Debate sobre Iraque entra na política suíça
A grande manifestação de sábado, em Berna, celou o entendimento entre as autoridades e o povo contra um ataque dos Estados Unidos.
Mas a margem de atuação da Suíça limita-se a defender o direito humanitário e autorizar ou não a utilização de seu espaço aéreo.
Pesquisa divulgada semana passada na Suíça indicava que 87,9% das pessoas questionadas rejeitavam uma intervenção militar no Iraque sem o aval das Nações Unidas.
Tradição de neutralidade
Essa é também a posição do governo suíço e dos principais partidos políticos questionados por swissinfo, com exceção da UDC, União Democrática do Centro, o partido mais à direita dos 4 que governam o país.
Preocupada em defender a neutralidade suíça em todas as circunstâncias, a UDC rejeita qualquer intervenção, aliás como os pequenos partidos de extrema esquerda.
Até agora, o debate político é bastante limitado. “Devido a tradição de neutralidade, os políticos exitam a participar de um debate sobre política estrangeira”, afirma a cientista política Marie-Helène Miaton.
“Por isso não é raro na Suíça que o povo entre no debate antes da classe política », explica a politóloga.
Foi o caso da manifestação de sábado, em Berna, quando 40 mil pessoas participaram de uma manifestação pela paz, superando as expectativas mais otimistas. Os manifestantes exigiram que a Suíça se comprometa na ONU contra a guerra e proiba a passagem de aviões militares sobre seu território, em caso de conflito.
A questão humanitária
Aí é que a questão entra realmente no campo político. Para o governo suíço, toda intervenção no Iraque é injustificável, a menos que o Conselho de Segurança da ONU vote uma segunda resolução autorizando a intervenção.
Se uma segunda resolução for discutida, a diplomacia suíça vai tentar incluir nela uma menção para que o direito humanitário internacional seja respeitado.
O deputado federal Claude Frey, membro da comissão de política extrangeira da Câmara, precisa que « a Suíça estaria presente durante e depois do conflito no plano humanitário e na reconstrução do Iraque.”
Mas ainda há sutís divergências mesmo entre os 7 ministros que compõem o governo federal. Domingo, o presidente em exercício e ministro do Interior, Pascal Couchepin, dizia que “não se deve impedir um conflito a qualquer preço ».
Dias antes, o ministro da Defesa, Samuel Schimid, dizia que o conflito era « inelutável ».
Por outro lado, a ministra das Relações Exteriores, Micheline Calmy-Rey insiste que « todos os meios diplomáticos devem ser utilizados para evitar a guerra.” Ela repete que a posição da Suíça nessa crise é reafimar sua preocupação com as pessoas. »
Sobrevoar o território
Na verdade, a única decisão a ser tomada, em caso de conflito, é autorizar ou não a passagem de aviões militares pelo espaço aéreo suíço.
Dieter Ruloff, professor de relações internacionais na Universidade de Genebra, acha que se a intervenção é avalizada pela ONU, o governo suíço vai autorizar o espaço aéreo.
Ele explica que “uma prática que data dos anos 60, muito antes da Suíça aderir à ONU, e que também é aplicada por outros países neutros como a Austria”.
Os meios econômicos temem que recusar a passagem pelo espaço aéreo “possa criar tensões políticas com os principais parceiros comerciais da Suíça, a União Européia e os Estados Unidos”. O receio é de Rudolf Ramsauer, diretor da “economiasuíça”, principal organização patronal do país.
Na próxima semana, o governo federal deverá tomar uma posição clara diante das comissões parlamentares de política de segurança.
A questão também será debatida na próxima sessão parlamentar que começa dia 3 de março, se até lá o Iraque não for atacado.
swissinfo
– A Suíça quer fazer tudo para evitar a guerra
– Se não possível, ela fará tudo para incluir a defesa do direito humanitário internacional, em caso de segunda resolução no Conselho de Segurança da ONU
– Durante e depois do conflito, a Suíça será atuante no plano humanitário e na reconstrução do Iraque
– Se o conflito é declarado unilateralmente (sem a ONU), a Suíça aplica o princípio da neutralidade e não autoriza o uso de seu espaço aéreo por aviões militares.
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