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Um tira-teima suíço na Copa do Mundo

Análise de uma situação de impedimento com o software suíço. Liberovision

A seleção suíça não passou da primeira fase e o árbitro Massimo Busacca não vai apitar a final, como esperava. Mas pelo menos uma firma de Zurique continua no Mundial da África do Sul.

É a Liberovision, uma jovem empresa de software 3D, que desenvolveu o programa “DiscoverEye”, um tira-teima usado por grandes emissoras de televisão.

Até as semifinais, os árbitros da Copa 2010 deram vários gols irregulares e apitaram impedimentos que não existiram. Muitos desses e outros erros só foram vistos pelos torcedores no replay ou nas análises dos jogos na televisão.

Também os comentaristas não veem tudo a olho nu, mas dispõem de poderosas ferramentas eletrônicas nos estúdios para analisar minuciosamente cada situação de jogo.

Uma delas é o software 3D “Discover-Eye”, desenvolvido pelos engenheiros de computação Würmlin Stadler e Christoph Niederberger, fundadores da firma Liberovison, em Zurique.

Torcedores do FC Basileia, atual campeão suíço, Würmlin e Niederberger sempre haviam desejado que, durante as transmissões dos jogos, fosse possível rever os lances decisivos em uma perspectiva otimizada.

Würmlin contou à swissinfo.ch que, como durante o doutorado na Escola Politécnica Federal de Zurique já haviam feito experimentos com animações tridimensionais e análises baseadas em imagens de vídeo, eles resolveram adaptar essa tecnologia para decifrar lances controversos no esporte.

Aperfeiçoamento constante

A inspiração veio do filme Matrix, em que o tempo pára e cem câmeras circulam ao redor de um ator para filmar uma determinada cena. Por isso, os doutorandos inicialmente pensaram em fazer documentários. Seu software permitiria criar efeitos semelhantes com apenas 8 a 16 câmeras.

Os dois engenheiros, porém, logo reconheceram o potencial da tecnologia para as transmissões esportivas. A ideia original foi programar uma câmera virtual para mostrar o impedimento a partir da perspectiva de um bandeirinha corretamente posicionado.

O desenvolvimento do software ocorreu entre 1999 e 2007, quando atingiu velocidade e qualidade suficientes para ser usado pela primeira vez pelo Teleclub, um dos primeiros canais de televisão por assinatura da Europa, fundado em Zurique em 1982.

Desde então, vem despertando interessa em diversos países. Durante a Copa, grandes emissoras de televisão da Alemanha (ZDF e RTL), a BBC de Londres, a rede norte-americana ESPN, a Sky Itália, por exemplo, usam o software suíço.

Würmlin tem em seu escritório no Parque Tecnológico de Zurique livros sobre diversas modalidades esportivas para o qual o software já foi adaptado. A ESPN, por exemplo, o usa também nas transmissões de futebol americano e basquete, a NBC o utilizou para analisar partidas de hóquei no gelo nos Jogos Olímpicos do Canadá.

Atualmente, a Liberovision tem 14 funcionários – quatro deles estão apoiando as emissoras de televisão na África do Sul. Até a Europa 2012 na Ucrânia e na Polônia, ela pretende elevar este número a 40 e estar presente em todos os continentes. Há negociações também com emissoras brasileiras.

Würmlin explicou que o software continua sendo constantemente aperfeiçoado e sua aplicação ainda pode ser ampliada. A meta é que o sistema se torne tão rápido a ponto de poder ser empregado a qualquer momento, “como a câmara lenta”.

Análise de vários fatores

Hoje o “DiscoverEye” entra em campo principalmente no intervalo e no fim do jogo. Os comentaristas esportivos recorrem a diversos elementos gráficos (círculos, flechas, linhas etc) para fazer suas análises. Mas ele também serve para treinadores analisarem adversários ou treinarem novas táticas de suas equipes.

Urs Meier, chefe dos árbitros das Associação Suíça de Futebol, usou o software para comentar os jogos de Eurocopa 2008 e também o faz agora na Copa na televisão alemã ZDF. “O sistema da Liberovision não é útil apenas para analisar a arbitragem”, disse à swissinfo.ch.

Segundo Meier, ao calcular as diferentes perspectivas de câmera e processar as imagens televisivas reais, o “DiscoverEye” mede vários fatores, como a distância percorrida pelos jogadores, a distância entre a bola e o gol, a velocidade da bola, a posição dos jogadores, do árbitro e de seus auxiliares, entre outros.

“Isso é muito útil para a análise, porque podemos mudar as posições e mostrar a visão do árbitro de diferentes ângulos, ou um lance que ele não pôde ver porque estava encoberto e até para desmenti-lo se ele disser que não viu algo”, disse.

Treinamento de árbitros

Meier usa frequentemente essa ferramenta na formação árbitros e auxiliares “para mostrar porque eles cometem esse ou aquele erro, por exemplo, por estarem mal posicionados. Podemos mostrar-lhes como muda a sua visão quando se deslocam um metro para frente ou para trás ou estão na mesma linha do jogador”.

Hoje ainda demora alguns minutos até o programa apresentar a cena desejada em 3D. Ele, no entanto, poderia ser aperfeiçoado a ponto de poder ser usado como auxílio técnico instantâneo ao árbitro. Mas Würmlin deixou claro que o objetivo de sua empresa não é interferir no jogo.

Nesse ponto, ele partilha a opinião de especialistas como Urs Meier e o árbitro suíço Massimo Busacca, que são contra o uso da prova de vídeo para esclarecer toda e qualquer situação duvidosa durante uma partida de futebol.

“O futebol vive da emosção e da paixão. Nosso software pretende fortalecer essas emoções e provocar discussões sobre situações polêmicas. Queremos apenas visualizar melhor para o telespectador os momentos decisivos”, disse Würmlin.

Geraldo Hoffmann, swissinfo.ch

Durante um jogo de futebol, há até 30 câmeras no estádio, mas mesmo assim um impedimento muitas vezes não é imediatamente visível na tela da televisão.

O programa DiscoveryEye permite analisar o replay de lances chaves da melhor posição possível.

Para isso, o software calcula a partir das imagens de pelo menos duas câmeras da transmissão televisiva a visão desejada do lance.

Os comentaristas então podem explicar os lances polêmicos ao público usando elementos gráficos, mudando o ângulo de observação e as posições dos atores em campo.

A Liberovision foi fundada em Zurique em 2006, tem 14 funcionários e pretende ampliar este número para 40 até 2012. Mesmo em meio à crise de 2009 conseguiu dobrar seu faturamento.

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