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Dois mortos em ocupação de terreno da Syngenta no Brasil

Segurança fotografa manifestantes na entrada da Syngenta, em Basiléia, em fevereiro de 2007. Keystone

O que era apenas uma vivência difícil entre a Syngenta e movimentos socioambientalistas, se transformou em drama no último domingo (21).

Uma nova tentativa de ocupação de um terreno da empresa no estado do Paraná resultou na morte da duas pessoas: um dirigente do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e um segurança que, supostamente, trabalhava para a Syngenta.

Ocupação de terreno por trabalhadores sem-terra, uma multa milionária aplicada pelo governo federal, a polêmica com os movimentos socioambientalistas acerca dos transgênicos e muita briga na Justiça são ingredientes que mostram como tem sido complicada a vida da empresa transnacional de origem suíça Syngenta Seeds no Brasil.

Domingo ocorreu o incidente mais grave, com dois mortos.

Segundo o relato de dirigentes da Via Campesina (que é uma aliança internacional de trabalhadores rurais da qual o MST faz parte), cerca de 150 trabalhadores sem-terra ocuparam o campo de experimentos da Syngenta localizado na cidade de Santa Tereza do Oeste, por volta das 6h da manhã de domingo.

Antes da ocupação, estes trabalhadores estavam concentrados no assentamento provisório Olga Benário, que fica numa fazenda próxima ao campo da Syngenta, e são os mesmos que ocuparam o terreno da empresa por 16 meses, até julho deste ano.

Dois mortos e vários feridos

Logo após a invasão, segundo o apurado pela polícia, os seguranças da Syngenta que estavam guardando o terreno foram desarmados e expulsos do local pelos sem-terra.

Por volta das 13h30, uma van e um microônibus chegaram em alta-velocidade à entrada do campo de experimentos. Dos veículos, saíram cerca de 40 homens fortemente armados que teriam aberto fogo em direção a um grupo de pessoas e, em seguida, rendido e executado Valmir Mota de Oliveira com dois tiros no peito à queima-roupa.

Valmir, que era mais conhecido como Keno, tinha 32 anos e era militante do MST e da Via Campesina.

A outra pessoa morta, com um tiro no rosto, foi o segurança Fábio Ferreira, que tinha 25 anos e estava no grupo que chegou no microônibus. A morte de Fábio é o único ponto ainda não esclarecido pela polícia.

Os sem-terra afirmam que ele foi morto durante a troca de tiros que se seguiu à execução de Keno. Os pistoleiros – sete deles já foram presos – afirmam que o segurança foi executado pelos sem-terra, o que só então teria provocado a reação do grupo armado.

No tiroteio, também ficaram feridos os trabalhadores sem-terra Udson Cardin, Gentil Couto Vieira, Domingos Barretos e Jonas Gomes de Queiroz. O caso mais grave é o da militante Isabel Nascimento de Souza, da Via Campesina, que foi espancada por um grupo de homens armados e se encontra em coma no hospital, ainda correndo risco de morte. Também deram entrada no hospital com ferimentos à bala os pistoleiros Marcelo Stevens, Vanderlei Giraldi e Rodrigo Oliveira Ambrósio.

Empresa nega participação

Logo após a confirmação do conflito e dos dois assassinatos, a direção da Syngenta Seeds no Brasil enviou aos jornais paranaenses uma breve nota pública na qual “lamenta o incidente” e nega qualquer participação na tentativa de recuperação do terreno pelos pistoleiros após a invasão: “A política global da empresa determina que não se use a força ou armas para proteger suas unidades”, afirma o documento.

A direção da empresa prefere aguardar o desenrolar das investigações para se pronunciar novamente: “Estamos colaborando com as autoridades locais na apuração do que de fato ocorreu em nossa unidade. O momento é prematuro para que possamos dar uma avaliação definitiva sobre o ocorrido em Santa Tereza do Oeste”, diz a nota.

A não-utilização de armas pelos seguranças que protegem as instalações da Syngenta foi confirmada, na Suíça, por Medard Schoenmaeckers, que é porta-voz da empresa: “Isso corresponde à prática da Syngenta no mundo inteiro e figura explicitamente no contrato que nós firmamos com a empresa local de vigilância”, diz.

Milícias

A firma contratada para fazer a segurança da Syngenta no Brasil se chama NF Segurança, mas a Via Campesina e o MST denunciam tratar-se de uma empresa de fachada, que serviria para encobrir a ação de milícias ilegais armadas que são articuladas pelas associações de produtores Sociedade Rural da Região Oeste (SRO) e Movimento dos Produtores Rurais (MPR).

O proprietário da NF, Nersi Freitas, estava foragido desde que, no início do mês, uma operação realizada pela Polícia Federal apreendeu armas e munições ilegais na sede da empresa, mas se apresentou à polícia paranaense na tarde desta terça-feira (23).

Pistoleiros presos

O MPR e a SRO, por sua vez, já haviam sido citados em audiência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, realizada em 18 de outubro, por organizar milícias que estavam promovendo ataques aos trabalhadores sem-terra.

Duas horas após o confronto, um grupo de sete pistoleiros foi encontrado pela polícia em um barracão de uma fazenda próxima ao campo de experimentos da Syngenta.

Presos, eles confirmaram que tentaram recuperar o terreno a pedido do MPR. Os pistoleiros foram indiciados por formação de quadrilha, homicídio e exercício arbitrário das próprias razões. Nenhum dirigente do MPR, no entanto, foi ainda identificado pela polícia.

Em nota divulgada na segunda-feira (22), a Via Campesina afirma que “a milícia atacou o acampamento para assassinar as lideranças e recuperar as armas ilegais da empresa NF Segurança, que foram apreendidas pelos trabalhadores”.

O documento afirma também que a intenção de matar dos pistoleiros era clara, pois “os dirigentes do MST Celso Barbosa e Célia Aparecida Lourenço chegaram a ser perseguidos, mas conseguiram escapar durante o ataque”.

swissinfo, Maurício Thuswohl, Rio de Janeiro

A Syngenta Seeds parece não dar muita sorte com o estado do Paraná.

Além de ter seu campo de experimentos em Santa Tereza do Oeste ocupado por 16 meses (o terreno da empresa chegou a ser desapropriado pelo governador Roberto Requião) até julho deste ano, foi no belíssimo estado ao Sul do Brasil que o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) aplicou na empresa suíça a multa de R$ 1 milhão pelo plantio de transgênicos dentro da zona de amortecimento do Parque do Iguaçu, onde estão localizadas as míticas Cataratas.

Para completar, a Justiça Federal do Paraná determinou no início de outubro que sejam canceladas todas as aprovações para plantio comercial de milho transgênico realizadas pelo governo nos últimos meses.

O cancelamento vigorará até que “se apresente de forma satisfatória respostas aos questionamentos da Justiça acerca dos riscos trazidos pelo milho transgênico à saúde humana e ao meio ambiente”.

A decisão da Justiça paranaense adia mais uma vez os planos da Syngenta de produzir em larga escala no Brasil o milho Bt11 desenvolvido pela empresa. Variedade transgênica resistente a herbicidas e inseticidas, o milho produzido com tecnologia suíça aguardava há sete anos para ser aprovado, o que aconteceu somente no mês passado, mas agora seu plantio comercial voltou a ser negado.

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