Começo difícil e oportunidades perdidas para o biatlo suíço
O biatlo deveria ser, em princípio, o esporte suíço por excelência. Combinando esqui de fundo e tiro com carabina, ele incorpora com perfeição o espírito de defesa e a cultura do esqui que moldam o país. Contudo, essa modalidade nunca conseguiu realmente se destacar na Suíça, ao contrário do que ocorreu na Alemanha e nos países escandinavos. Por quê?
swissinfo.ch publica regularmente artigos provenientes do blog do Museu Nacional da SuíçaLink externo, dedicados a assuntos históricos. Esses artigos estão sempre disponíveis em alemão e, geralmente, também em francês e inglês.
As provas masculina e feminina de biatlo fazem atualmente parte do programa dos Jogos Olímpicos de Inverno. Apesar da popularidade e da tradição secular dos esportes de inverno e do tiro na Suíça, essa modalidade esportiva ainda tem dificuldade para encontrar seu espaço no país. A história do biatlo suíço é marcada por rupturas e por interpretações muito particulares: esse esporte teve de se afirmar diante de outras modalidades que, embora semelhantes, pertenciam a uma tradição diferente.
O biatlo fez sua estreia olímpica nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1960, em Squaw Valley. A Suíça, porém, considerada uma nação por excelência do esqui e do tiro, não participou das provas. Vista retrospectivamente, essa ausência parece absurda e foi, na época, duramente criticada pela imprensa. O país dispunha de boas condições e praticamente já tinha todas as cartas na mão: “Uma prova que combina esqui de fundo e tiro não tem nada de revolucionário entre nós. A Suíça não é, afinal, o país das corridas de patrulhas com esqui!”, escreveuLink externo o jornal Der Bund em 27 de março de 1960.
Em 1960, o sueco Klas Lestander conquistou a primeira medalha de ouro olímpica no biatlo (YouTube).
A patrulha de esqui mencionada no artigo, uma especialidade suíça que combina esqui de fundo e tiro com armas de grande calibre, inseria-se então numa tradição de quase 60 anos. Já no final do século 19, os soldados do GotardoLink externo passaram a ser equipados com esquis no quartel de Andermatt. Competições começaram a acontecer ali a partir de 1902, antes de serem oficialmente estabelecidas, sete anos depois, como corridas de patrulhas militares em esqui. A ampliação da fortaleza do Gotardo até 1920 também contribuiu, além disso, para reforçar a imagem do soldado experimente que se desloca de esquis no chamado “Reduto Alpino”.
A corrida de patrulhas, contudo, não evoluiu para um esporte de elite, pois a Federação Suíça de Esqui (FSS, hoje Swiss Ski) decidiu, já em 1936, distanciar-se das disciplinas esportivas militares. O exército foi, portanto, obrigado a organizar sozinho seus campeonatos, que permaneceram baseados em Andermatt.
Os patrulheiros de esqui suíços destacaram-se tanto no plano nacional quanto internacional. Seus feitos foram celebrados, entre outros eventos, nos campeonatos mundiais militares organizados pelo Conselho Internacional do Desporto Militar (CISMLink externo), ainda disputados hoje, e também nos Jogos Olímpicos de Inverno de 1948, em Saint-Moritz. Nessa ocasião, a Suíça venceu Finlândia e Suécia numa corrida de patrulhas militaresLink externo incluída como prova de demonstração.
O esporte olímpico iniciou então um processo de desmilitarização: o Comitê Olímpico Internacional (COI) distanciou-se das competições militares e retirou as corridas de patrulhas do programa. A imprensa suíça demonstrou, portanto, surpresa quando o biatlo passou a integrar os Jogos Olímpicos de Inverno em 1960, em Squaw Valley.
Os meios de comunicação e grande parte do exército suíço viram nisso a reintegração de uma prova militar. O biatlo, porém, não se limitava a essa interpretação. No exterior, essa nova disciplina esportiva era percebida de outra maneira: enquanto a Suíça, ainda ancorada na lógica do Reduto Alpino, considerava o biatlo como uma extensão da patrulha militar com esqui, o COI – e mais tarde a União Internacional de Biatlo (IBU), fundada em 1993 – esforçavam-se para construir outra narrativa fundadora.
