“Novelas freiam filmes brasileiros no exterior”
O Festival de Locarno também ocorre longe das salas de projeção: a venda de direitos e distribuição de verbas para produção. Os poucos cineastas e produtores brasileiros presentes descobrem que a competição é mais acirrada do que parece.
Uns acham que a presença reduzida dos filmes brasileiros fora do país é culpa da novela. Outros vêm na falta de experiência dos cineastas nos mercados internacionais o maior problema.
Não importa o país, os festivais de cinema têm sempre as mesmas características: algumas estrelas, horas passadas nas salas de projeção, filmes bons e ruins e a entrega dos prêmios, uma decisão que raramente é unânime. Mas o que o cinéfilo não costuma perceber é que, por detrás das cortinas, esses eventos são uma grande feira de compra e venda, onde distribuidores, por exemplo, disputam cada centavo pelo direito de exibir as obras que consigam encher suas salas de cinema.
No Festival Internacional de Cinema de Locarno, o roteiro também é o mesmo. A diferença é que ele é o espaço privilegiado do filme de autor, geralmente advindo de produções independentes. Por isso, muitos dos cineastas são convidados pela organização do evento, com passagem e estadia paga, pois já costumam trabalhar sob condições de forte restrição financeira para realizar suas obras.
Os brasileiros se incluem neste grupo. O diretor brasileiro Marcelo Gomes é um deles. Ele veio a Locarno para apresentar o projeto conjunto que realizou com o colega Cao Guimarães, que é membro do júri na seção “Cineastas do presente”. “Nosso projeto foi inspirado em um conto do Edgar Allan Poe, chamado ‘O homem das multidões’, que o Cao me apresentou e que gostei muito. Decidi então trabalhar o roteiro com ele. Trata-se do tema solidão e será rodado em Belo Horizonte”, conta Gomes.
O principal objetivo do diretor do aclamado “Cinema, Aspirinas e Urubus”, filme vencedor do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2007, é conseguir apoio à idéia. E para isso ele precisa vendê-la com todas as artes de sedução.
“Estamos aqui em Locarno para apresentar nosso projeto na seção “Open Doors”, que nesse ano se dedica à América Latina. Dos 350 que foram enviados do continente, apenas doze foram selecionados e o nosso é o único do Brasil. Durante Locarno tivemos muitos contatos com produtores, distribuidores e exibidores e o interesse foi enorme”, explica o cineasta.
E quais os resultados práticos da peregrinação? “Tivemos cinqüenta reuniões com pessoas da Itália, Alemanha, Espanha e Suíça. Eles são potenciais co-produtores. Queremos conseguir uma parte do dinheiro no Brasil e uma parte na Europa, para conseguir uma maior visibilidade na Europa, e a partir daí, fazer o filme.”
A culpa está na televisão
Questionado sobre a presença reduzida do cinema verde-amarelo em festivais internacionais – um paradoxo quando se leva em conta as dimensões continentais do Brasil e a sua baixa produção cinematográfica, lembrando-se que países como Irã, Coréia ou Argentina têm arrebatado prêmios internacionais nos últimos anos – Marcelo aponta com o dedo em riste para os culpados.
“O Brasil não consegue levar suas história para fora, pois a maioria dos diretores brasileiros vêm da televisão, da produção de novelas. Depois eles vão ao cinema para fazer uma novela de duas horas de duração. E ninguém está interessado em ir para o cinema ver uma novela latina. Os cineastas pegam atores de novelas, para rodar comédias românticas que só interessam a um público que acompanha as telenovelas brasileiras e fazem filmes. Esses filmes nunca vão ter uma visibilidade internacional.”
Essa opinião é compartilhada pelo produtor João Vieira Junior, da pernambucana Rec Produtores Associados. “Na história recente do cinema brasileiro, você tem o Cinema Novo, que era autoral e ‘underground’, nos anos 60. Já nos anos 70, você tem um forte investimento do Estado e depois, nos anos 80, uma quebra nesse investimento e um crescimento muito grande da televisão. Quando o subsídio governamental desaparece, desaparece também o cinema brasileiro. Ele se recupera nos meados dos anos 90, e você percebe que esse é o resultado do crescimento da televisão.” E qual o problema da TV? “Ao contrário do que ocorre nos outros países do mundo, no Brasil é ela que influencia o cinema.”
Paulo Roberto de Carvalho, membro da seleção de filmes em Locarno, concorda com o ponto de vista dos colegas, mas faz ressalvas. Em sua opinião, um grande problema é que os realizadores brasileiros “estão pouco conectados com produtores, distribuidores e festivais internacionais”. Ele próprio, brasileiro, criador de um festival latino-americano em Tübingen, cidade onde vive na Alemanha, também produz filmes e conhece o setor.
