Pavilhão suíço debate diferenças e convivência em Veneza
O pavilhão suíço na Bienal de Veneza 2026Link externo propõe uma reflexão crítica sobre convivência, diferenças sociais e espaço público. A partir de arquivos históricos da televisão, artistas e curadores questionam a imagem da Suíça como símbolo de consenso e neutralidade.
O pavilhão suíço se destaca com o projeto intitulado The Unfinished Business of Living TogetherLink externo (n.r.: O assunto inacabado de viver junto), uma exploração crítica das dinâmicas de coexistência e das tensões que atravessam uma sociedade marcada pelas diferenças. Em um país que frequentemente se define como uma chamada “WillensnationLink externo“, uma nação que existe graças à vontade de viver em conjunto, o tema assume um significado particular.
Como o próprio título sugere, a mostra não oferece soluções definitivas: “Viver junto é algo inacabado, e talvez deva permanecer assim para ser levado a sério”, explica Gianmaria Andreetta, um dos curadores, aos jornalistas reunidos no Pavilhão suíço.
É uma afirmação que dá o tom de todo o projeto. Aqui, a convivência não é um valor tranquilizador, mas um terreno atravessado por atritos, tensões e negociações contínuas.
Pela primeira vez na história da participação suíça, a contribuição nacional foi selecionada por meio de um concurso aberto, que contou com a apresentação de 140 candidaturas. A escolha do júri, presidido pelo diretor da Fundação Cultural Pro HelvetiaLink externo, Philippe Bischof, recaiu sobre um coletivo intergeracional e multilíngue, composto pelos curadores Gianmaria Andreetta e Luca Beeler, pela artista britânica Nina Wakeford e pelos artistas Miriam Laura Leonardi, Lithic Alliance e Yul Tomatala.
Retornar ao passado para entender o presente
No centro do projeto veneziano estão imagens televisivas do passado. Dois antigos programas – Telearena (SRF, 1978) e Agora (RTS, 1984) – tornam-se o ponto de partida para uma reflexão que atravessa o tempo.
Na época, esses programas abordavam, ao vivo e com métodos pioneiros, diversos temas, entre os quais o que era definido como o “problema do homossexualismo”. Não eram simples programas de auditório: eram construídos a partir de breves cenas teatrais que encenavam situações cotidianas para provocar o debate entre o público no estúdio.
Hoje, essas imagens são retomadas, desmontadas e reativadas. Não por nostalgia, mas para entender como nasce um “problema público”. “O que significa viver junto quando a diferença se torna algo que uma sociedade deve organizar, admitir, conter, expor?”, questiona Andreetta.
A pergunta é dirigida mais ao espectador do que ao passado. Na Bienal, o público é convidado a interrogar a si mesmo: que tipo de público somos capazes de ser hoje?
A rquivo que não para de agir
A abordagem do pavilhão suíço em relação ao material de arquivo é inovadora. O projeto é coletivo no sentido pleno: as obras de Nina Wakeford, Miriam Laura Leonardi, Lithic Alliance e Yul Tomatala não apenas acompanham o arquivo, mas introduzem outros ritmos, outros corpos, outras formas de linguagem e de memória. Paralelamente às duas transmissões televisivas, explica Andreetta, “as obras dos artistas trabalham a partir de deslocamentos semelhantes: filmagens teatrais, drag, deslocamentos temporais, encenações históricas, imagens dentro de outras imagens”.
Através dessas técnicas, o arquivo televisivo é reativado e “interrompido”, revelando seus mecanismos ideológicos e ressonâncias contemporâneas. A mostra trabalha com a insistência, não com a representação. O arquivo, nesse sentido, não é passado; é algo que continua a agir, a vibrar no presente.
Essa abordagem se alinha perfeitamente com a justificativa do júri da Pro Helvetia, que premiou o projeto por sua capacidade de “utilizar material de arquivo midiático como ponto de partida para uma pesquisa artística sobre o presente”, atingindo “um nervo exposto dos nossos tempos”.
Construir juntos
A própria maneira como o projeto foi construído reflete seu conteúdo. O coletivo reúne artistas vindos de diversas regiões linguísticas da Suíça e de contextos internacionais.
“Uma mostra que fala de viver junto deve atravessar a dificuldade de trabalhar junto”, observa Andreetta durante a coletiva de imprensa. As diferenças não são suavizadas, mas tornam-se parte integrante do processo.
O resultado é uma espécie de “gramática comum” que não apaga as divergências, mas as mantém em tensão.
No contexto suíço contemporâneo, essa exposição assume um forte valor crítico. O projeto questiona a imagem de um país que gosta de se descrever por meio do consenso, da neutralidade e da estabilidade.
Aqui, por outro lado, a convivência não é neutra: é um sistema que organiza as diferenças, estabelecendo o que é aceito e o que permanece às margens.
Neste cenário, até a dimensão linguística se torna um terreno de confronto. “Em uma mostra que fala de visibilidade e de espaço público, a língua é política”, afirma Andreetta: ela estabelece quem pode falar e quem não pode.
Ao fim, o pavilhão suíço não oferece respostas, mas obriga o público a tomar uma posição: sobre a maneira como, hoje, estamos dispostos – ou não – a viver juntos, e sobre quais condições tornam essa convivência realmente possível.
Edição: Daniele Mariani
Adaptação: Alexander Thoele
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.