Segundo essa versão, as origens do biatlo remontariam à caça praticada na Idade da Pedra. O argumento apresentado pelo COI e pela IBU baseava-se em pinturas rupestres norueguesas. Essa interpretação era, evidentemente, bastante questionável: as federações internacionais ignoravam assim a tradição militar dos regimentos de esquiLink externo escandinavos e russos.
Apenas algumas semanas após os Jogos Olímpicos de Inverno de 1960 em Squaw Valley, nos quais a Suíça teve um desempenho modesto, o Exército Suíço decidiu organizar competições de biatlo em Sörenberg (no cantão de Lucerna). Essas provas, porém, não eram consideradas uma nova modalidade esportiva, mas antes um teste destinado a avaliar sua utilidade no treinamento dos soldados suíços.
A abordagem militar predominava. A participação era, portanto, estritamente reservada aos militares, e as mulheres, naturalmente, eram excluídas. Os resultados foram decepcionantes. Os soldados, exaustos, raramente conseguiam acertar os pequenos discos do tamanho de uma moeda de cinco francos. Os alvos utilizados nas corridas de patrulha com esqui eram, de fato, bem maiores.
Os biatletas suíços intensificaram então o treinamento de tiro, mas ainda assim retornaram de mãos vazias dos campeonatos mundiais militares do Conselho Internacional do Desporto Militar (CISM) de 1961, realizados em Andermatt, que já incluíam o biatlo.
A imagem da Suíça como nação do esqui e do tiro estava, no mínimo, arranhada. Os anos seguintes tampouco foram mais brilhantes. O jornal valaisano Nouvelliste du Rhône não mediu palavras: “Biatlo: os filhos serão dignos dos pais (frase conhecida)… Mas o nosso herói Guilherme Tell, ele próprio, teria corado de vergonha.”
A crise de identidade esportiva atingiu seu auge em 1964, durante os Jogos Olímpicos de Inverno de Innsbruck: a Suíça não conquistou nenhuma medalha em nenhuma modalidade. O biatlo, disciplina exigente que combina resistência e precisão, não seria então feito para os filhos de Guilherme Tell?
O fracasso de Innsbruck abalou a classe política e as federações esportivas, dando origem a reivindicações no campo da política esportiva. Em resposta à pequena interpelação do conselheiro nacional radical bernês Erich Weisskopf, que defendia um reforço do apoio estatal ao biatlo, o governo declarou em março de 1964: “Ao contrário do que afirma o parlamentar, o biatlo não é uma competição militar, mas uma disciplina esportiva civil que combina esqui de fundo e prova de tiro.”
Consequentemente, um apoio financeiro era considerado inviável. O Conselho Federal da Suíça temia que uma leitura militar do biatlo provocasse a fragmentação dos tradicionais esportes de inverno militares, até então apoiados pelo Estado.
O incentivo ao esporte a serviço da aptidão para a defesa
Essa recusa se devia principalmente ao fato de que, na época, apenas as modalidades esportivas consideradas relevantes para a capacidade de defesa recebiam apoio financeiro da Confederação. Como o governo considerava que o biatlo não tinha importância militar, o Conselho Federal continuou a privilegiar os esportes de inverno militares tradicionais, indo assim na contramão da tendência internacional.
Há aqui uma certa ironia histórica: modalidades como natação e ginástica artística, cuja relação com as capacidades militares parece, à primeira vista, muito menos evidente, já faziam parte havia muito tempo do programaLink externo de incentivo ao esporte. O governo provavelmente perdeu uma oportunidade em 1964.
Enquanto o biatlo já recebia apoio na Escandinávia, na Alemanha e também em outros países como a França, a Suíça – nação do esqui e do tiro – demorou a acompanhar essa evolução.
Foi preciso esperar até os Campeonatos Mundiais Juniores de Biatlo de 1995, realizados em Realp (cantão de Uri), para que um verdadeiro impulso permitisse, finalmente, que a modalidade se impusesse. A primeira infraestrutura suíça dedicada ao biatlo foi construída no Oberland uranês.