“Muitos só dão atenção aos prêmios e se esquecem que existe um mercado muito grande na Europa para o cinema autoral com propostas estéticas diferenciadas e que e o contato de base com seus atores é importante para conquistar um espaço.” Falta profissionalismo ao cineasta brasileiro? “Não, eu não concordo com isso, mas vejo que muitos têm medo de co-produzir seus filmes com europeus, por achar que estes irão influenciar seu trabalho.”
Novas gerações
Paulo acredita, porém, que nem tudo está perdido para o cinema nacional. “Temos autores jovens, com boas propostas. Eu acho que essa geração terá mais condições de encontrar um espaço no exterior. Esse é um processo de médio prazo.”
Dos representantes da ala jovem, estavam presentes em Locarno diretores de curtas-metragens como Gregório Graziosi. O jovem paulistano, que está terminando o curso de cinema na Escola Armando Álvares Penteado, depois de ter estudado Artes Plásticas na Escola Panamericana de Arte e Design, já teve o primeiro curta, “Saba”, exibido no Festival de Amsterdã e Cannes. Nesse filme ele retratou seus bisavós, que, naquele momento, formavam um casal de centenários vivendo em São Paulo, imigrantes italianos no Brasil.
Graziosi era um dos participantes que mais se esforçava. Na sua bolsa ele carregava cópias DVD do seu curta-metragem “Saltos”, exibido na sessão “Play Forward” de cinema experimental, e as distribuía a todos os contatos potenciais que encontrava nas exibições e nas festas. Com uma diferença de muitos compatriotas mais veteranos: ele explicava o trabalho em vários idiomas.
Com oito minutos de duração, seu filme fala sobre um atleta de salto ornamental que começa a perder a audição, um problema já vivido na pele pelo próprio autor (mas curado). A obra é uma colagem de imagens fortes, quase sem diálogos. “Eu conto a história através dos sons, pois qualquer falha auditiva afeta o equilíbrio e o atleta dessa categoria tem de saltar perfeitamente para não bater na plataforma e cair mal na água”, avalia.
O cineasta paulistano vê Locarno como uma forma de escapar do espaço restrito no Brasil para os seus trabalhos. “Os festivais no Brasil estão mais atrelados a filmes narrativos, com começo, meio e fim, e onde a linguagem não importa. Já os festivais europeus, especialmente o de Locarno, dão atenção para a pesquisa da cinematografia. Meu filme se preocupa muito mais com a sensação do que com contar uma história”.
Questionado sobre a rejeição vivida pelo cinema experimental, Graziosi vai ao ponto. “Sem dúvida, existe um preconceito contra essa linguagem, mas que é importantíssima para o desenvolvimento do cinema. Com esse tipo de trabalho é que conseguimos dar um passo à frente e fazer algo de novo, até mesmo na produção de filmes narrativos”, conclui.
Para a carioca Eva Randolph, que participou com seu curta-metragem “Dez elefantes” na sessão competitiva “Leopardos do amanhã”, o primeiro convite para estar em Locarno foi vivido como uma forma de adquirir experiência no meio e nos mercados internacionais.
“Foi interessante conhecer outros diretores brasileiros, como o Kiko Goifman, cujo filme achei muito bom. Além disso, consegui entender um pouco como é que funciona o processo de seleção se um dia eu quiser fazer um longa”, avalia. A jovem cineasta de descendência alemã também descobriu novas possibilidades técnicas. “Uma coisa que eu vi aqui no festival, que eu achei muito bom, é que a projeção digital é aqui muito melhor, chegando a ser melhor do que nos filmes de 35 milímetros. Obviamente o talento conta, mas vejo que o lado técnico está melhorando para o digital, o que pode baratear o nosso trabalho”.
swissinfo, Alexander Thoele
O 61° Festival Internacional do Cinema de Locarno se realiza de 6 a 16 de agosto.
A tela gigante na Piazza Grande, a praça central de Locarno, exibe 20 filmes. Da competição internacional participam 18 filmes. No total, 380 películas (curtas e longas-metragens) serão exibidas durante o festival.
O cineasta israelense Amos Gitai irá receber o troféu “Leopardo de Honra”, uma homenagem aos maiores diretores de cinema ainda vivos. A retrospectiva é dedicada ao cineasta italiano Nanni Moretti.
O festival também inclui outras seções, como as dedicadas aos jovens diretores de cinema ou aos filmes relacionados aos direitos humanos.
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.