Cruz Vermelha está pronta para a guerra
Presente no Iraque há 23 anos, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICR) já está preparado para atuar no país caso ocorra uma guerra.
Jakob Kellenberger, presidente da CICR, explica que até meio milhão de refugiados poderão ser atendidos caso haja necessidade.
Nesse fim-de-semana a crise política no Iraque conhecerá um momento crucial. Hoje os inspetores das Nações Unidas irão entregar seu relatório sobre o processo de desarmamento ao Conselho de Segurança. Esse será um elemento crucial na batalha diplomática que opõe os Estados Unidos à França e seus aliados na ONU.
A partir desse ponto, o conflito só terá duas saídas: ou os inspetores irão continuar seu trabalho de rastrear as armas escondidas por Saddam Hussein, ou a operação militar anglo-americana contra o Iraque será oficialmente lançada. A guerra, como afirmou o presidente americano George W. Bush, irá então começar, sem ou com a autorização do Conselho de Segurança da ONU.
Enquanto os soldados continuam a chegar nas fronteiras do Iraque, as organizações de ajuda humanitária como a Cruz Vermelha Internacional (CICR) também estão se preparando para o pior. Jakob Kellenberger, presidente da CICR, explica a swissinfo como estão os preparativos da organização, caso a guerra provoque o êxodo de milhares de refugiados.
Sr. Kellenberger, como estão os preparativos na Cruz Vermelha Internacional caso ocorra realmente um conflito armado no Iraque?
Desde outubro estamos aumentando nossas capacidades de resposta a problemas humanitários no Iraque e nos países vizinhos. Esse trabalho foi encerrado, em grande parte, já em janeiro.
Atualmente nós estamos com a capacidade de atender 150 mil refugiados. Porém também poderemos ampliar com rapidez nossas capacidades para atender até meio milhão de pessoas. Isso é um número considerável para uma só organização.
Porém nós, da Cruz Vermelha Internacional, acreditamos que uma guerra no Iraque não seja inevitável.
É possível se preparar a uma guerra, cujas conseqüências ninguém ainda consegue avaliar?
Existem dois fatores que são, de fato, imprevisíveis: a maneira como a guerra será conduzida e suas conseqüências. Por essa razão, seria muito pretensioso da nossa parte de dizer que nós conseguimos prever o conjunto de efeitos desse conflito.
Posso dizer, porém, que nós não trabalhamos sobre especulações ou sobre cenários de guerra. Na verdade nós planejamos as ações que poderão ocorrer, com base nas nossas próprias capacidades.
A CICR conhece bem a difícil situação humanitária, que se encontra atualmente a população iraquiana. Nós estamos presentes no país há mais de 23 anos.
A medida mais importante que tomamos foi de dispor do material necessário para garantir o bom funcionamento dos hospitais e do fornecimento de água. Essas são duas áreas vitais, onde as carências podem ser enormes.
Nós esperamos que uma parte da população poderá abandonar as cidades e até mesmo o país. Porém outras poderão continuar no Iraque.
Nosso trabalho será atender os refugiados no interior do país. Também será ocupação da CICR de atender aqueles que fugiram do Iraque.
Se a guerra estourar, será necessário também registrar os prisioneiros de guerra, organizar a visitação, etc. Existem uma quantidade enorme de trabalho a se realizar.
Você acredita que a guerra anunciada poderá ter um impacto sobre o resto do Oriente Médio?
Sim, estou seguro que esse conflito poderá ter graves conseqüências humanitárias para o resto da região. Porém eu não gostaria de especular sobre esse tema.
Recentemente a ministra suíça de Relações Exteriores organizou uma reunião humanitária em Genebra. Na sua opinião, quais foram os resultados concretos desse evento?
A reunião foi útil para a troca de informações. Porém, para a nossa organização, ela não teve dimensões operacionais. Outro detalhe foi o seguinte: as diferentes organizações humanitárias já haviam se coordenado anteriormente.
Algumas ONGs denunciam a vontade dos EUA de controlar as operações humanitárias. A Cruz Vermelha Internacional poderá garantir sua independência?
Nesse caso, assim como ocorreu também em outros conflitos, a CICR não fará concessões sobre sua independência, imparcialidade ou neutralidade.
Porém lá no Iraque, a sua organização não irá depender da boa vontade do exército americano?
Durante a ofensiva do Afeganistão nós provamos que é possível agir segundo os nossos princípios.
A CICR já conseguiu obter garantias de segurança para os seus funcionários no cenário de guerra, tanto da parte dos americanos como do próprio Iraque?
Para nós essa é uma questão prioritária. Porém nós nunca conseguimos garantias absolutas de seguranças para os nossos colaboradores. Por outro lado, nossa presença é aceita por todos os lados nesse conflito.
Porém, segundo a intensidade dos combates, será possível para a CICR retirar uma parte dos seus funcionários?
A Cruz Vermelha Internacional quer continuar no Iraque, como foi o caso em 1991. Porém problemas de segurança podem nos obrigar a retirar uma parte do pessoal.
O exército americano já deixou claro que poderá utilizar armas nucleares. Isso não seria um ato contrário ao direito humanitário internacional?
O direito humanitário proíbe o uso de armas químicas e biológicas. Porém não existe uma interdição formal contra as armas nucleares. Em revanche, esse mesmo direito humanitário proíbe o uso de armas que causem sofrimento e danos inúteis e desmesurados. A CICR leva em consideração essa possibilidade.
swissinfo, Anna Nelson e Frédéric Burnand, Genebra
tradução de Alexander Thoele
– A CICR tem cinco delegações no Iraque.
– Ao todo, são 35 representantes estrangeiros e 350 funcionários iraquianos.
– A CICR tem bases logísticas na Jordânia, Kuwait e Irã.
– No orçamento de 2003 estão planejados gastos de 22 milhões de francos suíços no Iraque.
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