei, em um narco-Estado, além desse problema da diáspora, transforma a Venezuela em um país que é uma ameaça para a comunidade internacional.

Não há dúvida de que na administração Trump há uma posição publicamente expressa e muito firme para contribuir para o resgate da democracia (...) Pensar que só os Estados Unidos só veem petróleo na Venezuela, poderíamos dizer o mesmo sobre a Rússia e a China".

- Você acredita que Maduro deixará o poder?

"Tenho todas as esperanças, e esperanças fundadas.

A Venezuela é um cenário geopolítico complicado hoje porque confluem Cuba (...) China, Rússia, Turquia, Irã, o mundo islâmico, o Fórum de São Paulo, o crime organizado e a guerrilha colombiana (...) De alguna maneira isso lhe dá um apoio, mas não é um apoio permanente (...) Os militares venezuelanos não têm que dar um golpe de Estado para que Maduro vá embora. Basta que os militares digam 'respeite a constituição' e tudo muda, ou 'não vamos reprimir os protestos populares' e tudo mudaria".

- Por que falhou em 2002?

Talvez um erro, que eu percebo em retrospectiva, tenha sido que no estamento militar, por exemplo, houve oposição a que Chávez tenha ido para Cuba quando foi deposto (...) porque o povo não entenderia que uma pessoa com as mãos manchadas de sangue saísse impunemente ao exterior... isso na minha opinião foi um erro.

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