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Mulher mais idosa da Suíça viveu no Brasil

Rosa Rein nasceu em 1897 Keystone

Rosa Rein, a mulher mais idosa da Suíça, perdeu a mãe num campo de concentração, fugiu do nazismo e viveu mais de 20 anos em São Paulo.

Uma das últimas pessoas nascidas no século 19, ela acaba de completar 112 anos e continua com muita vontade de viver.

Seus olhos e ouvidos enfraqueceram, a memória às vezes falha e as caminhadas exigem cada vez mais esforço. Mesmo assim, Rosa Rein garante: “Estou bem. Comigo os médicos não enriquecem.”

Em 24 de março, a mulher mais idosa da Suíça completou 112 anos. Ela vive no asilo Casa Anziani Residenza Paradiso, perto de Lugano, no sul do país. Em conversa com a agência de notícias suíça SDA, na véspera do aniversário, ela manifestou um único desejo: “continuar com saúde”.

Moradora do asilo municipal desde maio de 2001, após sofrer uma queda, ela levanta sozinha do sofá e anda alguns passos até a mesa – dispensando qualquer ajuda – para comer um pedaço de bolo e tomar um cappuccino.

“O cappuccino poderia ser mais forte”, diz. Ela fala pouco e devagar, com longas pausas entre as frases. Quando recorda a infância, demonstra saudades, como conta a amiga Luciana Laurenti Tadei à swissinfo.

“Na cidade tudo era melhor do que no campo”, lembra Rein, que nasceu em 24 de março de 1897 em Dzietzkowitz, Alta Silésia, região que pertenceu ao Império Germânico e hoje faz parte da Polônia. Ela cresceu com cinco irmãos numa fazenda.

A família judia era abonada, tinha 24 empregados. Rosa Rein frequentou a escola na cidade vizinha, em Myslovitz. Ela conta que tinha facilidade em aprender e também frequentou a universidade, algo raro para uma mulher naquela época.

Fuga dos nazistas

Depois disso, comandou com o marido uma manufatura de têxteis. Após a Noite dos Cristais (9 de novembro de 1938), quando nazistas à paisana incendiaram 267 sinagogas, mataram dezenas de judeus, destruíram lojas e empresas e tornaram inviável a vida da comunidade judaica na Alemanha, ela emigrou para o Brasil.

Enquanto o pai de Rosa Rein foi vítima de uma doença, sua mãe foi morta num campo de concentração “durante o período sombrio da história mundial”, como ela diz. O primeiro marido também morreu na Alemanha nessa época. Ela não gosta de falar desses acontecimentos. Uma foto dos pais está pendurada em seu quarto de dormir.

No Brasil, onde permaneceu durante 26 anos, ela se casou pela segunda vez, em 1949, com o dono de uma loja de calçados em São Paulo. Segundo revelou a Luciana Tadei, Rosa Rein não tem apenas boas lembranças da metrópole brasileira. “Fazia muito calor e havia muitos pobres e ladrões. Era preciso ter muito cuidado.”

Quando o segundo marido adoeceu, o casal procurou uma moradia num “clima saudável”. Em 1964, após uma breve estadia em Gênova, na Itália, eles se mudaram para Paradiso, um município com 3.500 habitantes à beira do Lago de Lugano, no Ticino.

Rosa Rein e a mãe de Luciana Tadei moraram durante muitos anos no mesmo prédio em Paradiso. “Elas eram como irmãs”, diz Luciana à swissinfo. “Rosa Rein sempre conta que a vida antigamente era melhor do que hoje”, acrescenta.

Mais idosa da Europa

Viúva desde 1973, Rosa Rein não tem filhos, e seus parentes vivem na Inglaterra, em Israel e na Califórnia (EUA). Alguns amigos e políticos locais a felicitaram na Residenza Paradiso. Ela brindou com um copo de champanhe e sorriu para as câmeras.

Segundo Tadei, Rein tem uma “personalidade muito forte. Há dias em que, quando não reconhece a visita, a manda sair do quarto. Mas ela sempre me reconhece e é muito curiosa, quer saber as novidades dos EUA, onde tem parentes, e o que está acontecendo na política suíça.”

Rosa Rein encara com tranquilidade o interesse da mídia pelo seu aniversário, que aumenta a cada ano. Segundo a Wikipédia, ela não só é a habitante mais idosa da Suíça e da comunidade judaica mundial, bem como a sexta mais idosa da Europa.

Com certeza, é uma das últimas pessoas nascidas no século 19. E continua com muita vontade de viver. Quando perguntada sobre o dia mais feliz de sua vida, Rosa Rein responde: “É amanhã”.

swissinfo com agências

A expectativa de vida na Suíça é uma das mais elevadas do mundo. Desde 1900, ela quase dobrou de 46,2 para 79,4 anos para os homens de 48,9 para 84,2 anos para as mulheres, segundo dados de 2007 do Departamento Federal de Estatísticas.

Embora Rosa Rein tenha superado essa média em uma geração, ela ocupa apenas o 26° lugar entre os 88 supercentenários com mais de 110 anos ainda vivos, segundo o Grupo de Pesquisas da Gerontologia (veja link abaixo).

O ser humano mais idoso ainda vivo é a americana Gertrude Baines, uma filha de escravos, que completará 115 anos em 6 de abril próximo.

A pessoa mais idosa registrada no Guinness Book of Records é Jeanne Calment, que morreu em 4 de agosto de 1997, aos 122 anos, na França.

O asilo Residenza Paradiso, de propriedade da comuna de Paradiso, foi inaugurado em 1° junho de 1994.

Localizado à beira do Lago de Lugano, hospeda 77 idosos e oferece atendimento médico in loco.

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