Como os campeonatos haviam sido inicialmente previstos para Lenk (cantão de Berna), o complexo não era uma instalação planejada com cuidado, de tamanho adequado e concebida para o treinamento específico dos atletas; tratava-se antes de uma infraestrutura provisória montada às pressas. O pedido de licença de construção foi apresentado apenas no verão anterior. Houve desmatamento, o WWF de Uri interveio, e a infraestrutura acabou se tornando um assunto político de caráter tipicamente local: a construção começou antes mesmo da concessão da licença.
A infraestrutura de Realp representou uma virada importante na história do biatlo suíço. Situada perto do centro esportivo do Exército Suíço em Andermatt e protegida do Föhn (vento quente alpino), ela desfrutava de uma localização ideal. Em agosto de 2002, a instalação provisória foi substituída por uma estrutura moderna, capaz de receber também treinamentos de verão.
A construção tinha uma importância crucial para a região de UrserenLink externo. O vale enfrentava então a retirada progressiva do exército, o que provocava uma transformação estrutural na economia local e ameaçava os empregos da região.
A criação do Escritório Federal do Esporte em Macolin, em 1998, e a nova lei de incentivo ao esporte de 2011, que mencionava pela primeira vez o apoio ao esporte de alto rendimento, estabeleceram condições ideais para evitar que fracassos esportivos de inverno como os de Jogos Olímpicos de Inverno de 1960 em Squaw Valley e os de Jogos Olímpicos de Inverno de 1964 em Innsbruck se repetissem.
O terceiro lugar do uranês Matthias Simmen nos Campeonatos Mundiais de Biatlo de Verão de 2008Link externo, bem como outros bons resultados obtidos entre 2005 e 2011, marcaram os primeiros sucessos internacionais.
Desde os anos 2000, atletas como as irmãs Gasparin, além de Amy Baserga, Lena Haecki-Gross, Benjamin Weger e Niklas Hartweg, conquistaram excelentes classificações e numerosas medalhas. Selina Gasparin chegou inclusive a ganhar a medalha de prata na prova individual dos Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi.
Reportagem sobre Jérémy Finello no canal RTS:
O incentivo também se estendeu aos níveis juniores desde que a Swiss Ski (Federação Suíça de Esqui) passou a integrar sob sua responsabilidade a Federação Suíça de Biatlo, que na época atravessava um período difícil e enfrentava problemas financeiros.
O Exército Suíço também começou a incentivar indiretamente o biatlo: a formação de soldados esportistasLink externo oferece, em particular às mulheres, uma excelente oportunidade de conquistar um lugar no esporte de elite.
O biatlo suíço de alto nível certamente ainda não atingiu todo o seu potencial. A nação do esqui e do tiro tinha, desde o início, condições ideais. Se a imagem dos soldados-esquiadores moldou uma identidade suíça favorável a essa modalidade, o seu enraizamento na lógica do Reduto Alpino ao mesmo tempo freou sua evolução rumo ao esporte de elite. Aos olhos dos oficiais e do Conselho Federal Suíço, o biatlo não oferecia vantagens para a defesa do país. Assim, durante muito tempo se permaneceu preso ao esporte militar e às patrulhas de esqui, sem perceber plenamente que os tempos estavam mudando.
Foi necessário esperar pela criação da instalação de biatlo de Realp, que posteriormente se tornou centro nacional de treinamento, bem como pelo apoio ao esporte de alto rendimento – iniciado relativamente tarde em comparação internacional – e, mais recentemente, pela construção em Lenzerheide de uma infraestrutura homologada para a Copa do Mundo de Biatlo, para que o caminho do sucesso fosse finalmente traçado.
Hoje, esse esporte espetacular e cativante conquista um público amplo, além de investidores privados e patrocinadores poderosos, oferecendo boas perspectivas para a conquista de medalhas, com os esquis nos pés e o fuzil ao ombro.
Adaptação: Karleno Bocarro
Michael Jucker é historiador, diretor da associação História dos Esportes Suíços e codiretor do museu do clube de futebol de Zurique.
Link para o artigo original publicado no blog do Museu Nacional SuíçoLink externo
Este texto é fruto de uma colaboração com Swiss Sports History, portal dedicado à história do esporte suíço. A iniciativa tem como objetivo oferecer recursos pedagógicos, além de informações para a imprensa, pesquisadores e o público em geral. Para saber mais, acesse o portal sportshistory.ch.Link externo
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