Centro cultural suíço fala do “período negro” em Portugal
"Natureza Morta" fala do passado. Assim como um quadro com objetos que não existem mais, o documentário de Susana de Sousa Dias resgata o passado de Portugal, mais especificamente o período de 48 anos da ditadura de Antonio Salazar.
Utilizando apenas imagens de arquivos, o filme volta a um período negro da história portuguesa. “Natureza Morta” foi exibido no último dia 6 de dezembro, no Centre Culturel Suisse de Paris, como parte do festival “Un Tour d’Europe”.
Segundo Nicolas Trembley, responsável pelo setor de artes visuais do CCSP, o evento, em sua primeira edição, é uma nova vitrine para documentaristas europeus divulgarem seu trabalho e trocarem idéias entre si. “Além disso, a Suíça tem uma tradição de produção de filmes documentários e o festival permite também atrair um publico novo para o centro cultural suíço em Paris”.
“Un Tour d’Europe”, acrescenta Trembley, se encaixa no atual ciclo de discussões sobre a arte na Europa, “L’Europe en Devenir”, organizado pela CCSP. “São oportunidades para os artistas reagirem numa Europa que está em plena transformação”, diz o organizador suíço.
Em Lisboa
O filme de abertura veio de Portugal: “Lisboetas”, do franco-luso-brasileiro Sérgio Tréfaut. Filho de mãe francesa e pai português, Tréfaut nasceu em São Paulo, onde viveu até os 11 anos. Hoje está baseado em Lisboa, cidade que nos últimos dez anos vem sofrendo grandes transformações, não só econômicas, mas também em relação à própria população, com a incorporação de pessoas vindas de outros países, com cargas culturais bem diferentes.
E é justamente dessa metamorfose que “Lisboetas” trata. “Em pouco tempo, a capital portuguesa começou a apresentar novas facetas, com a vinda de ucranianos, muçulmanos, indianos, brasileiros”, conta Trefaut. “Lisboetas” ficou em cartaz três meses nos cinemas portugueses.
Sérgio Tréfaut veio à Paris falar também de seu novo projeto, que pretende mostrar ângulos diferentes de outra capital: Cairo, no Egito. Verdadeiro formigueiro humano, Cairo conta com 20 milhões de habitantes. Mas o foco de Tréfaut são os que moram em cemitérios da capital, que acabaram se transformando, ironicamente, em bairros cheios de vida – além de casas, há lojas, serviços e até cybercafés. Entre 500 mil e um milhão de pessoas moram nessas necrópoles, muitas vezes mais agradáveis que vários bairros da periferia.
Já Susana de Sousa Dias, após mostrar a ditadura com “Natureza Morta”, vai atrás dos sobreviventes em seu novo documentário. “Para dar voz aos prisioneiros, que sobreviveram, explica Susana”. A diretora busca por exemplo, um bebê que aparece em uma foto de arquivo da polícia, nos braços de sua mãe detida pela repressão.
Documentário polêmico
A Suíça foi representada no festival pelo polêmico “Exit”, de Fernand Melgar. O título faz referencia a uma associação de ajuda a pessoas doentes em fase terminal que optam pelo suicídio. A Suíça é o único país do mundo onde se permite esse tipo de assistência. Um tema que lança a pergunta: escolher a própria morte não faz parte de um último ato de liberdade?
Documentários europeus
O evento reúne associações européias de documentaristas para debater a criação e a produção de filmes. A manifestação incluiu projeção de filmes europeus, mesas redondas e encontros com os documentaristas. Os países que participaram este ano são: Alemanha, Áustria Bélgica, Eslováquia, Espanha, Finlândia França, Grã-Bretanha, Holanda, Itália, Portugal, República Checa e Turquia.
Os encontros aconteceram em Paris de 4 a 8 de dezembro, no Centro Cultural Suíço, na Maison de l’Europe, no Instituto Goethe e no Centro Wallonie-Bruxelles.
O documentário português
A Apordoc – Associação pelo Documentário – foi criada em 1998, a partir de um grupo de reflexão sobre a cultura documentarista em Portugal. O objetivo é estimular a produção do gênero no país, apoiando principalmente os chamados “documentários de autor”. A Apordoc organiza festivais, seminários e edita uma revista bilíngue (português-inglês) bianual. A associação foi representada em Paris por Rita Forjaz e Caroline Barraud,
swissinfo, Patricia Moribe em Paris
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