A paixão portuguesa do maestro Michel Corboz
Michel Corboz é desde há muito reconhecido como um dos mais importantes regentes corais. O maestro suíço que criou o Ensemble Vocal de Lausanne em 1961, e que durante 50 anos foi seu regente, mantém com Portugal uma relação de décadas que se funde com a vida musical portuguesa.
Em 1964 Corboz é convidado para Maestro Titular do Coro Gulbenkian. E o fantástico, nos nossos dias, é que a relação perdura até hoje.
Digressões, discos e prémios de prestígio fazem parte do reconhecimento internacional do seu trabalho com o Coro Gulbenkian.
A mais recente apresentação do maestro, em Portugal, foi no programa de Páscoa da Fundação Calouste Gulbenkian. De novo à frente do Coro e da Orquestra Gulbenkian, com Paixão segundo São João revisitou a obra de Johann Sebastian Bach. Momentos antes do terceiro e último concerto do programa de Lisboa, Michel Corboz, no seu camarim, falou com swissinfo.ch.
Dar alma para atingir a felicidade
Corboz começa por nos revelar que, apesar dos 78 anos de idade e de todos os concertos serem diferentes, sem que pense nisso, antes de cada concerto se sente “sempre um pouco nervoso, um pouco frágil.” E que existe sempre um certo medo. O “medo de não fazer os outros felizes” porque num concerto “um maestro quer que esse concerto seja um sucesso. Quer que todas as pessoas que estão na sala fiquem o mais feliz possível.”
Uma felicidade que passa pelo equilíbrio entre o verdadeiro e o belo. Uma busca incessante que se transforma num combate a cada concerto, “mesmo com o mesmo maestro e os mesmos executantes.” Um “mistério da música” que faz parte da procura constante de Corboz: “É preciso que eu não cesse de viver isso durante todo o concerto, se não eu passo ao lado da música. Dirijo, mas é tudo. Dirigir não que dizer nada, é fazer gestos. O mais importante é dar alma. Tentar dar um outro respirar às pessoas. Estabelecer que a música seja quase como que improvisada, uma forma de criação nesse momento.”
Do sangue vem o amor
Quando se fala de felicidade partilhada com o público, Michel Corboz relembra o episódio mais marcante com o Coro Gulbnekian. Foi em meados da década de 90, numa digressão que passou pelo Brasil e Argentina, no Teatro de Montevideu (Uruguai) com Elias de Felix Mendelssohn.
Além de outras ”recordações fantásticas”, salienta que “aí foi excecional!” Viveu um “momento de amor” que nunca mais esquecerá: “aí sentimos que o público estava em fusão total com os cantores e com a orquestra. E quando deixámos a sala, todo o público estava na rua aguardando por nós.”
“O sangue” é a explicação para a sua forma de amar e sentir tão intensamente a música. Um avô, que nunca chegou a conhecer, pois faleceu quando tinha dois anos de idade, “fundou vários coros de Igreja e compôs música”. O pai “adorava cantar num coral”. Um tio, que era professor de música, ocupou-se da sua formação a partir dos 7 anos de idade. Acolheu-o em sua casa para lhe ensinar música. “Foi a melhor lição que alguma vez tive.” Mas sem nunca pensar que “seria um Maestro”.
Em relação a Bach, o seu compositor de eleição relembra que, ainda criança, “mal ouvia Bach na radio, corria para o ouvir melhor. Não sabia que iria dirigir Bach, mas sabia que Bach seria algo na minha vida. Teria um lugar muito importante na minha vida.” Com um sorriso acrescenta: “Sempre amei Bach. Amo todos os compositores na história da música que se inspiraram em Bach. Mesmo Brahms ou Schumann.”
Entre Lausanne e Lisboa
Em 1961, Corboz funda o Ensemble Vocal de Lausanne. Um Ensemble de 25 pessoas com quem grava os primeiros discos. Em 1969 grava as Vésperas de Monteverdi, trabalho com que ganha o Prémio Charles Cros e alcança enorme sucesso.
Entretanto, a sua relação com a Fundação Calouste Gulbenkian inicia-se em 1964. Desde então que, no verão, passa um mês em Lisboa a dar um curso de iniciação à Direção Coral dirigido a padres, freiras e professores de Música de liceu. E assim conhece Olga Violante, a primeira Diretora do Coro Gulbenkian. Mas, Olga Violante, “uma senhora muito culta e simpática”, vem a falecer em 1969. Michel Corboz, então com 35 anos, a convite de Madalena Perdigão, Diretora do Serviço de Música da Fundação, passa a ser o responsável pelo Coro Gulbenkian. A partir deste momento a sua vida será dividida entre Lausanne e Lisboa. O maestro suíço faz de Portugal a sua segunda pátria.
Em 2011, após 50 anos à frente do Ensemble Vocal de Lausanne, passou o testemunho ao seu antigo aluno Guillaume Tourniaire. Uma decisão que “não foi fácil”. Foi tomada “porque foi encontrado o bom sucessor” e “queria sair enquanto ainda era capaz de fazer música.”
Sobre o futuro da sua relação com Portugal, Michel Corboz revela que vai continuar a fazer concertos no país, “sobretudo o que concerne à música sacra e à música de Bach” e continuará a trabalhar como Maestro Titular do Coro Gulbenkian, desenvolvendo uma atividade de “responsável pelo espírito sob o qual as pessoas trabalham a música.”
Michel Corboz
: Um bom Maestro é aquele que se mete de pé, olha para as pessoas … e cantam. Mesmo sem grandes gestos. Dirigir não é um bom termo, animar é um bom termo. Animar é dar uma alma. Dirigir é tentar impor-se face aos outros com uma batuta ou com um braço.
Fundado em 1964, o Coro Gulbenkian conta presentemente com uma formação sinfónica de cerca de 100 cantores, atuando igualmente em grupos vocais reduzidos, conforme a natureza das obras a executar.
Tanto pode apresentar-se a capella, como colaborar com a Orquestra Gulbenkian ou outros agrupamentos para a execução de obras coral-sinfónicas do repertório clássico e romântico. Na música do século XX tem interpretado, frequentemente em estreia absoluta, inúmeras obras contemporâneas de compositores portugueses e estrangeiros. Tem sido igualmente convidado para colaborar com as mais prestigiadas orquestras mundiais.
Lisboa
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