Embaixador destronado ataca a imprensa
O ex-diplomata Thomas Borer, que durante meses esteve sob o foco da imprensa sensacionalista e já foi chamado até de "embaixador engraçado", dá entrevista exclusiva à swissinfo.
Na conversa, Borer ataca o poder da imprensa e explica por que a Suíça não quer se integrar à União Européia.
Se existem poucos suíços conhecidos no exterior, um deles é seguramente Thomas Borer, que atualmente viaja por países de língua alemã para apresentar o seu livro “Public Affairs – confissões de um diplomata”.
A obra autobiográfica conta a história desse suíço que, aos 39 anos, foi promovido ao cargo de embaixador ao ser nomeado em 1996 chefe da comissão – “task force”. Esta havia sido encarregada de negociar nos Estados Unidos indenizações pagas pelos bancos suíços aos proprietários das contas inativas na época da 2a Guerra Mundial.
Bem sucedido no trabalho quase considerado impossível, Thomas Borer foi nomeado em 1999 ao cargo mais prestigioso da diplomacia suíça: a de embaixador na Alemanha.
Porém ele não durou muito tempo no assento em Berlim: devido às suas fantásticas atividades de relações públicas, como uma bombástica festa nacional suíça em Berlim, participações em carnavais e um suposto caso amoroso com uma vendedora de perfumes, o embaixador terminou caindo com estardalhaço na imprensa alemã e suíça em agosto de 2002.
Hoje, o ex-diplomata atua como consultor de empresas no eixo Berlim-Suíça-Bruxellas e Washington e apresenta em livrarias o seu tema preferido: – “Public Affairs”, ou a arte das relações públicas na política.
Você conhece o Brasil?
Thomas Borer: Meus postos diplomáticos foram na África e na América do Norte. Porém eu já estive na maior parte dos países da América Latina, seja em viagens privadas ou diplomáticas. Lembro-me também que já participei de negociações no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Bolívia, Venezuela, etc. Veja então: eu conheço quase a metade do continente.
Como você vê hoje em dia a imprensa?
A imprensa adquiriu, na nossa democracia, uma posição de poder que não é mais controlada. Porém nós não podemos generalizar: não existe “a Imprensa”, pois na sua variedade ela dispõe também de representantes sérios. O perigo é a imprensa sensacionalista, que generaliza e gosta de atacar a esfera pessoal das pessoas. Esse é um setor que nós todos, como cidadãos, devemos corrigir.
Já que você conhece bem a Alemanha, sabe também que na época do governo Kohl existia um respeito dos jornalistas frente à esfera pessoal dos homens do poder. Porém no governo do chanceler Schröder, essa situação modificou-se completamente.
Pessoas que têm uma vida pública devem aprender a viver com crítica. Porém não tenho nada contra quando ela é feita contra a atuação política ou econômica do governante. Porém, a esfera pessoal e a personalidade da pessoa devem ser protegidas. A imprensa não deve assumir um poder de Estado de controle. Nós lutamos centenas de anos para que o Estado não mais pudesse intervir em todos os setores da vida das pessoas e não pudesse mais vigiá-las: por exemplo, num Estado de controle total, com controle telefônico, espionagem, etc. O Estado que nós criamos não deve ser substituído por determinadas mídias.
Mas a fronteira que existe entre a proteção à esfera pessoal dos governantes e a abertura que eles dão através de campanhas de relações públicas é muito tênue, ou não?
A mídia personaliza tudo. Eles só podem transmitir conteúdo através das pessoas e não mais através de argumentos. Através dessa prática é fácil de acabar no palco da opinião pública. A Suíça é representada no exterior através dos seus embaixadores. Quando este é atrativo e interessante, é muito fácil ter destaque da imprensa numa cidade como Berlim, onde atuam um número impressionante de mídias, num país de 83 milhões de habitantes.
Porém muitos vêem na Suíça um país pequeno, folclórico e amorfo. Você concorda com essa tese?
Muitas vezes a imagem da Suíça no exterior não é correta. Meu trabalho como embaixador na Alemanha era de corrigir e melhorar essa imagem. A Suíça é uma potência média que, em muitos aspectos, também é moderna e de vanguarda. Nós temos outras coisas além das belas montanhas, chocolates e relógios. O meu trabalho era exatamente tentar mostrar um outro lado mais moderno, aberto e diverso da Suíça além dos mitos.
Qual é o seu campo de atuação?
Meu trabalho é de representar os interesses econômicos de empresas na União Européia em Bruxelas, em Berlim e em Washington, frente ao governo americano. Por isso eu vivo na Suíça, Alemanha e EUA.
Na sua opinião, é preciso haver um melhor lobby para a Suíça no exterior?
Normalmente a Suíça é apresentada como um país pequeno. A realidade é que ela não é pequena: temos afinal o décimo sexto maior PIB do mundo (detalhe da redação: o terceiro maior PIB do mundo per capita). Em diversos setores, como força de investimento, inovação na economia e educação, ela encontra-se nas primeiras posições. Nós deveríamos ser mais bem sucedidos em transferir o peso econômico que temos em influência política. Isso significa que, na política externa da Suíça, precisamos nos concentrar em algumas questões que são decisivas para nós e assim evitar a dispersão.
O Brasil encontra-se numa situação semelhante: trata-se de um gigante econômico, porém sem voz no cenário internacional. Na sua opinião, qual poderia ser o papel desse país?
O Brasil é um país com um potencial incrível, um país também belíssimo, com um povo dinâmico. Eu, desde pequeno, torço pela seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo e quase sempre sou bem sucedido. Brasil deve aprender a aproveitar da globalização, a abrir seus mercados e liberalizá-los, colocando em prática seu potencial. Só se o Brasil conseguir reforçar seu poderio econômico, ele será capaz de ter um papel central na política mundial, como é o caso da Índia.
De acordo com os resultados dos últimos plebiscitos e pesquisas, os suíços são contra a integração do país à União Européia. Como suíço morando no exterior, qual a sua opinião sobre o assunto?
Nessa década, a Suíça não irá integrar-se à União Européia. Talvez isso ocorra nesse milênio (risos).
Seria culpa da famosa “posição de porco-espinho”?
Não, de forma nenhuma. A Suíça tem boas razões políticas e econômicas para não se integrar à União Européia. Politicamente, a integração poderia colocar em risco o sistema de democracia direta e a identidade suíça, caso este seja modificado. Economicamente, ressalto que a Suíça é um país que irá contribuir financeiramente e não receber recursos da União Européia. Porém, essa União Européia tem, muitas vezes, uma política incorreta de centralismo, impostos altos, gastos elevados, inflexibilidade no mercado de trabalho, etc. Ao mesmo tempo, a Suíça é um país profundamente europeu. Com esse continente somos ligados do ponto de vista econômico, político e cultural. Por isso nós ainda podemos viver sem a União Européia.
swissinfo, Alexander Thoele
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